WILTON JUNIOR/ESTADÃO
WILTON JUNIOR/ESTADÃO

O Estado de S.Paulo

31 Agosto 2018 | 09h01
Atualizado 31 Agosto 2018 | 23h01

RIO E SÃO PAULO - O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro avançou 0,2% no segundo trimestre do ano, refletindo a fraca atividade econômica no País. Os dados foram divulgados nesta sexta-feira, 31, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Já o PIB do 1º trimestre do ano foi revisado de 0,4% para 0,1%.

Analistas do mercado apontam que a paralisação dos caminhoneiros, no fim de maio, foi determinante para o tímido resultado, ainda que, para uma parcela dos especialistas, a avaliação seja de que outros fatores já indicavam um resfriamento do ritmo de expansão. 

"Não foi por causa da greve, foi um conjunto de fatores. (A greve de caminhoneiros) Afetou o trimestre, mas não podemos olhar só para a greve, tem que olhar o conjunto", afirmou Claudia Dionísio, gerente da Coordenação de Contas Nacionais do IBGE. Para ela, desvalorização cambial, repique da inflação e a greve contribuíram para mudar a trajetória do PIB.

Na comparação com o segundo trimestre de 2017, o PIB avançou 1,0% no segundo trimestre deste ano, mantendo a tendência de perda de fôlego no ritmo de crescimento da economia desde o quarto trimestre de 2017, quando a atividade econômica avançou 2,1%. No primeiro trimestre de 2018, o aumento foi de 1,2% Ainda segundo o IBGE, o PIB do segundo trimestre do ano totalizou R$ R$ 1,693 trilhão. 

O resultado ficou dentro do estimado pela pesquisa realizada pelo Projeções Broadcast com 49 instituições. As estimativas variavam entre retração de 0,62% a alta de 0,50%, com mediana de crescimento de 0,10% em relação ao primeiro trimestre do ano.

Setores

PIB da indústria caiu 0,6% no segundo trimestre ante o primeiro trimestre de 2018. Na comparação com o segundo trimestre de 2017, o PIB da indústria mostrou alta de 1,2%.  Já os serviços puxaram o resultado para cima e avançaram 0,3% no segundo trimestre ante o primeiro trimestre de 2018.   Na comparação com o segundo trimestre de 2017, o PIB de serviços mostrou alta de 1,2%.

Dentro do setor de serviços, a atividade de comércio teve queda de 0,3%, a maior desde o quarto trimestre de 2016 (-0,7%), enquanto atividade de transportes recuou 1,4%, pior desempenho desde o terceiro trimestre de 2016 (-2,1%). Segundo a gerente do IBGE Claudia Dionisio, tanto o comércio atacadista quanto o transporte de cargas, que são justamente a parcela dessas atividades mais demandadas pela indústria, puxaram o desempenho para baixo. "Dentro dos serviços, transporte e comércio foram afetados pelo desempenho da indústria", afirmou.

O consumo das famílias ficou praticamente estável no segundo trimestre ante o primeiro trimestre de 2018. Na comparação com o segundo trimestre de 2017, o consumo das famílias mostrou alta de 1,7%.

O consumo do governo, por sua vez, subiu 0,5% no segundo trimestre ante o primeiro trimestre de 2018. Na comparação com o segundo trimestre de 2017, o consumo do governo mostrou alta de 0,1%.

A Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), que mede os investimentos, caiu 1,8% no segundo trimestre ante o primeiro trimestre de 2018. Na comparação com o segundo trimestre de 2017, a FBCF mostrou alta de 3,7%.

Repercussão

Para o governo, os números do PIB que mostram a economia estagnada foram influenciados pela greve dos caminhoneiros e incertezas eleitorais. De acordo com assessores do Palácio do Planalto, o presidente Michel Temer já aguardava o resultado. O ministro de Minas e Energia, Moreira Franco, disse que a atividade "mostrou-se capaz de absorver o tranco". "Veja os dados do mês", afirmou ao Estadão/Broadcast.

O ministro da Secretaria de Governo da Presidência, Carlos Marun, por outro lado, considerou o resultado como uma "vitória". "Em um momento em que não conseguimos aprovar a Reforma da Previdência, em que Lula [ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT)] e Bolsonaro [Jair Bolsonaro (PSL)] lideram as pesquisas [de intenção de voto] e com uma greve de caminhoneiros pelo meio, penso que não termos uma variação negativa do PIB é uma vitória", disse Marun à reportagem.

Já para o economista-chefe da Mapfre Investimentos, Luis Afonso Lima, o desempenho não pode ser considerado positivo.

"O PIB foi ruim quantitativamente e pior ainda qualitativamente", disse. "Pelo aspecto quantitativo, estamos vendo uma desaceleração do PIB em relação a trimestres anteriores, ou seja, aquela hipótese de que haveria uma recuperação neste ano está se frustrando", afirmou.

O economista lembrou da greve dos caminhoneiros. "Pelos dados de exportação e importação, a redução de maio não foi recuperada em junho. Além disso, os dados de julho que já saíram da balança comercial não estão sendo bons", disse Lima.

