Sérgio Moraes/Reuters
 A Petrobrás registrou prejuído de US$ 9,4 bilhões no primeiro semestre de 2020. Sérgio Moraes/Reuters

Petrobrás lidera a lista dos maiores prejuízos no 1º semestre

Além da estatal, Latam, Suzano, Oi e Azul estão no topo do ranking de perdas na América Latina; veja

José Fucs, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2020 | 05h00

Entre 582 empresas de capital aberto da América Latina que divulgaram seus balanços até o dia 21, a Petrobrás foi a que teve o maior prejuízo no primeiro semestre, com uma perda de US$ 9,4 bilhões (R$ 51,5 bilhões), segundo um levantamento realizado pela Economatica, uma empresa de dados financeiros e tecnologia.

De acordo com a diretora financeira e de relacionamento com investidores da empresa, Andrea Marques de Almeida, o prejuízo foi provocado pela redução do consumo de combustíveis no mercado interno, em função das medidas de isolamento social e da diminuição da atividade econômica, e pelas provisões realizadas para cobrir o plano de demissão voluntária proposto aos funcionários.

Também teve forte impacto no resultado do período a reavaliação geral realizada nos ativos da companhia, como os campos de petróleo, para adequá-los às novas expectativas para os preços internacionais do produto no longo prazo, inferiores aos previstos antes da pandemia. Ainda que a perda tenha sido compensada em parte com o impacto da alta do dólar nas exportações, mesmo com a queda no volume exportado, o prejuízo acumulado pela Petrobrás no fechamento do semestre foi colossal.

Dívida dolarizada

Além da Petrobrás, das companhias aéreas, que tiveram perda quase total de receita na pandemia, e da Oi, que já vem cambaleando há anos, a Suzano aparece num surpreendente terceiro lugar na lista, recheada com 11 empresas brasileiras, com um prejuízo de US$ 2,3 bilhões (R$ 12,6 bilhões) no semestre (veja o gráfico abaixo).

A Suzano, como o setor de papel e celulose de forma geral, até faturou mais na pandemia, com alta de 20% nas receitas e de 35% no volume de celulose vendido aos clientes, segundo o principal executivo da área financeira da empresa, Marcelo Bacci. Isso se deu, em boa medida, de acordo com ele, por causa do aumento da demanda por papéis sanitários – uma área que representa cerca de 60% das vendas de celulose da companhia.

Como 80% da receita da Suzano vêm de exportações, a empresa também se beneficiou com a alta da moeda americana, que mais do que compensou a queda nos preços da celulose no mercado internacional desde antes da pandemia. Bacci afirma que o fato de o setor ter sido considerado como atividade essencial em muitos países, inclusive no Brasil, permitiu que a Suzano continuasse a operar durante a crise, sem precisar fechar fábricas e parar a produção.

Mas, apesar de o resultado operacional ter sido positivo, ele não foi suficiente para neutralizar as perdas financeiras registradas no período. Por ter uma dívida em dólar de US$ 12,4 bilhões, a empresa é obrigada pela legislação a reconhecer o impacto da desvalorização cambial de uma só vez, apesar de seus compromissos terem um prazo de vencimento médio de sete anos. A legislação brasileira também impõe a conversão da dívida em reais com base na taxa de câmbio em vigor na data de fechamento do balanço.

Com isso, embora a dívida tenha ficado praticamente estável em dólar, ela deu um salto em reais, passando de cerca de R$ 50 bilhões no fim de 2019 para R$ 66 bilhões em 30 de junho, anulando o resultado operacional  positivo e tingindo os números do balanço de vermelho. “Eu tenho de contabilizar uma dívida que não vence hoje, mas não posso fazer isso com a receita futura. Isso cria uma distorção contábil que levou a esse prejuízo”, diz Bacci. “O paradoxo é que a gente teve uma geração de caixa muito forte, mas um resultado líquido que foi um enorme prejuízo por causa dessa regra contábil.” Talvez isso ajude a explicar por que as ações da Suzano subiram cerca de 10% desde a divulgação do balanço há 15 dias.

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Bradesco fecha o semestre com o maior lucro da América Latina

O Itaú ficou em segundo lugar, mas teve maior rentabilidade em relação ao patrimônio

José Fucs, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2020 | 05h00

No primeiro semestre de 2020, marcado pela pandemia, o Bradesco superou o Itaú Unibanco, seu maior rival, e ficou no topo da lista das companhias abertas com os maiores lucros na América Latina. Segundo um levantamento realizado pela Economatica, uma empresa de dados financeiros e tecnologia, o Bradesco fechou o semestre com lucro líquido de US$ 1,257 bilhão (R$ 6,888 bilhões), enquanto o Itaú Unibanco, o segundo colocado, teve um ganho de US$ 1,246 bilhão (R$ 6,825 bilhões).

