Alex Silva/Estadão - 27/4/2021
Shopping; a continuidade do processo de reabertura e os estímulos ao consumo influenciaram no resultado do PIB Alex Silva/Estadão - 27/4/2021

PIB traz boas notícias, mas há limites para a sua velocidade; leia análise

A segunda metade do ano tende a ser mais desafiadora, escreve Márcio Mesquita, economista-chefe do banco Itaú

Mário Mesquita*, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2022 | 17h00

O PIB do primeiro trimestre embute boas notícias, e aponta para uma expansão da economia entre 1,5% e 2,0% em 2022. O consenso entre os economistas de mercado, que apontava para uma expansão inferior a 0,4% nesse ano ao final de 2021, deve se deslocar para o intervalo acima citado, a despeito de visões geralmente mais sombrias sobre o ambiente externo.

Nossa projeção era de crescimento de 1,3% no primeiro trimestre, com ajuste sazonal frente ao anterior, e o resultado divulgado ficou um pouco aquém, 1,0%. Quando consideramos o lado da oferta, o desapontamento veio da agricultura, enquanto a indústria veio em linha com o esperado, e os serviços, sob o efeito da reabertura, mais fortes. Analisando o PIB pelo lado da demanda, o consumo das famílias refletiu a normalização da mobilidade e circulação em fevereiro e março, ao passo que o investimento sofreu uma retração.

Olhando adiante, com a divulgação do PIB do primeiro trimestre, o carrego estatístico para o ano subiu de 0,8% para 1,5%. Dois fatores devem estar ajudando o PIB no trimestre corrente: a continuidade do processo de reabertura e os estímulos ao consumo, incluindo a liberação de recursos do FGTS e antecipação do 13º salário de aposentados – uma expansão entre 0,5% e 1,0% parece plausível.

A segunda metade do ano tende a ser mais desafiadora, dado que alguns dos estímulos correntes devem passar ou ser revertidos, e tendo em vista o impacto progressivamente mais forte da política monetária – esperamos uma contração média de 0,4% por trimestre.

* Economista-chefe do banco Itaú

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PIB cresce 1% no primeiro trimestre, puxado pelo setor de serviços

No período, os serviços tiveram alta de 1%, enquanto a indústria cresceu apenas 0,1% e a agropecuária recuou 0,9%

Daniela Amorim e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2022 | 09h06
Atualizado 02 de junho de 2022 | 20h56

RIO - A retomada mais forte das atividades presenciais, após o arrefecimento da pandemia, impulsionou o setor de serviços no primeiro trimestre. E foi esse setor, ajudado pelas atividades exportadoras, que fez o Produto Interno Bruto (PIB, a soma de todo o valor gerado na economia) subir 1% no primeiro trimestre, segundo dados divulgados nesta quinta-feira, 2, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

 

 

Com a normalização das atividades, o setor de serviços puxou a economia pelo lado da oferta, com avanço de 1% ante o quarto trimestre de 2021, enquanto a indústria cresceu 0,1% e a agropecuária caiu 0,9%.

O número veio abaixo do número esperado pelo mercado, de 1,2%, segundo levantamento do Projeções Broadcast. Mesmo assim, foi considerado como bastante positivo pelo mercado. Os economistas passaram a subir suas previsões para o ano, com muitos analistas já falando em um crescimento de 2%. Mas há dúvidas se é um ritmo de crescimento sustentável, especialmente levando-se em conta o aumento das taxas de juros, que tem o efeito de derrubar a atividade econômica para conter a inflação.

“Uma parte da explicação sobre 2022 é que 2021 não acabou. Não tínhamos conseguido reabrir toda a economia ano passado”, disse Silvia Matos, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV) e coordenadora do Boletim Macro Ibre.  

 

Do lado da demanda, a normalização do funcionamento dos negócios também permitiu ao consumo das famílias crescer 0,7% na comparação com os três últimos meses de 2021. A normalização favorece o consumo porque permite a satisfação da demanda reprimida por serviços como bares, restaurantes, turismo e lazer – os serviços respondem por boa parte do consumo, especialmente entre as famílias de maior poder aquisitivo.

 

No curto prazo, a normalização também vem impulsionando a melhora do mercado de trabalho, especialmente porque os serviços mais afetados pelas restrições ao contato social – como bares, restaurantes, hotéis, casas de show, cinemas e salões de beleza – geram muitos empregos. No trimestre móvel encerrado em abril, a taxa de desemprego caiu, embora as novas vagas de trabalho estejam pagando salários menores do que antes da pandemia. 

