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Petrobrás pode cortar pela metade encomenda de 28 sondas à Sete Brasil

Sem dinheiro em caixa e com dificuldades para levantar financiamento, após ser envolvida na Lava Jato, Sete Brasil não tem conseguido viabilizar os contratos assinados com a Petrobrás; governo estuda formas de tentar destravar crédito para a empresa

IRANY TEREZA, MURILO RODRIGUES ALVES, BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

06 de março de 2015 | 02h04

O projeto da Petrobrás de construção de 28 sondas de perfuração em águas ultraprofundas, entregue à Sete Brasil, vai sofrer uma redução brusca. A decisão sobre o tamanho do corte no portfólio ainda não foi fechada, mas o 'Broadcast', serviço em tempo real da 'Agência Estado', apurou que deve atingir quase metade da encomenda original.

Criada para ser a proprietária das plataformas flutuantes de perfuração do pré-sal e a maior fretadora mundial de sondas até 2020, a Sete Brasil, que tem a Petrobrás como acionista minoritária, negocia com o BNDES a liberação de um crédito aprovado em 2013.

A Sete Brasil foi envolvida no escândalo da Lava Jato pelo ex-gerente de Engenharia da Petrobrás, Pedro Barusco, que revelou, em acordo de delação premiada, suposto esquema de corrupção envolvendo a empresa. Desde então, a Sete tem dificuldade em obter empréstimos. Barusco participou da criação da empresa e chegou a ocupar uma diretoria.

Governo. Há, no governo, segundo apurou o Broadcast, um forte interesse em destravar essas amarras. Estão sendo avaliados mecanismos de blindagem e cláusulas de salvaguarda para facilitar o financiamento. Na segunda-feira, a presidente Dilma Rousseff recebeu no Palácio da Alvorada os presidentes do BNDES, Luciano Coutinho; da Petrobrás, Aldemir Bendine; e do Banco do Brasil, Alexandre Abreu. O empréstimo para a Sete foi um dos temas da pauta.

Não era esperada tanta dificuldade para financiar o projeto de construção das sondas. Cerca de 80% dos mais de US$ 25 bilhões necessários para viabilizar a construção de 29 sondas (28 das quais alugadas à Petrobrás) são oriundos principalmente desses financiamentos.

A Sete dividiu a construção das sondas em três grupos. O financiamento que está sendo barrado pela equipe técnica do BNDES refere-se ao primeiro lote, de nove sondas, inicialmente previstas para serem entregues em 2015 e 2016. O BNDES ficaria responsável por mais de US$ 3 bilhões, a Caixa, por US$ 1,5 bilhão e o banco britânico UK Export Finance, por US$ 220 milhões.

O segundo grupo tem 12 sondas e previsão de entrega para 2017 e 2018. Pelo projeto, o BNDES tem de desembolsar mais US$ 5 bilhões, o UK Export Finance mais US$ 580 milhões e mais US$ 1 bilhão de duas instituições norueguesas. 

Juntando as duas etapas, o BNDES deve financiar a Sete Brasil em mais de US$ 8 bilhões. Com a redução no total de equipamentos, o valor poderá cair. A área técnica do BNDES quer blindar as operações para que não haja contestação por órgãos de controle, como o Tribunal de Contas da União (TCU), ou até pelo Congresso, em meio à CPI que apura corrupção na Petrobrás. 

O terceiro grupo, com oito sondas para entrega em 2019-2020, deve ser financiado em R$ 10,3 bilhões pelo Fundo de Marinha Mercante (FMM). 

Mudanças. Entre as alternativas avaliadas para tentar solucionar o problema, é cogitada a mudança societária da Sete Brasil. Seria uma forma de fortalecer a empresa. Mas a possibilidade é remota, por não haver investidores interessados em entrar na empresa neste momento. Dependendo do atraso na liberação do financiamento do BNDES, o projeto fica inviável. O valor da multa pelo atraso pode acabar comprometendo a margem de lucro, afirmou uma fonte a par das negociações. 

A Petrobrás tem 5% da Sete, além da participação indireta no fundo que detém os outros 95% da companhia, em sociedade com os fundos de pensão Petros, Funcef, Previ e Valia, os bancos BTG Pactual, Santander e Bradesco, o FI-FGTS, o fundo EIG e Strong e os investidores Luce Drilling e Lakeshore Partners.

Além da dificuldade de financiar a construção das sondas, a Sete Brasil sofre as consequências do corte de investimentos da Petrobrás, única cliente da fornecedora. Como o Estado revelou nesta semana, a estatal pode cortar entre R$ 20 bilhões e R$ 30 bilhões nos investimentos previstos para este ano.

Investigações policiais e interferência política à parte, uma conjunção de outros fatores atingiram a Petrobrás e a Sete. Os principais são a queda de 45% no preço internacional do petróleo em um ano e a forte concorrência da produção de petróleo de gás de xisto pelos EUA, com custo de produção bem inferior ao do pré-sal.

Procurada, a Sete disse que trabalha para concluir a contratação de linha de crédito de longo prazo com o BNDES. O banco fixou algumas exigências, entre as quais uma fiança bancária de US$ 1,5 bilhão, que a empresa não tem como cumprir. 

A Sete afirmou que o plano de financiamento do negócio prevê desde a concepção, além de injeção de capital dos acionistas, até a obtenção das linhas de crédito. Ao todo, é um investimento de US$ 26,4 bilhões, com previsão de retorno de US$ 89 bilhões em 15 anos.

"A atual direção da Sete Brasil acredita e afirma categoricamente que o projeto de construção das 29 sondas representa um fundamental marco para a indústria naval nacional e para o desenvolvimento do País e este projeto será mantido", afirmou a empresa, por meio de nota. A companhia acrescentou que o projeto é "imprescindível" para a retenção de tecnologia no Brasil.

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