A pesquisa incluiu 582 empresas de diferentes ramos de atividade que divulgaram os balanços do segundo trimestre, para compor o resultado semestral, até o dia 21. O levantamento levou em conta o lucro contábil atribuído aos acionistas, usado como base para a distribuição de dividendos, e deixou de fora a parcela do resultado que vai só para os minoritários das subsidiárias.

O lucro contábil é o que consta nas demonstrações financeiras encaminhadas à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o “xerife” do mercado de capitais do País, e difere do chamado lucro recorrente, preferido por muitos analistas e empresas por expurgar fatores ocasionais que influenciam os resultados.

Segundo André Cano, vice-presidente do Bradesco para as áreas de finanças, riscos e operações, quatro fatores principais explicam o resultado alcançado pelo banco, que, mesmo no topo do pódio, ainda registrou uma queda de cerca de 40% no lucro líquido nos primeiros seis meses do ano em relação ao mesmo período de 2019.

Na ponta oposta, está o prejuízo de US$ 9,4 bilhões (R$ 51,5 bilhões) da Petrobrás, a empresa que teve o maior prejuízo da América Latina também no primeiro semestre do ano. No caso da petroleira, o resultado foi provocado essencialmente pela redução do consumo de combustíveis no mercado interno, em função das medidas de isolamento social e da diminuição da atividade econômica. Além da estatal, Latam, Suzano, Oi e Azul também estão no topo do ranking de perdas (veja mais abaixo).

Banco digital

Cano destaca a redução de despesas, de cerca de 3% nominais (sem incluir a inflação), o aumento na margem das operações de tesouraria e com clientes, de 9,2%, e o crescimento da carteira de crédito, de 14,9%, em relação ao primeiro semestre do ano passado. Ele destaca também o aumento do número de clientes em 2,1 milhões no período, para 31,3 milhões, graças à conquista da folha de pagamento de grandes empresas, ao aumento do número de operações feitas por meio do Bradesco Expresso, que atua com correspondentes bancários, e à abertura de novas contas pelo Next, o banco 100% digital do Bradesco. De acordo com Cano, isso permitiu amenizar a perda de receitas com tarifas, de 2,7% no primeiro semestre.

“É natural que o lucro absoluto do setor financeiro seja maior que o de outros setores. A operação bancária é muito intensiva em capital, para fazer frente às operações que você realiza”, diz Cano. “Agora, de forma geral, a rentabilidade dos bancos sofreu uma forte redução no primeiro semestre, com uma queda do retorno ao acionista praticamente pela metade na comparação com o mesmo período de 2019. Em relação ao patrimônio líquido, a lucratividade ficou em linha com a de outros setores e alguns deles tiveram resultados até superiores aos do setor financeiro.”

Embora tenha perdido a liderança no ranking de lucro líquido, o Itaú Unibanco teve uma lucratividade maior que a do Bradesco. Segundo a pesquisa da Economática, o lucro do Itaú representou 5,4% do patrimônio líquido ante 5,1% do Bradesco (veja o gráfico abaixo). Isso foi possível, mesmo com um lucro líquido menor, porque o patrimônio do Itaú tem sido inferior ao do concorrente desde o primeiro trimestre de 2019.

Neste quesito, porém, a BB Seguridade, a seguradora do Banco do Brasil, foi quem teve o melhor desempenho entre as 20 empresas latino-americanas com os maiores lucros, com uma rentabilidade de 34,4%. Entre os bancos, o mais rentável no período foi o Santander Brasil, com lucratividade de 7,79% em relação ao patrimônio.

De acordo com Renato Lulia, responsável pelas áreas de relações com investidores e inteligência de mercado do Itaú Unibanco, um fator eventual levou à redução do lucro líquido do banco: o lançamento de quase 100% da doação de R$ 1 bilhão feita para o programa Todos pela Saúde no balanço do segundo trimestre. “O que os investidores olham é o resultado recorrente, que tem alguns ajustes em relação ao resultado contábil”, afirma. “No resultado recorrente, nós tivemos um desempenho superior ao lucro contábil, que foi o maior resultado dos bancos no Brasil no trimestre.”

Lulia diz que o fato de o Itaú ter um patrimônio líquido menor do que o do Bradesco se deve a uma decisão gerencial tomada já há algum tempo, de procurar “fazer mais com menos” e direcionar uma parte maior do capital excedente para distribuição de dividendos aos acionistas, em vez de usá-la para reforçar o patrimônio, sem comprometer os índices de capitalização exigidos dos bancos no País e no exterior.

“A nossa capitalização ainda é supertranquila. Estamos mais de quatro pontos acima do mínimo regulatório”, afirma. “O que aconteceu foi fruto de uma decisão estratégica do banco de devolver ao acionista o capital excedente e de não carregar mais capital do que a gente precisa.”

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