Foto: Taba Benedicto/Estadão
Dois componentes explicam a paralisia da produtividade industrial: a indústria de transformação e a de construção, com a redução da produtividade e estagnação nos últimos 21 anos.  Foto: Taba Benedicto/Estadão

PIB: Economia brasileira foi do auge ao declínio em 20 anos; leia análise 

A derrocada da economia brasileira está fortemente associada ao desempenho das indústrias de transformação e construção, escrevem os pesquisadores da FGV Claudio Considera, Isabela Kelly, Juliana Trece

Claudio Considera, Isabela Kelly, Juliana Trece*, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2022 | 15h50

O IBGE divulgou os resultados do Produto Interno Bruto (PIB) referente a 2021: cresceu 4,6%, recuperando a queda de 2020. O valor per capita de 2021 é de R$ 40.688,00, ainda inferior ao de 2010. Conforme as Contas Nacionais Trimestrais do IBGE, a economia brasileira cresceu (51%) no período 2001-2019, e o PIB per capita cresceu 24%, parecendo ter entrado em nova fase de expansão, a despeito dos percalços pelo caminho. Isso foi interrompido pela pandemia, mas não só. Agora há um fator a mais: a guerra Rússia x Ucrânia.

A que se pode associar tal desempenho, ignorando os fatores externos? Ao examinar as atividades que compõem o PIB, nos últimos 21 anos, conforme resultados em reais de 2021, verifica-se que a agropecuária praticamente dobrou seu valor adicionado (VA). Sua qualidade é ser uma “commodity” com forte demanda e elevado valor internacional. A indústria teve um desempenho bem inferior, aumentando seu VA em 27,7%. 

Conforme as Contas Nacionais Trimestrais, os piores desempenhos na indústria foram a de transformação e a da construção. Por outro lado, a extrativa mineral (“commodities”) e a eletricidade apresentaram crescimento significativo. Os serviços, por sua vez, tiveram seu VA aumentado em 55,7% representando, em 2021, 69% do VA total da economia.

Outro aspecto importante é o desempenho da produtividade, com aumento de 20% entre 2001 e 2013 e estagnação a partir de 2014 (na faixa dos R$ 82.000,00). Durante todo o período, a indústria, que tem a maior produtividade, declina enquanto a agropecuária, que tem a menor produtividade, cresce vigorosa e ininterruptamente. 

Os serviços, que têm baixa produtividade, evoluem de forma semelhante ao PIB. Dois componentes explicam a paralisia da produtividade industrial: a indústria de transformação e a de construção, com a redução da produtividade e estagnação nos últimos 21 anos.

A derrocada da economia brasileira está fortemente associada ao desempenho das indústrias de transformação e construção. Ambas ditam a evolução da indústria, e a indústria dita o rumo da economia brasileira, embora não sejam os componentes mais importantes. As “commodities” agropecuária e extrativa mineral – essa segunda graças às exportações de petróleo e gás e de minério de ferro – evoluem vigorosamente sem interrupção. Assim, aqui há duas notícias: a boa é que temos “commodities” e a má é que só temos “commodities”.

* SÃO PESQUISADORES DO INSTITUTO BRASILEIRO DE ECONOMIA DA FGV

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PIB cresce 4,6% em 2021, recupera perdas da pandemia em 2020, mas guerra piora perspectiva para 2022

Economia cresceu 0,5% no quarto trimestre do ano passado ante o terceiro

Daniela Amorim e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2022 | 09h07
Atualizado 04 de março de 2022 | 11h25

RIO - A economia do Brasil terminou 2021 confirmando a recuperação completa das perdas registradas com a pandemia de covid-19 em 2020, mas o ritmo lento da atividade no quarto trimestre e, agora, a guerra na Ucrânia, lançam dúvidas sobre o desempenho deste ano, que pode passar de uma esperada estagnação para uma retração. Com alta de 0,5% no quarto trimestre ante o terceiro, o Produto Interno Bruto (PIB, a soma de todo o valor gerado na economia) cresceu 4,6% no ano passado, ante queda de 3,9% em 2020, informou nesta sexta-feira, 4, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

 

Na prática, após atingir o fundo do poço no segundo trimestre de 2020, auge da pandemia, a economia se recuperou entre o terceiro trimestre daquele ano e o primeiro de 2021. O desempenho dos três primeiros meses garantiu o avanço do ano passado. Nas palavras da economista Alessandra Ribeiro, sócia da Tendências Consultoria, após voltar ao nível pré-pandemia, a economia “ficou de lado”.

O economista-chefe do banco Original, Marco Caruso, descreveu o desempenho do biênio 2020 e 2021 como “um grande zero a zero”. “Os 4,6% (de crescimento em 2021) nos devolvem para níveis pré-pandemia e mostram o quanto 2022 será um ano complicado”, disse o economista.

