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PIB ainda fraco

Não há nada muito entusiasmante que se possa tirar dos números da atividade econômica brasileira em 2018

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2019 | 21h00

Não há nada muito entusiasmante que se possa tirar dos números do PIB divulgados nesta quinta-feira. A retomada da atividade econômica continua fraca e frágil, especialmente no último trimestre, o que sugere falta de tração para este início de ano.

É verdade que, depois de dois anos de recessão (2015 e 2016) e de um ano de baixo crescimento (2017), em 2018, a renda avançou 1,12% e deixou para trás uma fase pior.

No entanto, é pouco quando se tomam três bases de comparação. Esse 1,12% de avanço é pouco quando se levam em conta as expectativas do início de 2018, que previam um crescimento de pelo menos 3,0%. É pouco quando se considera que o PIB do ano passado ainda ficou 9% abaixo do que estava no início de 2014. E é pouco quando se compara com o que acontece com outras economias em desenvolvimento: a Índia e a China, por exemplo, crescem a 6,6% ao ano e a Coreia do Sul, a 2,7%. O Brasil é hoje um país desarrumado que não consegue eficácia tanto na administração da educação, da saúde e da segurança quanto na administração da economia.

Quem precisa de projeções firmes para orientar suas decisões espera um avanço do PIB de 2019 da ordem de 2,48%, como indica o Boletim Focus, do Banco Central, que faz um levantamento entre 117 consultorias e departamentos de economia pelo País. No entanto, o crescimento inexpressivo do último trimestre de 2018, de apenas 0,1%, indica um empurrão fraco demais para dar conta disso. Nas próximas semanas, provavelmente será preciso rever para baixo essas estimativas.

Os analistas convergem nas explicações para esse desempenho chinfrim do PIB ao longo de 2018: o impacto da greve dos caminhoneiros ocorrida em maio, as incertezas eleitorais, a crise da Argentina que derrubou as exportações de manufaturados... E vão por aí.

São razões que tiveram lá sua influência, mas que não pode ser exagerada. Um buraco no chão ou uma pedra no caminho podem provocar um tombo vexaminoso, mas, vai ver, a causa mais importante é outra: é a alta dosagem alcoólica no organismo do pinguço.

Os problemas da economia vêm lá de trás. As contas públicas vão mal há mais de dez anos, a indústria segue imersa num processo crônico de perda de competitividade, o País poupa uma insignificância e investe outra insignificância (veja o Confira). Afirmar que tudo se deve aos juros ainda altos demais, como têm reclamado certos empresários, é resvalar para outro erro de diagnóstico. No período 2006 a 2010, por exemplo, os juros eram quase duas vezes mais altos e, no entanto, na média, a economia cresceu mais de 5,0% ao ano. É provável que haja certo espaço para nova queda dos juros, mas ninguém se iluda: neste momento, contribuiria pouco para a retomada.

Grande número de economistas, especialmente do governo, vem advertindo que uma retomada sustentável apenas será possível com reforma robusta da Previdência Social. Esse seria bom começo, mas, por si só, pode não ser fator suficiente para turbinar a economia. Melhor dizer que a falta dessa reforma poderia produzir grandes incertezas que, por sua vez, poderiam produzir um desastre de vastas proporções.

CONFIRA

» Em falta

O gráfico ao lado mostra como têm evoluído poupança e investimento no Brasil. (O investimento é mais alto do que a poupança porque o País conta com entrada forte de poupança externa – capital estrangeiro.) Poupança e investimento hoje são crescimento do PIB de amanhã. Esses volumes são insignificantes quando se levam em conta as necessidades do País. Será necessário um investimento de pelo menos 22% do PIB para garantir um crescimento da ordem de 3% ao ano. Hoje, está nos 15,8% do PIB.

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