 

Conforme Guilherme Mercês, chefe da Divisão de Economia e Inovação da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), a melhora no mercado de trabalho também ajudou a sustentar o consumo das famílias. Embora os salários dos novos empregos estejam mais baixos do que antes da pandemia, com mais trabalhadores ocupados, há mais gente reforçando os orçamentos domésticos, impulsionando a demanda. O aumento das transferências de renda, com a introdução do Auxílio Brasil de R$ 400, e antecipações do 13º-salário para pensionistas também ajudam.

“A retomada do emprego tem sido o principal fator de surpresa, para explicar os números de comércio e serviços. Isso acontece mesmo com o rendimento médio caindo”, afirmou Mercês.

O crescimento parece ter se mantido neste segundo trimestre, mas as dúvidas sobre o ritmo da economia de meados do ano em diante se justificam por causa da inflação elevada e dos remédios amargos para enfrentá-la. Causada ainda pelos desequilíbrios associados à pandemia e agravada pela guerra na Ucrânia, a inflação – espalhada, com alta em torno de 12%, no acumulado em 12 meses – corrói os rendimentos das famílias, que tenderão a consumir menos. Para conter os reajustes de preços, o Banco Central (BC) age para esfriar a economia. Desde março do ano passado, a Selic, taxa básica de juro, saltou de 2,0% para 12,75% ao ano.

“Está faltando um motor para a economia. A inflação é sinal de que está faltando ‘gasolina’ no motor”, afirmou Matos, do Ibre/FGV.

Na verdade, os efeitos de mais inflação e juros já se fizeram sentir no primeiro trimestre, segundo Rebeca Palis, coordenadora de Contas Nacionais do IBGE. Na comparação com os três primeiros meses de 2021, a taxa de inflação praticamente dobrou, enquanto, na média, a Selic passou de 2,0% ao ano, no primeiro trimestre de 2021, para 10,1% em igual período deste ano. Entre os dois cenários, o consumo das famílias cresceu 2,2%. Mesmo assim, chegou ao primeiro trimestre deste ano 0,7% abaixo do nível do quarto trimestre de 2019, o último antes da pandemia, e 1,2% abaixo do máximo já registrado, no primeiro trimestre de 2014.

“Não fosse a inflação e a Selic (mais elevadas), o consumo poderia ter aumentando mais”, afirmou Palis. “E o mercado de trabalho está meio de lado ainda. Cresce a ocupação, mas com rendimento em queda. A massa salarial real está muito afetada pela inflação”, completou.

Para piorar, a falta de combustível no motor do crescimento poderá ser reforçada pelo excesso de endividamento, lembrou Mercês, da CNC. Segundo o economista, as sondagens de confiança da entidade mostram que oito em cada dez famílias têm dívidas a vencer. É o maior nível de endividamento em 12 anos.

Ainda que esse item meça todo tipo de dívida, não apenas aquelas em atraso, isso sugere que os aumentos de juros feitos até agora pelo BC poderão ter um efeito ainda maior. Ao encarecer parcelas de financiamentos, principalmente das famílias que recorrem ao cartão de crédito, a alta dos juros deixará ainda menos recursos para o consumo nos orçamentos domésticos, disse Mercês.

O economista ainda teme que, diante de uma inflação elevada e mais persistente, o BC seja obrigado a manter os juros em patamar alto por mais tempo. Isso porque há sinais de inflação generalizada, como a aceleração dos preços de serviços – que já acumulam alta em torno de 8,0% em 12 meses. Diferentemente dos preços de alimentos e combustíveis, que sobem por causa de choques, mas podem arrefecer em seguida, os preços de serviços são mais difíceis de ceder e só reagem a uma economia mais fria. 

A inflação elevada também ameaça outro motor do crescimento econômico do primeiro trimestre, a demanda externa. As exportações saltaram 5% ante o quarto trimestre de 2021, enquanto as importações caíram 4,6%, dando uma contribuição positiva para o crescimento. Essa demanda ajudou a impulsionar as atividades mais voltadas para as exportações, como a agropecuária, apesar do mau desempenho do setor no primeiro trimestre. Diante da quebra na safra de soja, afetada, principalmente, pela seca que atingiu a região Sul do País durante o verão, a agropecuária registrou queda de 0,9% ante os três últimos meses de 2021 e tombo de 8,0% sobre o primeiro trimestre do ano passado.

Apesar da queda na produção, o que foi colhido foi direcionado para as exportações, explicou Palis, do IBGE. O mercado externo também é o destino de boa parte da produção de carne. Na comparação como o trimestre imediatamente anterior, a alta nas exportações é explicada, também, pelo fato de que, no fim do ano, não tem colheita da soja, a principal cultura agrícola nacional. Ou seja, mesmo que o desempenho da atual safra tenha sido pior do que a anterior, há impulso positivo nas exportações.

