Tiago Queiroz/Estadão
Inflação prejudica o consumo das famílias e a recuperação do PIB Tiago Queiroz/Estadão

PIB: Brasil terá mais um ano difícil pela frente; leia análise de Sergio Vale

'Mais um ano de governo disfuncional trará dificuldades para estabilizar as expectativas e trazer rapidamente a inflação para baixo e acelerar investimentos', escreve o economista-chefe da MB Associados

Sergio Vale*, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2021 | 13h59

Depois de duas quedas seguidas de PIB no segundo e terceiro trimestres e com uma inflação acima de 10%, parece incontornável dizermos que o País passa por um processo de estagflação.

É verdade que a situação não é tão severa como se viu nas últimas duas crises mais profundas, de 2015/2016 e do ano passado. Mas passa a ideia de que em um momento de saída relativa da pandemia, em que a atividade era para estar reagindo com mais vigor como vemos no resto do mundo, o contrário está acontecendo por aqui.

A nova variante do coronavírus pode trazer adicionalmente preocupação na retomada do primeiro trimestre, mas o que vimos acontecer ao longo do segundo semestre, quando a vacinação estava acelerada, é o efeito conjunto de uma economia com inflação elevada e sem capacidade de usar estímulos de curto prazo. Para conter a inflação, os juros têm que subir e a política fiscal entrou em tal desgaste com a quebra do teto que aumentar gasto tem o efeito negativo e não positivo na economia pela piora nas expectativas.

Estamos de certa forma atados, sem condições efetivas de retomar crescimento no curto prazo enquanto não houver uma mudança política no país. Mais um ano de governo disfuncional como temos trará dificuldades para conseguirmos estabilizar as expectativas e trazer rapidamente a inflação para baixo e acelerar investimentos. Não adianta o governo sinalizar vultosas concessões para 2022 se o resto da economia segue sofrendo os impactos de uma estabilidade macro que tem sido afetada.

Se é verdade que essa sensação de paralisia permanece enquanto não houver mudança política, a estagnação que agora vemos continuará ano que vem. O crescimento do PIB não deverá ser muito diferente de zero, e por trás disso está, além das dificuldades da economia, o cerne da questão: uma política altamente ineficiente em conseguir estimular corretamente a economia. Pelo contrário, o tom do governo, no geral, é claramente eleitoral, tendo abdicado de governar como seria necessário. Infelizmente, será mais um ano difícil.

* Economista-chefe da MB Associados

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PIB recua 0,1% no 3º trimestre e Brasil entra em recessão técnica

Termo indica dois trimestres seguidos de retração na atividade econômica; setor de serviços avançou 1,1%, enquanto a agropecuária teve queda de 8%

Daniela Amorim e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2021 | 09h07
Atualizado 02 de dezembro de 2021 | 12h12

RIO - A economia brasileira seguiu estagnada na passagem do segundo para o terceiro trimestre. Mesmo com a normalização de algumas atividades, a inflação pressionada e o mercado de trabalho ainda difícil impediram um impulso mais forte da demanda, enquanto a estiagem derrubou o desempenho da agropecuária e desequilíbrios provocados pela pandemia ainda atrapalham a indústria.

O resultado foi uma ligeira queda de 0,1% no Produto Interno Bruto (PIB, o valor de todos os produtos e serviços produzidos na economia em determinado período) no terceiro trimestre ante o segundo, informou nesta quinta-feira, 2, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Após nove meses de avanços, do terceiro trimestre de 2020 ao primeiro deste ano, a economia parou a partir de abril. No segundo trimestre, o PIB caiu 0,4% ante os três primeiros meses do ano, conforme revisão anunciada também nesta quinta, pelo IBGE.

Com isso, a economia brasileira entrou em “recessão técnica”, como economistas de mercado chamam a situação em que ocorrem dois trimestres seguidos de retração no PIB.

 

No terceiro trimestre, a economia foi puxada - pelo lado do que é produzido - pelo setor de serviços, com avanço de 1,1% sobre o segundo trimestre. “Há uma normalização das atividades presenciais. Estamos colhendo os frutos da vacinação”, disse Alessandra Ribeiro, sócia e diretora de Macroeconomia da Tendências Consultoria, lembrando que essa “normalização” das atividades aparece no mercado de trabalho, com a recuperação de postos de trabalho, especialmente nos serviços presenciais.

