Hamad I Mohammed/Reuters-4/8/2004
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Coluna

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Petróleo mexe com nervos do mercado

Apesar dos tumultos no norte da África e no Oriente Médio, ainda não houve rupturas significativas na produção ou na oferta do produto

Steven Erlanger, The New York Times, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2011 | 00h00

Os tumultos no norte da África e no Oriente Médio ajudaram os preços do petróleo a alcançarem mais de US$ 102 o barril do cru Brent (referencial), mas por enquanto não houve rupturas significativas na produção ou na oferta, segundo especialistas da Agência Internacional de Energia (AIE) em Paris.

Embora Egito e Tunísia tenham pouco petróleo, a Líbia possui uma das maiores reservas de petróleo da África, a Argélia e o Irã são grandes fornecedores e o Bahrein e o Iêmen fazem ambos fronteira com a Arábia Saudita na península que produz a maior parte do petróleo mundial.

Juntos, Líbia, Argélia, Iêmen, Bahrein e Irã representam cerca de 10% da produção global de petróleo.

Os mercados de petróleo são sabidamente ariscos, especialmente quando há a menor possibilidade de interrupções do fornecimento no Oriente Médio e no norte da Africa, responsáveis por cerca de 35% da produção mundial de petróleo e uma porcentagem ainda maior das reservas mundiais conhecidas.

E esse nervosismo provavelmente se espalhará para outros lugares, com tantas economias ainda fragilizadas depois da recessão econômica mundial e com a possibilidade de que isso possa aumentar ainda mais o preço dos alimentos. Esses preços já causaram tumultos em vários países, antes mesmo das revoltas políticas começarem no Oriente Médio.

O preço aumentado da energia é uma "carga que pode prejudicar a recuperação da economia global", disse Nobuo Tanaka, diretor executivo da AIE.

As reservas do Oriente Médio e norte da África (conhecidos como os países Mena, de "Middle East" e "North Africa"), embora desde há muito importantes, se tornaram ainda mais críticas com o aumento na demanda de petróleo. Os preços subiram cerca de 30% desde setembro, atingindo seu patamar mais alto desde setembro de 2008.

Fator Irã.Os que acompanham os preços do petróleo estão particularmente preocupados com o reinício dos tumultos no Irã e a possibilidade de a agitação se espalhar do Bahrein para a Arábia Saudita, o que poderia causar um grande impacto no preço do petróleo e na sua disponibilidade.

Richard H. Jones, vice-diretor executivo da AIE e ex-diplomata americano no Oriente Médio, disse que cerca de 17 milhões de barris passam todos os dias pelo Golfo Pérsico e o Estreito de Ormuz. "Se isso fechar, teremos um grande problema", disse ele.

Até agora, porém, disse Jones, os efeitos da agitação regional foram pequenos. Embora tenha havido protestos trabalhistas entre os trabalhadores do Canal de Suez, os analistas até agora disseram que não existe o perigo de aquela via vital ser afetada pela sublevação política no país.

A agitação na Líbia, embora grave, não interrompeu sua produção de petróleo. Jones e Didier Houssin, que dirige a diretoria para mercados de energia e segurança da AIE, disseram que a Líbia não era um grande produtor. Se houver uma interrupção no fornecimento da Líbia, "podemos lidar com isso", disse Jones.

Já para a analista de commodities Soozhana Choi do Deutsche Bank, "à medida que os protestos se espalhavam da Tunísia para o Egito para as ruas de Bahrein, Iêmen e os países membros da Organização de Países Exportadores de Petróleo (Opep) Argélia, Líbia e Irã, as preocupações com o risco geopolítico e o potencial para rupturas no fornecimento voltaram agressivamente" ao mercado de petróleo.

Reservas. A AIE monitora reservas estratégicas de petróleo que totalizam cerca de 1,6 bilhão de barris, disse Tanaka. A agência em algumas oportunidades liberou reservas para conter os preços mundiais do petróleo, como ocorreu na esteira da Guerra do Golfo Pérsico de 1991 e do furacão Katrina em 2005. O economista-chefe da agência, Fatih Birol, disse que com o preço do Brent acima de US$ 100 o barril "estamos entrando numa zona de perigo", com os preços do petróleo "criando pressões inflacionárias e colocando em risco a recuperação econômica".

Por enquanto, embora os estoques de petróleo estejam caindo com o aumento do consumo, "ainda há uma grande capacidade de produção excedente, especialmente em países da Opep" de cerca de cinco bilhões de barris por dia, segundo Tanaka.

Apesar de o mundo estar caminhando para mais fontes de energia renováveis e reavaliando a energia nuclear, ele ainda será dependente de combustíveis fósseis por muitos anos, disse Birol.

No futuro, "90% do crescimento da produção de petróleo serão cobertos por países Mena", disse ele. "Se não forem, teremos problemas." TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

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