 

A recuperação do fim de 2020 a 2021 se deu de forma heterogênea, assim como foi heterogênea a forma como a pandemia desorganizou a economia, favorecendo alguns setores e prejudicando outros. Indústria e agropecuária saíram na frente na retomada, enquanto o setor de serviços, que responde por cerca de 70% da economia e é o mais afetado pelas restrições ao contato social, demorou mais para pegar o ritmo.

Só que o desempenho da indústria foi perdendo fôlego ao longo dos trimestres, por causa da demanda pouco firme e do travamento das cadeias globais de produção, que, desde 2020, vem causando escassez e encarecimento de componentes – a falta de semicondutores para a fabricação de automóveis é um dos ícones do problema. Já o crescimento dos serviços foi ganhando ritmo à medida que o avanço da vacinação contra covid-19 foi permitindo a volta ao “normal” de uma série de atividades, com o relaxamento de medidas de restrição ao contato social.

Serviços, agropecuária e indústria

Por causa dessa heterogeneidade e dos ritmos distintos, no quarto trimestre, os serviços cresceram 0,5% ante o terceiro trimestre, enquanto a agropecuária avançou 5,8% e a indústria recuou 1,2%. No agregado de 2021, houve crescimento de 4,7% nos serviços e de 4,5% na indústria. Afetada por problemas climáticos, com a estiagem e as geadas, a agropecuária encolheu em 0,2% ante 2020.

 

A reabertura da economia ao longo de 2021 também permitiu uma relativa melhora do mercado de trabalho, que já emprega número recorde de pessoas, embora com salários mais baixos – a renda média do trabalho terminou o ano passado no menor valor da série histórica do IBGE, iniciada em 2012.

Essa relativa melhora no mercado de trabalho, além dos pagamentos de novas rodadas do Auxílio Emergencial, ainda que com valores menores do que em 2020, impulsionou o consumo das famílias, principal componente do PIB pelo lado da demanda. O consumo cresceu 0,7% no quarto trimestre e fechou 2021 com avanço de 3,6%. Ainda pela ótica da demanda, a formação bruta de capital fixo (FBCF, a medida dos investimentos no PIB) avançou 0,4% no trimestre e 17,2% no ano.

 

“No início, houve uma recuperação sem empregos. Depois, o PIB andou de lado, mas com uma composição mais favorável aos empregos, ainda que abrindo vagas informais e que pagam pouco”, afirmou Bráulio Borges, economista sênior da LCA Consultores, ressaltando que a recuperação do nível de atividade econômica ao patamar anterior à pandemia não pode ser definida como um resultado positivo, já que, antes da covid-19, esperava-se crescimento em 2020 e 2021.

Agora, segundo economistas, esse processo de “normalização” está praticamente esgotado, faltando apenas alguma recuperação nos serviços mais afetados pelo isolamento social, como bares, restaurantes, hotéis e atividades de lazer. O problema é que, já no fim do ano passado, economistas alertavam que, terminada a “normalização”, há poucos motores para impulsionar a economia.

 

 

A inflação elevada – turbinada por choques de oferta de alimentos, energia e combustíveis, pelo encarecimento de matérias-primas e pela alta do dólar, que só passou a dar alívio neste início de 2022 – minou ainda mais o rendimento das famílias, segurando o consumo, ao mesmo tempo em que levou o Banco Central (BC) a elevar os juros básicos, esfriando uma demanda já não muito aquecida.

“O crédito mais caro, o ambiente de instabilidade e o comportamento dos indicadores de confiança não nos deixam ser muito otimistas com 2022”, afirmou o economista-chefe do Banco BV, Roberto Padovani.

 

Para Caruso, do banco Original, o ano não começou “tão bem, com a pandemia voltando a piorar temporariamente e a guerra no exterior”. A guerra na Ucrânia tende a agravar o quadro. Novas rodadas de valorização de matérias-primas, como o petróleo, pressionarão ainda mais a inflação, levando o BC a manter os juros elevados por mais tempo, ou, até mesmo, ir mais longe nos aumentos. O alívio nas cotações do dólar neste início de ano, que “ajudaria muito no processo de desinflação”, nas palavras de Alessandra Ribeiro, pode acabar apenas evitando uma nova escalada muito forte da inflação.

“Ainda não mudamos nenhum número (de projeção) por causa da guerra, porque depende muito da duração. Quanto mais prolongado o conflito, maiores os efeitos. Se for mais prolongado, haverá um efeito adicional na inflação, mas é um cenário econômico pior em relação ao que tínhamos previamente, que já não era muito bom”, afirmou a economista da Tendências./ Colaboraram Cícero Cotrim e Marianna Gualter

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Economia cresce, mas perspectivas, para 2022 e além, são bem pouco promissoras; leia análise

Ao fim e ao cabo, o que temos visto no Brasil é um longo período de estagnação, e não há muitos sinais de que isso possa mudar

Alexandre Calais*, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2022 | 10h21

A economia brasileira cresceu 4,6% no ano passado e recuperou a perda de 3,9% de 2020, provocada pela pandemia da covid-19. Terminou o ano, dessa forma, até um pouco acima (0,5%) do patamar em que estava no fim de 2019. É um bom resultado - o maior crescimento desde os 7,5% atingidos em 2010, também efeito de recuperação de uma crise (a financeira iniciada em 2008). 

