PIB: arsenal anticíclico atenua recessão, mas restrições impedem rápida recuperação

Expectativa para o segundo semestre é de recomposição parcial das perdas recentes

Thiago Xavier*, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2020 | 17h06

O PIB evidenciou a fragilidade da economia brasileira no segundo trimestre, que concentrou os maiores efeitos da pandemia e do isolamento social. As quedas foram históricas em ambas as métricas de curto prazo, sendo de 9,7% na comparação dessazonalizada e 11,4% em termos interanuais.

Para o segundo semestre, a expectativa é de recomposição parcial das perdas recentes, o que deve ser marcado por dois momentos: inicialmente mais veloz e depois com perda de dinamismo em razão das restrições mais permanentes. No primeiro momento, contam positivamente o cenário de gradual flexibilização do isolamento social e a extensão da vigência de parte do arsenal anticíclico com

impactos positivos para a demanda e oferta (empresas, em especial de menor porte). Nessa linha já são observados sinais positivos de indicadores de alta frequência como fluxo pedagiado de pesados, consumo de energia e confiança dos agentes em julho e agosto).

Por outro lado, há restrições relevantes à manutenção dessa maior velocidade de retomada nos trimestres seguintes, como:

  1. o medo da pandemia que afeta consumo e investimentos,
  2. a fragilidade do mercado de trabalho (reforçado pelos dados da PNAD Covid) e
  3. a situação financeira de pequenas e médias empresas, sobretudo, ligadas à serviços.

Adicionalmente, há outra questão relevante quanto à interpretação dos dados acerca das perdas de receitas dos grupamentos ligados especialmente a serviços das famílias. Por ora, é difícil distinguir qual o tamanho da contribuição da demanda e da oferta para a baixa e, sobretudo, em que medida o subfuncionamento é temporário ou permanente, e como esse quadro será alterado com a retirada de parte das políticas econômicas emergenciais.

De pano de fundo, há também a interdependência da recuperação do crescimento com o cenário fiscal. Aqui reside a tensa relação entre solvência fiscal e recuperação econômica, ainda que esses objetivos não sejam irreconciliáveis, inclusive, porque o fracasso de um pode levar ao insucesso do outro.

Quanto aos destaques do PIB do segundo trimestre chama atenção as disseminadas perdas nos segmentos de serviços, ainda que heterogêneas, sobretudo captando o contraste entre demanda por bens comparada a serviços, o que contribui para entender a queda de Outros serviços (-19,8%, em relação ao primeiro trimestre do ano) acima de comércio (-13,0%).

Pelo lado da demanda, Investimentos (-15,4%) foram os mais afetados, sobretudo, por máquinas e equipamentos do que por construção civil. Algumas evidências sugerem que vendas de materiais de construção foram beneficiadas por microrreformas domésticas, limitando as perdas da FBCF (a medida dos investimentos no PIB).

Por fim, a reação dos investimentos é outra questão importante ao cenário de retomada. Se, por um lado, os juros baixos são estímulos relevantes, por outro, a situação financeira delicada de empresas e famílias é um atenuante, além da ociosidade elevada.

Ainda que pesem dúvidas quanto à interpretação dos atuais resultados e sobre o cenário prospectivo, inclusive inseparável da evolução do quadro epidêmico, algo ainda assim nos parece certo: há um conjunto de fatores que inviabilizam uma rápida em recuperação em “V”.

*Economista da Tendências Consultoria Integrada

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