PF e Receita prendem 95 e desmontam megaesquema de importações ilegais

Depois de quase dois anos de investigação, a Receita Federal e Polícia Federal deflagaram, na madrugada desta quarta, 16, uma mega-operação para desmantelar a maior esquema de fraudes no comércio exterior já descoberto no Brasil. Batizada de "Dilúvio", a operação mobilizou 1.200 agentes da PF e da Receita em oito estados e nos Estados Unidos, onde a quadrilha tinha ramificações. Segundo informação oficial, 95 pessoas foram presas, de um total de 118 mandados de prisão expedidos pela Justiça.Foram também cumpridos 220 mandados de busca e apreensão, inclusive em grandes lojas de departamento e empresas. Entre os presos está o cabeça do esquema, o empresário de São Paulo Marco Antônio Mansur. A organização atuava há pelo menos 10 anos num complexo esquema, que envolvia dezenas empresas de fachada e empresários laranjas para a importação a preços subfaturados de produtos de marca, principalmente eletroeletrônicos, equipamentos de informática e telecomunicações, pneus, carros, embalagens, perfumaria, vitaminas, motos, tecidos, materiais cirúrgicos e baterias. Empresas varejistas também estão envolvidas no esquema. A Receita calcula que cerca de R$ 1,1 bilhão foram importados pelo grupo de forma ilegal nos últimos quatro anos. Pelo menos R$ 500 milhões, pelos cálculos da Receita e da PF, deixaram de ser pagos em impostos nesse período. Mas o valor pode ser muito, garantiu o secretário da Receita, Jorge Rachid. Segundo ele, o subfaturamento chegava em média a 50% do valor real do produto, permitindo a sonegação do Imposto de Importação, IPI, PIS, Cofins e ICMS, além do Imposto de Renda. Com a colaboração do Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos, a PF e a Receita também fizeram operações de busca e apreensão em estabelecimentos controlados pelo grupo brasileiro em Miami, com a autorização da justiça americana. Foi encontrado em Miami um grande depósito de mercadorias que seriam embarcadas para o Brasil. Foi a primeira vez que houve essa tipo de cooperação, disse o ministro da Justiça, Marcio Thomaz Bastos, que fez questão de "faturar" o resultado da operação.O braço do grupo em Miami, Adilson Soares, se apresentou aos agentes da PF e já está a caminho do Brasil. Soares deverá ser preso ao desembarcar no País, segundo a PF. Ele era responsável pela Feca International, empresa que atuava nos Estados Unidos junto aos grandes atacadistas internacionais. Conexão com outros esquemasO grupo de Mansur já tinha sido alvo das investigações na operação "Narciso", que desmantelou no ano passado oesquema de subfaturamento na Daslu, famosa loja de produtos de luxo de São Paulo. O esquema também abastecia com produtos o grupo de Law Kim Chong, considerado o maior contrabandista do País e que está preso. "A operação Narciso foi uma chuva perto do dilúvio de hoje (quarta, 16)", disse o diretor-executivo da PF, Zulmar Pimental, que dá nomes às operações.Segundo ele, foram expedidos 115 mandados de prisão e cerca de 200 de busca e apreensão no Paraná, Santa Catarina, São Paulo, Bahia, Rio de Janeiro, Pernambuco, Ceará e Espírito Santo.Os principais clientes do grupo eram empresas de São Paulo, Rio de Janeiro e Pernambuco. Cerca de 24 empresas comercializavam os produtos importados pela quadrilha. Esses reais importadores muitas vezes tinham conhecimento e até participavam das irregularidades. O esquema permitia a eles expressiva redução dos custos, o que garantia vantagem emrelação aos preços da concorrência. A PF suspeita que a própria Daslu estaria comprando ainda produtos de tradings (importadoras de fachada) do esquema. Fontes que participaram das investigações informaram que entre as empresas que receberiam mercadorias do grupo estão a Shoptime(canal de TV de venda de produtos), a CIL Informática de São Paulo e a loja de roupas masculinas Via Veneto.Dinheiro vivoAlém de Marco Antônio Mansur, também foi preso, em Santa Catarina, o assessor da secretaria de Fazenda do Estado, Aldo Hey Neto. Na sua residência, foram encontrados US$ 1 milhão e R$ 470 mil em dinheiro vivo. A assessora financeira da quadrilha, Alessandra Salewski, também foi presa na operação. O filho de Marco Antônio Mansur, o Marquito (Marco Antônio Mansur Filho) foi preso e estaria colaborando com as investigações. O braço da quadrilha no Rio de Janeiro, Antonio Carlos Barbeito Mendes, o Tony, e nove servidores da Receita, envolvidos no esquema, também foram presos.As investigações demonstraram que o grupo tinha estrutura para atender a um diversificado perfil de clientes, de pequenos a grandes distribuidores de marcas conhecidas do mercado. Segundo o chefe da área de inteligência da Receita, Gerson Schaan, a organização sustentava o chamado "mercado cinza", de marcas mais vendidas de produtos eletrônicos e de informática. Schaan informou que as investigações vão avançar, a partir de agora, juntos aos reais compradores dos produtos,as empresas varejistas.O superintendente da PF no Paraná, Jaber Saad, informou que todas as mercadorias das empresas envolvidas no esquema que estavam nas aduanas (portos e aeroportos) foram apreendidas. Também há autorização da Justiça para apreensão dos produtos que já foram embarcados nos Estados Unidos e estão a caminho do País. Segundo Saad, é a primeira vez que isso acontece. Grandes empresasAs investigações alcançaram grandes grupos, mas ainda falta esclarecer se eles agiram de má fé ou se foram ludibriados pela quadrilha. Entre esses grupos, que passam a ser investigados na próxima fase do inquérito, estão também o Carrefour e a Sony.

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