Olhando ao longo do tempo, porém, o que temos visto é uma economia em um longo processo de estagnação. No governo Jair Bolsonaro, a conta, até agora, é de uma alta de 1,2% em 2019, -3,9% em 2020 e 4,6% em 2021. As projeções para este ano são, por enquanto, de alta de 0,2%, segundo pesquisa feita pelo Projeções Broadcast. Mas agora ainda tem um fator guerra para entrar nessa conta, com inflação mais alta, provavelmente juros subindo um pouco mais, atividade econômica mais pressionada. Não dá para descartar uma queda no PIB - já há muitas instituições prevendo isso. No final das contas, praticamente não teremos saído do lugar ao fim do mandato de quatro anos.

Claro, isso é um problema do governo. Dirigentes são eleitos para, entre outras coisas, gerir a economia de forma competente, gerando recursos para suprir as necessidades do país em termos de infraestrutura, saúde, educação, segurança. Com a criação de empregos suficientes para que todos possam viver uma vida decente, com pelo menos as necessidades básicas supridas.

Não é o que temos visto. E, em favor de Bolsonaro e sua equipe econômica, também não é um problema localizado neste governo. Não temos visto isso há muito tempo. Os anos 1980 ficaram conhecidos no Brasil como a "década perdida", um período de crescimento muito baixo, inflação muito alta, renda per capita em queda. Mas o quadro que temos visto recentemente não difere tanto assim disso. Na última década, já enfrentamos uma recessão bem forte, entre 2014 e 2016. A inflação já superou em dois anos a casa dos 10%. Entre 2011 e 2020, o PIB per capita recuou, em média, 0,6% ao ano.

O governo Bolsonaro é um desastre em praticamente todas as áreas. Educação, saúde, segurança, meio ambiente, relações internacionais, democracia, em tudo isso o que o País viu foi um retrocesso. Não haverá nada de positivo a apresentar. 

Na economia, porém, até houve avanços, que devem dar frutos mais à frente. Reforma da Previdência e autonomia do Banco Central são alguns exemplos. Alguns têm potencial para atrair investimentos bilionários, como o novo marco das ferrovias. O marco do saneamento pode iniciar um processo para pôr fim a uma das principais mazelas do País: a enorme quantidade de pessoas sem acesso ao básico dos básicos, água limpa e esgoto tratado.

Mas, ao fim e ao cabo, a impressão que dá é que continua a faltar um projeto de País. Continuamos sem saber para onde vamos, o que queremos como nação. Temos um processo eleitoral em curso, mais uma chance de mudarmos o caminho errático que insistimos em seguir há tanto tempo. Mas os debates travados até aqui, o nível das discussões, infelizmente, até o momento, não permitem muitas esperanças. 

*Editor-coordenador de Economia

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Crescimento do PIB dentro de 2021 foi de apenas 1,3%; leia análise

Resultado de 4,6% veio mais do buraco de 2020 do que do desempenho no ano passado

Roberto Macedo*, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2022 | 10h47

O IBGE anunciou nesta sexta-feira, 4, que entre 2020 e 2021 o PIB cresceu 4,6%, o que dá uma visão enganosa da variação do PIB dentro de 2021, que foi de apenas 1,3%. O gráfico que acompanha este artigo explica essa diferença. 

Nota-se que em 2020 o índice do PIB teve um movimento em V, ou seja, de queda e recuperação, com esta se completando só no primeiro semestre de 2021, cujo índice do PIB, de 171,8, foi bem próximo daquele do quarto trimestre de 2019 (171,3). Com esse movimento em V o índice do PIB trimestral médio de 2020, ficou em 163,5, e sabe-se que isso levou a uma queda de 3,9% relativamente à média de 2019.

 

 

Já em 2021 o índice do PIB trimestral médio foi de 171,6, o que, comparado com a média de 2020 produziu o crescimento de 4,6%. O gráfico também mostra que após a recuperação em V ele passou a um formato similar ao símbolo da raiz quadrada, com o PIB crescendo muito pouco em 2021, inclusive com dois trimestres de variação negativa. Tomando-se o PIB médio de 2021 e comparando-o com o PIB do último trimestre de 2020, chega-se à taxa de 1,3% já citada.

Creio ser importante mostrar essa outra taxa, pois a de 4,5%, que deve dominar o noticiário, é ilusória quanto ao crescimento dentro de 2021, e seu resultado veio mais do buraco de 2020 do que do desempenho no ano passado.

*ECONOMISTA (UFMG, USP E HARVARD), É CONSULTOR ECONÔMICO E DE ENSINO SUPERIOR

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