Petróleo e a lei da oferta e da procura
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Petróleo e a lei da oferta e da procura

Os Estados Unidos e outros países estão liberando barris de petróleo de suas reservas estratégicas para conter o avanço dos preços dos combustíveis, mas a medida pode não ter o efeito esperado

Celso Ming*, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2021 | 20h06

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, também se sentiu incomodado com o impacto da alta dos combustíveis sobre sua popularidade.

Não foi tão volátil e inconsequente como o presidente Jair Bolsonaro, mas também não se deu bem com a decisão tomada.

Bolsonaro procurou culpados em todos os pontos cardeais. Começou por estender seu indicador na direção do presidente anterior da Petrobras, Roberto Castello Branco, pela política de preços adotada e por isso o demitiu. O general Joaquim Silva e Luna, que assumiu seu lugar, manteve a política porque entendeu que não há outra. “Apenas pouco mais de R$ 2 no litro da gasolina a R$ 6 correspondem à parcela da Petrobras”, repete ele.

Bolsonaro passou, então, a culpar os governadores pelo impacto do ICMS sobre os preços, depois alvejou novamente a Petrobras, “que é um problema”, como afirmou. E ainda não apontou como um dos fatores da alta a disparada da cotação do dólar, porque, nesse caso, teria de admitir a falta de confiança na política econômica de sua responsabilidade. Entenda aqui como é a composição do preço da gasolina para o consumidor.

O presidente Biden entendeu que o impacto da gasolina sobre o custo de vida dos seus eleitores é consequência do aumento da demanda a partir da recuperação da economia mundial, numa paisagem de estoques baixos de combustíveis. Tentou empurrar a  Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) na direção de um aumento da oferta. Não conseguiu. Em seguida coordenou uma operação que envolveu também China, Índia, Japão, Reino Unido e Coreia do Sul para lançar no mercado 50 milhões de barris das reservas estratégicas. Não foi mais do que despejar uma canequinha na oferta. Esses 50 milhões de barris correspondem a apenas 12 horas de consumo mundial.

Os preços ameaçaram uma quebra na segunda-feira, mas, dois dias depois, os do petróleo tipo Brent voltaram a saltar para acima dos US$ 82 por barril. Prevalece o entendimento de que, apesar de uma nova onda de covid-19, a demanda continuará firme e, de quebra, poderá aumentar, porque se tais reservas são estratégicas, terão de ser repostas.

Além disso, os países da Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados (Opep+), que respondem por cerca de 30% da oferta global, se sentiram provocados pela decisão de Biden e poderão revidar com novo corte na produção. 

Nesta quarta-feira, Arábia Saudita e Rússia, os dois maiores líderes do cartel, avisaram que estão considerando colocar em modo lentidão a proposta de aumentar gradativamente suas exportações.  O acordo envolve planos para aumentar a produção em 400 mil barris por dia todos os meses até o próximo ano, até que o nível de bombeamento chegue próximo ao registrado antes da pandemia. 

A lei da oferta e da procura é como a lei da gravidade. Pode ser trabalhada em alguma medida, a favor ou contra, mas não pode ser revogada. 

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

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