Como responde por pouco mais de 70% do PIB, o setor de serviços puxa a atividade como um todo, mas, no terceiro trimestre, a indústria e, principalmente, a agropecuária seguraram o impulso, impedindo um crescimento maior.

Sob efeito de quebras de safra provocadas pela estiagem histórica no meio do ano, a agropecuária registrou queda de 8% sobre o segundo trimestre. O resultado foi o pior nessa base de comparação desde o primeiro trimestre de 2012, quando o setor recuou 19,6% sobre os três últimos meses de 2011.

Segundo o IBGE, o mau desempenho da agropecuária foi influenciado por perdas nas lavouras de café, algodão, milho e cana-de-açúcar, mas também no segmento pecuário, especialmente de criação de bovinos.

“Várias lavouras importantes do Brasil estão todas com expectativa de queda no ano”, disse Rebeca Palis, coordenadora de Contas nacionais do IBGE, lembrando que, o resultado só não foi pior ainda porque a soja, principal cultura do País, passou mais ou menos ilesa pela estiagem. A soja foi plantada antes da seca, colhida e exportada antes do terceiro trimestre deste ano, lembrou a pesquisadora.

O PIB industrial ficou estagnado, ainda afetado pelos gargalos nas cadeias globais de produção, marcados pelo travamento do transporte marítimo e pela escassez de peças e componentes.

“Essa questão das cadeias globais de fornecimento continua. É um problema superrelevante. O tempo de entrega de insumos e peças, inclusive, está acima do primeiro momento da pandemia”, afirmou Alessandra Ribeiro.

A crise hídrica também pesou sobre a indústria, que inclui a atividade de produção e distribuição de eletricidade, gás e água. Essa atividade recuou 1,1% ante o segundo trimestre, sob impacto do encarecimento da geração de energia. Segundo Rebeca Palis, a crise de energia ajudou a puxar o PIB brasileiro pra baixo nos últimos dois trimestres.

 

Pela ótica da demanda, ou seja, de quem compra o que é produzido no País,o motor da economia no terceiro trimestre foi o consumo das famílias, que cresceu 0,9% sobre o trimestre imediatamente anterior. Parte desse crescimento também tem a ver com a “normalização” da economia, uma vez que os consumidores de maior renda, menos afetados pela crise causada pela covid-19, puderam voltar a consumir, com a flexibilização de restrições impostas pela pandemia. Para quem teve a renda pouco ou nada afetada pela crise, a simples reabertura de negócios como salões de beleza, cinemas, bares e restaurantes já leva, quase que automaticamente, a um aumento do consumo.

Por outro lado, para o conjunto das famílias como um todo, o consumo é mais diretamente ligado à dinâmica de emprego e renda. Embora o mercado de trabalho venha apresentando recuperação, com geração de vagas, a retomada ainda não foi suficiente para repor todos os empregos perdidos na crise. Para piorar, as vagas que estão sendo abertas têm salários menores, e a aceleração da inflação nos últimos meses corrói a renda, segurando o apetite para o consumo entre as famílias de renda menor.

Na visão do professor Gilberto Tadeu Lima, pesquisador do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da USP, o quadro é agravado pela indefinição, desde 2020, em torno dos rumos do auxílio emergencial. O benefício temporário foi reduzido no fim do ano, demorou a ter a renovação garantida em 2021, chegando a ficar suspenso nos primeiros meses deste ano, e terminou no mês passado sem que se tenha um desenho claro, com valores, para o Auxílio Brasil, novo nome do Bolsa Família, após uma reformulação.

Como o auxílio emergencial ajudou a sustentar o nível da atividade econômica, ajudando o consumo das famílias e evitando um “colapso” maior no PIB do ano passado, a indefinição em torno da continuidade, e em que moldes, dos programas federais de transferência de renda tem, agora, o efeito oposto. Em vez de impulsionar o ritmo do consumo, tira fôlego para um crescimento para além do processo de “normalização” das atividades.

“Sem dúvidas, o auxílio emergencial jogou um papel essencial (na retomada da economia desde meados de 2020), mas a própria definição de algo tão essencial está sujeita a um processo capenga, de vaivém e indefinição”, diz Lima, criticando a falta de coordenação entre o governo federal e as demais esferas no enfrentamento da crise causada pela covid-19.

