Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Petróleo e dólar podem resultar em alta de combustíveis e manter inflação acima de 6,5%

Se Petrobrás quiser manter sua nova política de preços alinhada ao exterior, terá de elevar os preços dos combustíveis, afirmam economistas

Maria Regina Silva, Broadcast

02 de dezembro de 2016 | 11h40

SÃO PAULO - O acordo fechado por representantes da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) de cortar sua produção, e que impulsionou fortemente os contratos futuros de petróleo no mercado internacional, traz um risco de alta para os preços dos combustíveis no Brasil no curto prazo, segundo economistas ouvidos pelo Broadcast. Na avaliação da maioria dos profissionais, se de fato a Petrobrás quiser manter sua nova política de preços alinhada ao exterior e sustentar sua credibilidade, terá de elevar os preços dos combustíveis. Após a decisão da Opep nesta quarta-feira, 30, os preço do petróleo tipo Brent, que é referência global e que já vinham subindo, dispararam mais de 9% no mercado internacional.

Embora ainda não tenha consenso no mercado sobre a magnitude de um possível reajuste, os analistas alertam que a medida atrapalharia ainda mais o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de fechar em 6,5%, o que levaria o presidente do Banco Central (BC) a justificar, em carta, o rompimento do teto da meta. "Claramente é um risco (reajuste dos combustíveis). A questão é a magnitude. Se vier aumento da gasolina, o IPCA ficará ainda mais elevado", disse a economista Alessandra Ribeiro, sócia da Tendências Consultoria Integrada.

Outros mais cautelosos afirmam que seria necessário uma depreciação ainda maior do câmbio para amparar o aumento nos preços dos combustíveis, apesar de afirmarem que o encarecimento do petróleo coloca o tema em alerta. "O petróleo subiu lá fora e o câmbio s depreciou. A margem que a Petrobrás tinha em relação ao preço internacional está perto de zero. É bem provável que tenha reajuste, mas ainda não está no nosso cenário. Estamos atentos", disse o economista Caio Napoleão, da MCM Consultores.

A economista da Tendências Consultoria acredita que a Petrobrás honrará seu novo compromisso de preços. Por isso, não descarta a possibilidade de aumento de 5% a 15% na gasolina na refinaria nos próximos dias. "Alta de 10% seria um bom parâmetro para se pensar para a gasolina no varejo", disse. Isso, se confirmado, afirmou, daria um impacto de 0,20 ponto porcentual no IPCA, elevando sua projeção de 6,80% para 7,00% este ano. Já um eventual reajuste do diesel teria impacto nos índices gerais de preços (IGPs), porém o efeito é marginal, podendo se alongar a depender do encarecimento do frete.

Outro ponto que corrobora a ideia de reajuste nos preços dos combustíveis, segundo o diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), Adriano Pires, é quanto ao prêmio - diferença entre o custo de produção e o de importação. Ele lembra que esse prêmio chegou a US$ 15,7 por barril após a segunda queda de preço pela Petrobrás em novembro. Agora, caiu para perto de US$ 6,7. "Se a estatal quiser recuperar esses US$ 15,7 de prêmio, teria de aumentar a gasolina em 17% e o diesel em 16%", estimou.

Pelos cálculos de Alessandra, a cotação do barril de petróleo já acumula valorização de 20% desde o dia 8 de novembro, quando a estatal promoveu redução dos preços nas refinarias, enquanto o dólar tem ganho acumulado de 8,5%. "O preço lá fora está 28,5% mais caro em reais. Pode até ocorrer um reajuste elevado. Não dá para descartar alta de 15%", estimou.

O economista Daniel Gomes da Silva, do Modal Asset Management, também acredita que há grande possibilidade de a Petrobrás elevar os preços da gasolina, mas estima um reajuste entre 2,50% e 5%. "É bem provável que tenha o aumento, caso a estatal queira manter sua nova política", afirmou. Sem considerar reajuste de combustível, Silva projeta IPCA de 6,63% para este ano.

A dúvida, segundo Silva, é quando o reajuste ocorrerá, já que, segundo ele, não há clareza na nova política da Petrobrás. "O problema é o 'timing'. Pode ser que esse aumento do petróleo seja momentâneo e eles prefiram esperar mais um pouco para mexer nos preços", avaliou.

Além disso, os economistas consideram que o intervalo entre o anúncio da primeira redução nos preços, no dia 14 de outubro, e o segundo, no dia 8 do mês passado, não chegou a um mês, o que sinaliza que um movimento da estatal no curto prazo é provável. "Além da credibilidade, tem toda a indicação de que a estatal não quer nem tem condições de bancar essa diferença (aumento de petróleo e dólar)", avaliou a economista da Tendências.

Adriano Pires, do CBIE, observa que a Petrobrás "errou" ao promover uma redução nos valores dos combustíveis na véspera da eleição nos EUA, com a surpresa da vitória do republicano Donald Trump que fez o dólar disparar. Depois, acrescentou, veio a decisão da Opep.

Mais cauteloso, o economista Bernard Gonin, da Rio Gestão de Recursos, acredita que ainda tem um "caminho" antes de a Petrobrás decidir por subir o preço da gasolina. "O mercado teria de piorar muito. Com o preço do petróleo estável (na faixa de US$ 50), o dólar teria que atingir R$ 4,00. E, com dólar a R$ 3,50, o preço do petróleo teria de alcançar US$ 60 o barril. Esse não é meu cenário", afirmou.

Gonin, porém, não elimina a possibilidade de aumento no valor da gasolina. "Verdade que há duas semanas a defasagem era 34% e hoje está em 15%. Sem dúvida, a probabilidade aumentou, mas ainda é baixa se analisarmos as perspectivas atuais", ponderou.

Já o economista e sócio da MacroSector Fabio Silveira não vê espaço para reajuste, por enquanto, pois acredita que ainda há uma boa "gordura" - diferença entre os preços praticados no exterior e no mercado doméstico. Além disso, não acredita que o petróleo nem o dólar terão altas expressivas no curto prazo. "Mas dado que o petróleo começou a subir, pode-se começar a pensar nessa hipótese", observou.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.