Infográficos/Estadão
Infográficos/Estadão
Imagem Celso Ming
Colunista
Celso Ming
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Petromico

O fracasso da 13.ª Rodada de Licitações da Agência Nacional do Petróleo (ANP), realizada na última quarta-feira, não exige apenas “uma reflexão”, como sugeriu a diretora-geral do órgão, Magda Chambriard. Exige nova atitude.

Celso Ming, O Estado de S. Paulo

11 de outubro de 2015 | 03h00

Em entrevista ao programa Canal Livre, da TV Bandeirantes, o ex-ministro Delfim Netto fez uma advertência contundente: “A Petrobrás foi um grande negócio do século 20. A demanda por petróleo vai cair por uma necessidade superior. O pré-sal está aí, não foi embora, mas jamais será o que o governo teve a ilusão de que seria”. 

Quando avalia as causas do mergulho de mais de 50% dos preços do barril de petróleo desde julho de 2014, grande número de analistas avisa que a recuperação com que tantos sonham, inclusive da Petrobrás, não está nos radares de ninguém. Ao contrário, a perspectiva é de manutenção de uma oferta de petróleo e derivados acima da capacidade de consumo, o que sugere preços baixos por um longo período.

Reforça essa percepção o fato de que, a qualquer momento, a produção de óleo de xisto nos Estados Unidos, hoje parcialmente suspensa, pode voltar com força. O Irã, cuja produção ficou longamente paralisada nos 2 milhões de barris diários, pode rapidamente chegar a 5 milhões de barris por dia, graças à suspensão dos embargos. Além disso, por toda a parte há outros projetos de exploração ainda em curso, que deverão despejar mais petróleo e gás nos mercados.

No entanto, o principal fator que tende a tirar o petróleo de sua posição de destaque na matriz energética mundial (veja os gráficos acima) são as novas demandas por energia limpa. É a esse fator que o ex-ministro Delfim Netto se referiu quando colocou em dúvida o protagonismo da Petrobrás no século 21. No mundo todo, os incentivos para a produção de energia renovável, principalmente a eólica e a solar, vêm substituindo rapidamente a energia fóssil. O forte desenvolvimento dessas novas fontes está aumentando as escalas de produção e derrubando os custos.

Outro fator de importância crescente é a pressão por parte dos governos e das entidades de defesa do meio ambiente pela substituição da frota de veículos movidos a gasolina e a óleo diesel por veículos elétricos ou híbridos.

Essa substituição é um processo que vai durar algumas dezenas de anos, o que dá ao petróleo uma sobrevida. Mas também os investimentos neste setor têm uma maturação de seis a oito anos . As reservas de petróleo e gás que não começarem a ser exploradas nos próximos dez anos correm o risco cada vez maior de perderem competitividade e de permanecerem enterradas para sempre, como aconteceu no século 20 com o carvão mineral, alijado da matriz energética exatamente pelo petróleo e pela energia nuclear.

A reflexão proposta pela diretora-geral da ANP deve partir do princípio de que a atual política de exploração do petróleo no Brasil está destituída do sentido de urgência que a matéria exige. O objetivo foi fazer quase tudo por meio da Petrobrás, foi esperar pela empresa e, a partir do que aconteceu com ela, esperar que recupere as suas condições patrimoniais para, só a partir de então, enfrentar os investimentos. E isso também vai demorar.

Se o governo federal, os governadores e os prefeitos quiserem contar com royalties e recursos para investir em educação e em desenvolvimento, é preciso correr atrás do tempo que ainda resta para a era do petróleo e do gás e, o quanto antes, tirar proveito de produzir uma riqueza que tende a micar. Isso sugere maior abertura do mercado e revisão das regras do jogo para que passem a atrair interessados e facilitem os investimentos, e não o contrário.

Ainda na década de 70, quando aconteceram os dois grandes choques do petróleo, o ministro da área da Arábia Saudita, Ahmed Zaki Yamani, advertia àqueles que pretendiam segurar indefinidamente o petróleo debaixo do solo, para valorizá-lo ainda mais: “A idade da pedra não acabou por falta de pedra” - dizia ele - e o mesmo deve acontecer com o petróleo.

Notícias relacionadas
    Tudo o que sabemos sobre:
    Celso MingPetróleoEnergia

    Encontrou algum erro? Entre em contato

    Tendências:

    O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.