Ainda na ótica da demanda, a formação bruta de capital fixo (FBCF), conta dos investimentos no PIB, caiu 0,1% na comparação com o segundo trimestre. Frequentemente associada por economistas às perspectivas futuras para os negócios, a dinâmica de investimentos é a primeira a ser atrapalhada pelas incertezas em torno dos atritos políticos envolvendo o governo federal, sobre o tamanho dos desequilíbrios nas contas públicas e, a partir de 2022, sobre as eleições gerais. O agravamento desses pontos de incerteza reforça o quadro de estagnação.

 

 

A estagnação não impedirá um crescimento econômico expressivo neste ano, mas a perda de fôlego aponta para um desempenho bem abaixo disso em 2022. A pesquisa do Projeções Broadcast com analistas do mercado financeiro, feita antes da divulgação dos dados desta quinta-feira pelo IBGE, apontava para um crescimento de 4,8% no PIB de 2021 ante 2020, desacelerando para apenas 0,5% em 2022 ante este ano.

Economistas começaram a revisar para baixo suas projeções para o crescimento de 2022 em setembro, quando a persistência da inflação mais elevada ficou clara - para enfrentar a alta de preços, o Banco Central (BC) deverá subir mais os juros básicos da economia, medida que visa esfriar a demanda e, portanto, tirar impulso do crescimento econômico. 

O processo se aprofundou em outubro, após o governo dar sinais de que pretendia pagar parte do Auxílio Brasil com gastos que ficariam fora do “teto” (a regra fiscal que limita o crescimento das despesas públicas, de um ano para o outro, apenas à inflação).

De lá para cá, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) dos Precários passou na Câmara dos Deputados e está prestes a ser aprovada no Senado Federal, com números apontando, cada vez mais, para aumento de gastos - não só com o novo Auxílio Brasil, mas também com emendas parlamentares no Orçamento. Como resultado, as cotações das ações negociadas na Bolsa vêm despencando, a taxa de câmbio disparando, assim como as taxas de juros do mercado futuro, sinalizando para juros básicos ainda mais altos e, portanto, ainda menos impulso para a economia.

“O governo deu estímulos, a economia foi (desde meados de 2020), mas, agora, diante dos desequilíbrios, com inflação e todo o risco ligado ao desequilíbrio fiscal (das contas do governo), vamos pagar a conta com menos crescimento econômico”, disse Alessandra Ribeiro, da Tendências.

E há mais chances de piora do que de melhora, na avaliação da economista. O processo eleitoral pode elevar ainda mais as cotações do dólar, levando a juros ainda mais altos e menos crescimento econômico. Além disso, a economia mundial está em desaceleração, incluindo a China, principal compradora das exportações brasileiras

O economista-chefe do Banco BV, Roberto Padovani, acrescenta aos riscos para a economia brasileira em 2022 uma possível nova onda da covid-19, por causa da variante Ômicron, e uma eventual antecipação na alta dos juros nos Estados Unidos. O aperto na política monetária americana, após o grande afrouxamento para apoiar a economia em meio à pandemia, tende a elevar juros no mundo todo e retirar recursos dos mercados emergentes, um motivo a mais para as cotações do dólar subirem. / COLABOROU GUILHERME BIANCHINI

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Economia parou e não se sabe quando voltará a andar; leia análise

A pandemia afetou o resultado do PIB do terceiro trimestre, que recuou 0,1%, mas a falta de rumo na condução da política econômica também contribuiu para esse quadro

Alexandre Calais*, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2021 | 10h04

O resultado do PIB divulgado pelo IBGE nesta quinta-feira, 2, mostrando uma queda de 0,1% no terceiro trimestre, apenas corroborou o que todos os analistas já sabiam e que toda a população sente no dia a dia: a economia brasileira parou. Obviamente, a pandemia da covid-19, caminhando para completar dois anos, com novas ondas que se sucedem e que não permitem a volta à normalidade, tem um peso gigante nesse resultado. Mas não há como negar que as falhas e a falta de rumo na condução da política econômica também contribuíram, e muito, para esse quadro. E o pior é que as perspectivas, pelo menos no curto e no médio prazos, não são das melhores.