Daqui para a frente, esse motor do crescimento econômico do primeiro trimestre, a demanda externa. As exportações saltaram 5% ante o quarto trimestre de 2021, enquanto as importações caíram 4,6%. Essa demanda ajudou a impulsionar as atividades mais voltadas para as exportações, como a agropecuária, cujo desempenho costuma ser positivo em todos os primeiros trimestres, por causa da colheita da soja, uma das principais culturas nacionais.

Esse motor do crescimento está ameaçado porque a carestia se espalha por praticamente todos os países. Em reação, o movimento de elevação dos juros é mundial. 

E, à medida que os bancos centrais forem subindo juros para combater a inflação, especialmente nos Estados Unidos, o crescimento da economia global também perderá ímpeto, freando essa demanda externa.

Além de menos compras de matérias-primas produzidas pelo Brasil, a freada tende a provocar desvalorização nas cotações internacionais desses produtos, o que tende a reduzir o fluxo de dólares para o mercado brasileiro, desvalorizando o real e aumentando o risco-País. Para piorar, a agropecuária, um dos setores mais beneficiados pela demanda externa, ainda enfrenta uma elevação de custos nunca vista, na esteira do choque causado pela guerra na Ucrânia.

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Alta do PIB é duradoura ou um suspiro momentâneo?

Economia tem apresentado alguns números melhores que o esperado, mas população ainda não vê os efeitos

Alexandre Calais*, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2022 | 10h02

O crescimento de 1% no PIB no primeiro trimestre não é um resultado estrondoso, mas é melhor do que se previa no ano passado. Claro que fazer projeções, com o período caótico que o mundo atravessa (pandemia, guerra), tornou-se um exercício muito mais complicado do que já é naturalmente. Não dá para culpar os economistas. Mas não é possível deixar de reconhecer que a safra de números tem sido mais positiva do que o esperado - no ano passado, cogitou-se até uma recessão no País, hipótese agora praticamente descartada. Já há instituições falando em crescimento de 2% este ano.

Nesta semana, os números do emprego apontaram uma melhora significativa. O desemprego caiu de 11,1% para 10,5%, o mais baixo desde o início de 2016 (embora ainda seja um número absurdamente alto). As contas públicas também têm tido um desempenho melhor que o esperado. De janeiro a abril, o superávit primário do setor público chegou a R$ 148,5 bilhões, um resultado recorde para o período. 

Mas - sempre há um "mas" - os números positivos não contam toda a história. O crescimento de 1% do PIB no primeiro trimestre está praticamente todo ancorado nos serviços. É o setor que mais sofreu com a pandemia, e agora acelera para voltar à normalidade. Uma sombra, porém, tem pairado constantemente sobre essa atividade. Agora mesmo temos vivido um novo aumento de casos de covid, com recomendações de volta do uso das máscaras. Haverá novos fechamentos que voltem a prejudicar esse setor? Vivemos ainda tempos nebulosos.

O recuo do desemprego tem sido puxado justamente por essa retomada dos serviços. Mas, em geral, são empregos bem mais precários que os da indústria, por exemplo. O que explica um ponto importante na ciranda dos números: a renda do trabalhador caiu 7,9% em um ano. O que, definitivamente, é um dado bastante negativo.

 

 

E temos, claro, a inflação, rodando acima de 12% em doze meses e sem muitos sinais de trégua. As expectativas são de um número acima de 8% no final do ano, que se juntaria aos mais de 10% do ano passado. Isso significa uma brutal redução de renda, mesmo para quem está empregado - nem sempre os reajustes concedidos pelas empresas acompanham o aumento dos preços.

No final, apesar de alguns números gerais da economia até serem positivos, o sentimento é de que há uma perda na qualidade de vida. Em São Paulo, por exemplo, a sensação clara, mesmo sem se ver os números, é que houve uma forte elevação do número de famílias morando nas ruas, um efeito direto da pandemia. E reverter isso é um trabalho de longo prazo.

Números positivos na economia, no final das contas, só valem mesmo se ajudam a melhorar a vida da população. Ainda não é o que vemos, e nem sabemos se essa alta do PIB se mantém para os próximos trimestres. Há uma taxa de juros em alta, para conter a inflação, e que deve atuar para jogar para baixo a atividade econômica. E um presidente desesperado pela reeleição, que pode meter os pés pelas mãos na busca pelos votos e provocar um desarranjo maior, de longo prazo, nas contas públicas. Talvez esses números positivos sejam apenas um suspiro momentâneo.

