Petrobras vai usar Júpiter e Tupi para negociar com a Bolívia

Segundo diretor da estatal, campos serão curinga para demonstrar menor dependência do país vizinho

Kelly Lima, da Agência Estado,

22 de janeiro de 2008 | 18h08

A Petrobras vai entrar nas negociações sobre aumento de preço do gás natural com a Bolívia usando Tupi, e especialmente a recente descoberta de gás na área de Júpiter, como curinga para demonstrar uma menor dependência do país vizinho. "É claro que estamos em uma situação mais confortável para iniciar estas conversas, do que se não tivéssemos as descobertas", admitiu o diretor de Exploração e Produção da Petrobras, Guilherme Estrella. Além disso, Estrella afirmou que a produção de gás natural na área da Petrobras em Júpiter garantirá a auto-suficiência do País neste combustível. Segundo ele, "obviamente" o campo - que ainda será declarado comercialmente e nomeado a partir do único poço perfurado até o momento - não garantirá sozinho esta auto-suficiência. "Mas será de importância relevante", disse. O diretor afirmou, porém, que a área só deverá estar apta para entrar em operação em cerca de seis anos, ou seja, somente a partir de 2014. Indagado sobre a perspectiva de a área também possibilitar que o País passe a exportar gás natural, Estrella foi reticente: "esta não é uma decisão da empresa. É uma decisão estratégica do País e quem vai decidir se o gás será exportado ou não, será o governo federal", disse, lembrando que o Brasil sofre com déficit de gás e que depende deste insumo para o seu crescimento econômico.  Indagado sobre as negociações com a Bolívia, o diretor relembrou que o senador Severo Gomes, morto no acidente de helicóptero que matou também Ulysses Guimarães, costumava alertar aos amigos que "nunca entrassem em uma loja para comprar uma geladeira, se não pudesse sair da loja sem esta geladeira". "O ideal é entrar na loja sabendo que você pode sair da loja sem a geladeira. Hoje nós ainda não podemos", completou. Ainda na entrevista, Estrella rechaçou as especulações que circularam no mercado de que a Petrobras poderia ter forçado a divulgação desta nova descoberta em uma época em que estava com suas ações desvalorizadas na Bolsa, ou que se encontra prestes a se reunir com representantes bolivianos para iniciar uma nova rodada de negociações. "Isso não existe. A sonda foi retirada do poço no domingo e tão logo tivemos os primeiros resultados já informamos ao mercado e à ANP", disse Estrella.  Previsões Estrella disse também que a nova descoberta vem confirmar o sucesso das perfurações da estatal na região e "praticamente elimina o risco exploratório" naquela área. "Todos os poços que perfuramos apresentaram indícios de óleo. Isso acaba com qualquer risco", afirmou. Estrella negou-se, porém, a fazer qualquer previsão sobre o volume recuperável de gás natural no bloco. Segundo ele, qualquer previsão neste momento seria "leviandade e irresponsabilidade com a equipe técnica" da empresa. "O único detalhamento que temos é o que foi informado ao mercado: que as acumulações estão a mais de cinco mil metros de profundidade, e que há uma espessura em torno de 120 metros de gás", disse. Ele afirmou que a semelhança com Tupi, até o momento se deve principalmente ao tamanho da área, que possui 1,2 mil quilômetros quadrados. Indagado por jornalistas sobre a possibilidade conversão do volume encontrado em Tupi, de cinco a oito bilhões de barris para o equivalente em gás, Estrella ficou receoso e preferiu esquivar-se: "não é loucura nenhuma fazer esta conversão, mas não posso me adiantar neste sentido. Pode até ser maior, menor, não temos como confirmar nada antes de fazermos testes de produção na área", disse. O diretor explicou que a impossibilidade de fazer qualquer previsão se deve ao fato de a Petrobras ter sido obrigada a retirar de Jupiter a sonda que estava operando no local, porque ela havia chegado ao seu limite operacional e estava com uma parada programada para manutenção. "Se insistíssemos com ela, poderíamos estar atentando contra a segurança do empreendimento", disse.  A docagem desta sonda para a manutenção deve ocorrer até o final de 2008, quando a Petrobras pretende retomar as perfurações em Júpiter. Não está descartada, porém, uma reorganização do cronograma das sondas da empresa para priorizar as áreas localizadas na camada pré-sal. Hoje, a companhia possui apenas mais uma sonda - além desta parada - que está apta a atuar nessa profundidade. Esta única sonda está atuando hoje no BM-S-8, também na Bacia de Santos, mas estava programada para fazer perfurações no sul da Bahia quando terminasse. "Isso é revisto a cada dia", disse.  ANP Ele negou, entretanto, que a Petrobras tenha interferido junto ao governo federal para solicitar que as áreas localizadas em torno dos poços já perfurados sejam retiradas da lista de ofertas da Agência Nacional do Petróleo em seu novo leilão este ano, a exemplo do que ocorreu com a 9a Rodada no ano passado. Pelo menos dez áreas estão localizadas nesta área e devem ser bastante disputadas por conta do sucesso da Petrobras em suas perfurações. "O governo está acompanhando isso de perto e não cabe a Petrobras nenhuma ação neste sentido. Cabe à empresa apenas informar ao governo quando percebe que as reservas de uma área específica extrapolam os limites de sua concessão, para evitar que um mesmo trecho da reserva seja licitado. Isso certamente será feito se ocorrer", disse. No caso de confirmada a continuidade das reservas, ele lembrou que caberá ao governo fazer a unitização desta acumulação de hidrocarbonetos, distribuindo ao concessionários a parte que lhes cabe. "Outra forma de concessão existe e pode ser repensada em casos em que não há mais riscos exploratórios. Isso existe em outros países", comentou.

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