No terceiro trimestre, apenas o setor de serviços avançou (1,1%) em relação ao segundo trimestre. Efeito de uma certa retomada possibilitada pelo avanço das vacinas. Mas a indústria ficou no mesmo lugar e a agropecuária, sempre um motor importante da nossa economia, teve uma forte queda de 8%. Como no segundo trimestre o País teve queda de 0,4%, estamos em recessão técnica - o nome dado pelos economistas quando há dois trimestres seguidos de recuo.

 

 

Pode até ser que no quarto trimestre haja algum avanço. No acumulado do ano, devemos ter um crescimento por volta de 4%, talvez um pouco mais, talvez um pouco menos. Muito mais por efeito estatístico, depois da queda de 3,9% do ano passado (dado revisado pelo IBGE), do que por algum movimento articulado de retomada. Ou seja: ao final de 2021, o País vai estar praticamente no mesmo patamar de 2019, talvez até pior.

A pandemia atingiu todos os países, e os remédios para combatê-la foram muito parecidos: estímulos econômicos na veia e aposta na vacinação. No caso brasileiro, mais estímulos do que vacinas, pelo menos no primeiro momento. Mas, nos outros países, pelo menos nos mais desenvolvidos, as perspectivas são melhores do que as nossas. Por quê?

Não dá para negar o impacto das decisões políticas  nesse quadro. Tudo o que aconteceu nesses últimos meses, todas as discussões que foram levantadas e que tiveram como objetivo as eleições de 2022, foram decisivas para esse quadro de desconfiança com o crescimento econômico. O ministro Paulo Guedes insiste que o Brasil vai surpreender, terá uma retomada em V. O governo teima em prever um PIB crescendo mais de 2% no ano que vem. Mas a realidade se impõe. As projeções dos analistas para 2022 se aproximam cada vez mais da estagnação, com muita gente já falando em recessão, mesmo.

Muito do que se faz na economia é alimentado por expectativas. Os investimentos chegam quando há perspectiva de crescimento, quando o empresário sabe que terá mercado para seus produtos. Mas esse crescimento só vem quando há um clima de estabilidade. E isso é tudo que não temos agora. O governo forçou isso ao insistir, por exemplo, na mudança do teto de gastos. A regra que limita o avanço das despesas à inflação do ano anterior era uma garantia, para o mercado, que o governo não teria como patrocinar uma “farra eleitoral”. Com a violação da regra, avalizada pelo Congresso, essa garantia vai por água abaixo. As contas públicas ficam em risco, continuaremos gastando muito mais do que arrecadamos, como acontece há muitos anos. O quadro se turva e a economia se retrai.

No fundo, tudo agora vai ficar parado à espera de definições eleitorais. Quem serão os candidatos com condições de vencer a disputa pela presidência e quais são seus planos. O problema é que ainda falta um ano para essa definição acontecer. É tempo demais para um País às voltas com desemprego alto, inflação descontrolada, juros subindo. Mas o governo não dá sinais de que poderá reverter nada disso. Na cabeça do presidente, que nunca mostrou grande preocupação com nenhum problema real do Brasil, há apenas a reeleição no radar. A economia espera um rumo para seguir. Pode até ser que o encontremos em 2023. Mas, até lá, parece que as coisas ainda vão piorar muito.

*Editor-coordenador de Economia

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Com Brasil em recessão, secretário de Guedes diz que o importante é a 'qualidade' do crescimento

O PIB recuou 0,1% no terceiro trimestre depois de uma queda de 0,4% nos três meses anteriores; Secretaria de Política Econômica alega que os resultados poderão ser revisados para cima no futuro

Eduardo Rodrigues , O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2021 | 10h33

BRASÍLIA - Após o IBGE confirmar que o Brasil entrou em recessão técnica após dois trimestres seguidos de retração no Produto Interno Bruto (PIB), a Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Economia divulgou nota técnica argumentando que “mais importante que o número” é a “qualidade” do crescimento. Os dados mostram queda de 0,1% no PIB do terceiro trimestre, após um recuo de 0,4% no segundo trimestre (dado revisado para pior). Ainda assim, a SPE alega que os resultados poderão ser revisados para cima no futuro.

Para o órgão chefiado por Adolfo Sachsida, mesmo com a retração na margem, o crescimento de 4,0% em relação ao terceiro trimestre do ano passado mostra a continuidade da recuperação da economia em relação à crise de 2020. “É fundamental distinguir o que é política econômica de fatores climáticos adversos e pontuais da natureza, deve-se ressaltar que se observa a maior crise hídrica em 90 anos de história”, argumenta a SPE. 

