Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

‘Pets-propaganda’ vendem produtos para humanos e viram estrelas de campanhas

Cães vendem chocolate, sabonete e até vinho; agência de estrelas animais viu demanda explodir na pandemia

Lílian Cunha, Especial para o Estadão

20 de setembro de 2021 | 05h00

A vira-lata caramelo Malu tinha seis meses quando foi resgatada das ruas. Assim que ganhou um lar, não demorou para começar tocar o terror: mordia tudo, pulava e destruía a casa. Por isso, sua tutora, a consultora de negócios de moda Nathalia Freire, procurou Jeová Teixeira de Oliveira, da Escola Estrelas Animais, em São Paulo. Hoje com 5 anos, Malu aprendeu tanto que se tornou uma das celebridades mais requisitadas do mundo da propaganda: já fez campanhas para marcas como Garoto, Palmolive e Laboratórios Dasa. Chega a fazer vários filmes por semana. 

Não é à toa que cada vez mais produtos para humanos ganham campanhas estreladas por cães e gatos. Pesquisa realizada em junho deste ano pelas empresas DogHero (espécie de Airbnb para bichos) e o site Petlove mostrou que, entre 2.665 pessoas entrevistadas em todo País, 54% adotaram um animalzinho na pandemia. Com mais fãs entre os consumidores, foi natural para a publicidade lançar mão das estrelas animais para vender mais – para seus donos. 

“Antes da pandemia, gravava em média dois comerciais por semana com animais”, diz Jeová, da Escola Estrelas Animais. “Agora, são de quatro a cinco por dia”, conta ele. “E como cada produtora pede um teste próprio de covid, tem vez que chego a fazer três exames por dia, com aquela haste no nariz”, brinca Oliveira.

E a cadelinha Malu é uma das mais requisitadas, diz o adestrador, que também trabalha com gatos, cavalos e cabras. No início do mês, Malu foi a Salvador gravar uma campanha com Ivete Sangalo

Usar animais e crianças é uma saída clássica da propaganda. A ideia é tentar criar conexões emocionais com o consumidor. “É quase uma covardia porque as pessoas amam os bichos. Quando elas veem um bichinho numa propaganda, algo bate no cérebro delas que destrava essa coisa de fofura”, diz Bruno Brux, diretor executivo de criação da agência GUT.

E isso gera não só uma sensação de carinho como cria uma lembrança forte do bicho e, consequentemente, do produto. Quem, por exemplo, não se lembra dos bichinhos da Parmalat, do cachorrinho dos amortecedores Cofap, ou dos ursos polares da Coca-Cola?

Vinho dos dogs

Agora, com mais gente vivendo com pets em casa, essa conexão humano-animal tem se fortalecido na propaganda. É por isso que cada vez mais produtos sem relação com o mercado pet apostam nos bichinhos. Até o setor de vinhos está entrando nessa onda. 

A plataforma online Wine 2 You lançou uma coleção de vinhos na qual a estrela são cães de raças diferentes nos rótulos. “Um dos nossos produtores, na França, teve a ideia de pôr o basset dele no rótulo e atraiu muita atenção. Então, agora lançamos outro vinho, italiano, com um galgo. Vamos ter também mais raças para vinhos de outros países”, conta Hildebrando Lacerda, diretor comercial da empresa. 

“Quem nunca comprou um vinho pelo rótulo que atire a primeira pedra”, diz Cibele Siqueira, sommelière da concorrente Wine, que não ficou para trás. A empresa também lançou uma coleção de vinhos com rótulos em que figuram uma raposa, uma lhama e um gato do mato. “Esse amor pelos bichos aproxima a vinícola da pessoa e atrai gente nova para o mundo dos vinhos”, diz ela. 

Os bichos estão em tudo recentemente: a Amazon tem um filme no ar com um gato que brinca com um aspirador robô; a Garoto estrelou um filme com a vira-lata Malu; um labrador que fala fez o filme da Positivo Casa Inteligente. A AliExpress tem um coelhinho animado que fala e, no ano passado, até o Banco Central usou um vira-lata para falar da nota de R$ 200

A rede Burger King foi além: começou a vender um biscoito canino para atrair – e fidelizar – os donos de cães. Na campanha, criada pela David, cinco cães diferentes dominam a cena. 

“As pessoas transferem um pouco do amor que sentem pelos bichos para a marca”, diz Priscilla Ceruti, diretora de estratégia da Dentsumcgarrybowen. Mas, alerta ela, não é qualquer filme de bicho que faz sucesso. Se o consumidor percebe que houve algum tipo de sofrimento para o animal, o feitiço vira contra o feiticeiro. “Humanizar demais o animal também é estranho. Esse exagero pode gerar desconforto. Pode ser um tiro no pé”, diz a executiva. 

‘Making of’

Gravar com animais não é fácil, diz Brux, da GUT, que usou a cadela Malu e mais dois cães no filme da chocolates Garoto. “Dá muito trabalho porque eles, por mais treinados que sejam, são imprevisíveis.” 

Por isso, a produção precisa passar um “briefing” para o adestrador com, pelo menos, duas semanas de antecedência. “Assim, a gente já vai treinando o animalzinho para ele fazer o que está no roteiro. Chegando lá, fica tudo mais fácil”, diz Jeová, da Escola Estrelas Animais.

Muitas vezes, para não exigir muito de apenas um cão, dois bichos semelhantes são usados. A tecnologia também ajuda. Em 2020, a GUT fez um filme de Dia dos Pais para o Mercado Livre protagonizado era um ratinho que queria comprar uma esteira para seu dono. “Usamos um ratinho só para o filme todo. Para alguns movimentos que ele não conseguia fazer, utilizamos um ratinho robótico”, conta Brux. 

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