*Editor-coordenador de Economia

 

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Não há muito o que comemorar no PIB; leia análise

A grande dúvida é se esse sinal de retomada se estenderá para o resto do ano ou não

Sergio Vale*, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2022 | 10h48

Com o bom resultado do PIB do primeiro trimestre, a grande dúvida é se esse sinal de retomada se estenderá para o resto do ano ou não. Há ainda alguma recuperação de serviços para acontecer na saída da pandemia e commodities devem ainda trazer bons resultados no resto do ano por conta dos preços elevados. Mas o cenário à frente traz mais desafios do que gostaríamos. 

A economia mundial segue em processo de desaceleração, com a China afetada ainda pela pandemia, e EUA e Europa às voltas com a inflação. Inflação essa histórica para os países desenvolvidos e que vai fazer com que a resposta de juros tenha que ser mais agressiva do que os Banco Centrais querem admitir. A conjunção de guerra sem data para acabar com a continuidade de impacto no mercado de energia, especialmente petróleo, como vimos nos últimos dias, trará riscos ainda relevantes na administração da política monetária. Mundo crescendo menos impacta nossas exportações e afeta a recuperação incipiente que se via no começo do ano.

Mas temos nossos problemas domésticos, que reputo ainda mais complicados. Uma taxa de juros que deve chegar próxima a 14% com impacto crescente no segundo semestre e uma eleição que o presidente faz questão de deixar a mais conturbada possível. Não é um ambiente amigável para investimentos e ainda para consumo, que seguirá sofrendo os impactos da inflação elevada. No mais, a incerteza sobre como será o próximo governo também acaba por impactar o investimento deste ano.

Com mais um ano de crescimento fraco, Bolsonaro entregará um governo com crescimento acumulado na casa de 2,7%, o que significa queda de PIB per capita. Sistematicamente temos crescido menos da metade do que a média mundial, o que não me parece ser motivo de comemoração. Erros acumulados na política fiscal institucional e instabilidade política inédita são nosso calcanhar de Aquiles que reverberam em números tão fracos de crescimento. Em um mundo instável, sofremos os impactos com mais intensidade. Se seguirmos sob esses critérios, os números de PIB dos próximos anos serão ainda piores.   

*Economista-chefe da MB Associados

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Governo diz que PIB do 1º trimestre é robusto e indica bom desempenho da economia no 2º semestre

Secretário Rogerio Boueri afirma que expectativas são boas para os próximos semestres

Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2022 | 12h52

BRASÍLIA - O Ministério da Economia considera que o crescimento de 1% do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre deste ano é “robusto” e mostrou que a economia brasileira tem se mostrado resiliente. A equipe econômica prevê que o bom desempenho deve continuar no segundo semestre.

Para o chefe da Assessoria Especial de Estudos Econômicos, secretário Rogerio Boueri, o resultado superou as expectativas e mostrou que as previsões do Ministério da Economia não eram super otimistas, como apontavam os críticos do governo e os analistas do mercado financeiro. Uma recessão em 2022 chegou a ser prevista por instituições financeiras, como o banco Itaú Unibanco.

Segundo o secretário, o “ponto fraco” do PIB no primeiro trimestre, o desempenho do setor agropecuário, com queda de 0,9%, deve se recuperar no segundo semestre. “As expectativas são boas para os próximos semestres e esse desempenho negativo possivelmente será revertido”, afirmou Boueri, especialista no setor e que já foi subsecretário de Política Agrícola.

O chamado carregamento estatístico calculado pelo ministério da economia sugere que o crescimento deve ser de pelo menos 1,5% em 2022. Ou seja, mantendo a variação dos outros trimestres em zero, o crescimento do PIB neste ano ficaria, no mínimo, nesse patamar.

Apesar das incertezas que marcam o cenário do segundo semestre com os efeitos retardados da política de juros altos do Banco Central mais dura para conter a inflação, o secretário disse que dificilmente esse quadro de crescimento se reverteria.

Na sua avaliação, os fundamentos da recuperação e a resiliência do Brasil aos dois choques (pandemia da covid-19 e guerra na Ucrânia) estão associados às medidas de consolidação fiscal já feitas pelo governo e de reformas. “Temos várias medidas fiscais e de melhoria de alocação que podem explicar esse resiliência da economia e essa volta da economia. O retorno em V vai sendo ultrapassado”, disse ele, que destacou a importância da melhoria do mercado de trabalho.