A nota técnica chama a atenção para a retração de 8,0% no PIB da agropecuária no terceiro trimestre, com impacto negativo de 0,5% na atividade total em relação ao trimestre anterior. “Se fosse zerada a variação da agropecuária na margem, o PIB cresceria na ordem de 0,3% a 0,4% no trimestre”, considera o documento.

A SPE destaca também o bom desempenho do setor de serviços, condizente com a melhora no mercado de trabalho e o aumento da mobilidade. O órgão avalia que, pelo lado da demanda, há elevação da absorção interna, puxada principalmente pelo maior crescimento do consumo das famílias. “Os indicadores coincidentes e o carregamento estatístico mostram que a atividade continuará crescendo a taxas elevadas no final do ano”, completa a nota. 

Apesar de um novo desempenho negativo da economia brasileira, a SPE destacou que a taxa de poupança chegou a 18,6% do PIB no terceiro trimestre deste ano, retornando ao mesmo nível do terceiro trimestre de 2014. Já a taxa de investimento alcançou 19,4% do PIB, mesmo patamar do começo da década passada.

“Se até 2013 o investimento era, em grande parte, financiado com recursos públicos, hoje o investimento é financiado majoritariamente pelo setor privado: os recursos, através de decisões do setor privado, vão para onde é mais eficiente e não mais para onde o Estado determina. A redução de direcionamento de crédito é fundamental para retomada do investimento”, acrescenta o documento.

Por fim, o órgão ainda ressalta que o IBGE pode rever para cima o resultado do terceiro trimestre de 2021, assim como já ocorreu com o resultado de 2020, por exemplo. “O crescimento da agropecuária em 2020 foi revisado de 2,0% para 3,8%, da indústria de -3,5% para -3,4% e de serviços, de -4,5% para -4,3%”, lembra a SPE.

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Queda de 8% no PIB da agropecuária no 3º trimestre é a maior desde 2012

Resultado foi influenciado por perdas nas lavouras de café, algodão, milho e cana-de-açúcar, mas também pelo desempenho do segmento pecuário, especialmente de criação de bovinos

Daniela Amorim, Vinicius Neder e Isadora Duarte, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2021 | 12h04
Atualizado 02 de dezembro de 2021 | 22h52

RIO e SÃO PAULO - Se a retomada do consumo de serviços impulsionou o setor no terceiro trimestre, choques de oferta na agropecuária e na indústria foram decisivos para o desempenho negativo do Produto Interno Bruto (PIB)como um todo. A seca histórica que atingiu o País no inverno leva boa parte da culpa. Por causa da estiagem, a agropecuária registrou queda de 8% sobre o segundo trimestre, pior resultado nessa base de comparação desde o primeiro trimestre de 2012, quando a queda foi de 19,6%.

 

Além da seca, que golpeou em cheio a segunda safra de milho, o inverno foi marcado por geadas que atingiram as plantações de cafécana-de-açúcar. “O terceiro trimestre nos lembrou de que a atividade agropecuária é inerente aos efeitos do clima”, disse o coordenador do Núcleo Econômico da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Renato Conchon.

Ausência da soja

O terceiro trimestre, normalmente, é mais fraco para a agropecuária. Isso ocorre porque a principal cultura do País, a soja, é colhida, principalmente, no primeiro trimestre, gerando impactos econômicos concentrados na primeira metade do ano. Tanto que o desempenho no ano como um todo deverá apresentar crescimento, porque a soja passou mais ou menos ilesa pela estiagem, lembrou Rebeca Palis, coordenadora de Contas Nacionais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O tombo na atividade agrícola no terceiro trimestre foi resultado da combinação da saída dos efeitos econômicos da safra de soja com o fato de praticamente todas as principais culturas típicas do período terem sido atingidas pelo clima. Segundo o IBGE, o mau desempenho da agropecuária foi influenciado por perdas de café, algodão, milho e cana-de-açúcar, e na pecuária, especialmente na criação de bovinos.

“Normalmente, para o setor agropecuário, todo o terceiro trimestre de cada ano é, em média, pior do que o segundo, em virtude da sazonalidade do setor. Neste ano, este resultado negativo foi agravado pelos efeitos climáticos muito severos”, explicou Conchon.

Para 2022, as perspectivas são melhores, porque as chuvas começaram no momento certo, em outubro, e têm vindo em volume positivo em relação às médias históricas. Por outro lado, escassez e encarecimento de insumos, agravados pelas elevadas cotações do dólar, que abalam a indústria desde o início da pandemia, poderão atrapalhar também a safra de 2021/2022, disse Conchon.

A crise hídrica também atrapalhou a indústria. O PIB industrial teve variação nula no terceiro trimestre ante o segundo, puxado para baixo pela atividade de produção e distribuição de eletricidade, gás e água, que recuou 1,1%. Isso porque a geração de eletricidade encareceu. Segundo Rebeca Palis, do IBGE, a crise de energia ajudou a puxar o PIB brasileiro para baixo nos últimos dois trimestres.

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Problemas internos mantêm Brasil na parte de baixo de ranking de crescimento do PIB

Segundo levantamento da agência de classificação de risco Austin Rating, o País está na 26ª posição entre 33 países

Bruno Villas Bôas, Daniela Amorim e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2021 | 12h39
Atualizado 03 de dezembro de 2021 | 14h38

RIO - Com a retração de 0,1% da economia no terceiro trimestre, frente aos três meses anteriores, o Brasil decepcionou mais uma vez na comparação internacional com outras nações. O País ocupou a 26.ª posição em levantamento da agência de classificação de risco Austin Rating, considerando o ritmo de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 33 países.

Nos últimos três anos, a melhor colocação do Brasil no ranking elaborado pela agência foi um 15º lugar registrado no primeiro trimestre de 2020. Naquele trimestre, o PIB brasileiro recuou 1,5% frente aos três meses anteriores, refletindo os primeiros impactos da pandemia de covid-19 na atividade econômica, sobretudo a partir do mês de março. Antes da pandemia, o Brasil aparecia na lanterninha de crescimento.  

“Independentemente do cenário, o Brasil sempre aparece do meio da tabela para baixo. Dificilmente aparece entre os primeiros colocados do ranking. Isso se deve, claro, a questões domésticas, como o problema fiscal. O excesso de gastos gera outros problemas, como a inflação elevada, a alta de juros. São fatores que não deixam o país ganhar tração econômica”, diz Alex Agostini, economista-chefe da agência Austin Rating.

 

O levantamento mostra que o Brasil ganhou duas posições em relação ao ranking de ritmo de crescimento econômico referente ao segundo trimestre, quando figurava na 28.ª colocação. O ranking anterior da agência, porém, listava um número maior de países: 44 ao todo, frente aos 33 países listados no ranking divulgado nesta quinta-feira. Agostini explica que a lista é maior ou menor em função dos números tornados públicos. 

A lista do terceiro trimestre foi liderada pela Arábia Saudita, com crescimento de 5,8% no terceiro trimestre, frente aos três meses anteriores. O bom desempenho tem relação com o aumento do preço do barril de petróleo no período. Pelo mesmo motivo, a Noruega aparece na 4.ª posição do ranking, com crescimento de 3,8% no terceiro trimestre. “Os preços de commodities, como petróleo, acabaram subindo por reflexo da pandemia”, explica o economista-chefe da Austin Rating.

Também no topo do ranking chama atenção a presença de três países sul-americanos: Colômbia (5,7%), Chile (4,9%) e Peru (3,6%). Para Agostini, o resultado tem relação com uma base de comparação menor do segundo trimestre. “O momento sanitário que cada país vive também influencia a posição no ranking. Países europeus que enfrentaram a terceira onda no começo do ano aparecem agora no meio da tabela”, relembra.

Considerado o motor do crescimento global, a China aparece apenas na 21.ª posição, com crescimento de 0,8% no terceiro trimestre, frente ao segundo trimestre. O gigante asiático enfrentou um período de escassez de energia, interrupções na cadeia de abastecimento e agravamento dos problemas de dívidas no setor imobiliário, como as incertezas relacionadas à incorporadora Evergrande.

Em relação ao ranking de tamanho do PIB em dólares, a Austin prevê que o Brasil será a 13ª maior economia do mundo ao fim de 2021 e a 12ª ao fim de 2022. 

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