Por ora, a previsão oficial segue em 1,5%, mas nos bastidores do Ministério da Economia e no Banco Central a expectativa é de uma revisão para cima. O governo só deverá rever a previsão do PIB no final de julho, quando terá que enviar ao Congresso um novo relatório de avaliação do Orçamento.

Maior Expansão

Subsecretário de Políticas Macroeconômicas da SPE, Fausto Vieira, destacou que o PIB acumulado em quatro trimestres é de 4,7%, mostrando a maior expansão em 12 meses desde o terceiro trimestre de 2011. “Aponta a continuidade da retomada”, disse ele.

Vieira ressaltou ainda o papel da melhora estrutural das contas públicas para esse desempenho e ponderou que o crescimento de longo prazo da economia brasileira depende fundamentalmente da consolidação fiscal (redução da relação dívida/PIB) e de uma importante agenda de reformas pró-mercado.

Os técnicos do governo reforçaram que o Brasil tem tido um crescimento mais rápido do que outros países. Em uma amostra de 18 países analisados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), apresentada em nota técnica da Secretária de Política Econômica, com dados dos países que já divulgaram o resultado, mostrou o Brasil atrás apenas da China (1,3%) e do México (1,2%) - o País figura na nona posição em um ranking de 32 países compilado pela agência de classificação de risco Austin Rating.

Os técnicos  destacaram que a melhora da atividade no Brasil ocorre a despeito da deterioração nas projeções do PIB nas principais economias. A revisão baixista atinge as principais economias globais, com perda de fôlego em países como os Estados Unidos, China, Reino Unido, México e a região da Zona do Euro.

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'Serviços respondem pela melhora do PIB, mas isso tem um limite’, diz pesquisador da FGV

Claudio Considera vê o resultado da economia no 1º trimestre como 'bastante bom', mas não acredita em continuidade de crescimento no mesmo ritmo

Entrevista com

Claudio Considera

Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2022 | 12h57

Pesquisador associado do Ibre/FGV, o economista Claudio Considera vê o resultado do PIB no primeiro trimestre como “bastante bom”, mas não acredita em continuidade de crescimento da economia no mesmo ritmo. 

Entre os motivos, diz ele, está o “desastre” que tem sido o setor da indústria de transformação e a inflação criada por um receio dos empresários com eventual medida de controle da Petrobras. Considera é coordenador do núcleo de Contas Nacionais do Ibre/FGV e foi Secretário de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda (1999-2002), no governo Fernando Henrique. 

Como o sr. avalia o dado do PIB do primeiro trimestre?

É um resultado bastante bom. Há 15 dias, nós estimamos crescimento de 1,5% no último Monitor do PIB. Deu menos porque não conseguimos bons resultados para a agropecuária, para a indústria extrativa e da construção civil e o investimento na formação bruta de capital fixo também veio abaixo do que imaginávamos. De uma forma geral a economia foi bem, mas no principal setor econômico, que é o industrial, a economia não está bem. Principalmente a indústria de transformação, que está um desastre.

É um sinal de que o resultado anual também deve ser bom?

Daqui para frente não devemos ter os mesmos resultados porque o setor de serviços, que foi o que puxou a economia para cima, está perdendo capacidade de crescer mais. O resultado do primeiro trimestre é compatível com o recente dado da queda da taxa de desemprego, mas com queda também da renda. Significa que o setor de serviços responde pela queda do desemprego e pela melhora do PIB, mas isso tem um limite. Os outros setores da economia que puxam os serviços – a indústria principalmente – estão mal. E é muito duvidoso que uma economia possa crescer só produzindo serviços, porque as pessoas precisam ter renda para comprar bens e, para isso, precisa ter também a indústria, a construção crescendo para puxar os serviços.

Pelo menos o segundo trimestre tende a repetir o primeiro?

O segundo trimestre provavelmente ainda vem positivo, mas com crescimento menor do que o do primeiro e não creio que a economia cresça no terceiro e no quarto trimestres. Vamos ter um crescimento positivo este ano, mas baixo, não muito mais do que 1%. Ou seja, não devemos ter resultados tão alvissareiros como todos gostariam de ver a partir desse resultado de 1% divulgado hoje.

Qual a razão para isso?

O País está com uma insegurança muito grande. Esses arroubos do presidente (Jair Bolsonaro) com a Petrobras são péssimos para a economia pois devem amedrontar os empresários. Eu acho até que possa ter alguma inflação temendo qualquer controle de preços. Tem inflação de fato, que tem a ver com a guerra na Ucrânia, com falta de peças para a indústria etc., mas também acho que tem um pouco de receio de um controle de preços. Gato escaldado tem medo de água fria. Essas ameaças do presidente contra a Petrobras é uma coisa meio assustadora para mim.

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