Segundo o economista-chefe do Banco Safra, Carlos Kawall, ex-secretário do Tesouro Nacional, a paralisação deve tirar algo como 0,2 ponto porcentual do PIB deste ano. "Se não fosse a greve, o PIB do segundo trimestre poderia ser o dobro. Mas evidentemente que a recuperação é muito lenta e se soma às incertezas eleitorais, que têm segurado o investimento. O mercado de trabalho (desaquecido) tem limitado a expansão do consumo."

Por enquanto, o Safra projeta alta de 0,7% para o PIB do terceiro trimestre. Para o fim do ano, a projeção é de expansão de 1,5%, mas com possibilidade de ser reduzida para baixo. "As condições financeiras passaram a ficar mais apertadas e apontando claramente para menos expansão da economia. Pode ter efeitos importantes. Há riscos para o PIB do terceiro trimestre e para o do ano", explica.

Para  sócio-diretor da Macrosector Associados, Fábio Silveira, o resultado foi uma grata surpresa porque mostrou crescimento da economia mesmo depois do forte impacto exercido pela greve dos caminhoneiros sobre a atividade no mês de junho. Para Silveira, a alta de 0,2% no período em análise mostra que a economia está crescendo em linha com a projeção de expansão feita pela Macrosector, apontando para uma expansão de 1,8% este ano.

"O próximo presidente da República não vai pegar um País tão ruim. Em meio a tantas notícias ruins, o PIB mostra que tem coisas boas acontecendo na economia brasileira", disse Silveira. 

Revisão

O IBGE revisou o PIB do primeiro trimestre de 2018 ante o quarto trimestre de 2017, que passou de alta de 0,4 % para aumento de 0,1%. O órgão também revisou a taxa do PIB do quarto trimestre de 2017 ante o terceiro trimestre de 2017, de 0,2% para estabilidade (0,0%).

A taxa do terceiro trimestre de 2017 ante o segundo trimestre de 2017 foi revista de 0,3% para 0,6%, enquanto o resultado do segundo trimestre de 2017 ante o primeiro trimestre de 2017 passou de 0,6% para 0,4%. /Daniela Amorim, Caio Rinaldi, Maria Regina Silva e Tânia Monteiro e Mariana Haubert

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Marcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

31 Agosto 2018 | 10h08

O desempenho do Produto Interno Bruto (PIB), que é a medida de geração de riqueza da economia, funciona como uma espécie de farol. Ele sinaliza as expectativas das empresas, consumidores e governo em relação aos rumos da atividade.

Quando o PIB cresce, as empresas se animam, investem, contratam e produzem mais. O movimento é no sentido contrário quando o PIB perde força: há cortes na produção, demissões e investimentos são congelados. Neste ano, no entanto, a luz desse farol está ofuscada, especialmente por causa das incertezas em relação à eleição presidencial.

No começo do ano a expectativa era que a economia poderia crescer 3% em 2018. Agora o mercado cortou essa projeção pela metade. No primeiro trimestre, o PIB avançou 0,1% em relação ao último trimestre de 2017 – esse resultado foi revisado pelo IBGE, anteriormente havia sido divulgado um crescimento de 0,4%. No segundo trimestre, com os efeitos da greve dos caminhoneiros, o avanço foi de 0,2%.

“Houve um choque inesperado no segundo trimestre”, avalia  o economista Fabio Silveira, sócio da MacroSector. Ele observa que, apesar de o  resultado do PIB do  segundo trimestre fazer parte do passado, ele afeta confiança dos consumidores e dos empresários para os próximos meses. Esses impactos somados à incerteza eleitoral devem retardar o ritmo de recuperação.

O economista pondera, no entanto, que esse fatores não estão levando a economia ladeira abaixo. Essa análise é evidente quando se olha para indicadores básicos. Juros, inflação e desemprego - este último apesar de ainda muito elevado -, estão em níveis melhores do que os registrados no mesmo período do ano passado.

Fabio Romão, economista da LCA Consultores, explica que um sinal claro de como anda a economia para o cidadão comum aparece no comportamento do emprego e na renda do trabalhador. “Mas  não se trata de algo mecânico”, ressalta.  Isto é, quando a economia vai bem, as contratações não aumentam imediatamente e vice-versa.

Segundo Romão, o emprego e a renda são fortemente influenciados pela confiança dos  empresários e pelas decisões de investimentos. E neste ano, o cenário político também é uma das condicionantes, acrescenta. Esses fatores, na sua opinião devem levar a uma recuperação mais lenta da atividade.

Poder de compra. “O crescimento da economia perdeu ritmo”, afirma o economista-chefe e sócio da GO Associados, Eduardo Velho. O desempenho do PIB no segundo trimestre, segundo ele,  já afeta a confiança dos empresários para investir e da população para consumir.  A velocidade mais lenta de recuperação do emprego e o grande contingente de inadimplentes tiraram  o fôlego do consumo, mesmo com a inflação controlada.

O economista explica que, em razão de aumentos de preços que houve no passado e da falta de dinamismo da economia para impulsionar contratações  e o avanço da renda do trabalhador, o poder de compra do brasileiro diminuiu. Com isso, o consumo, a principal alavanca do PIB e capaz de tracionar a economia para frente, perde força. “A recuperação da atividade hoje é lenta e o ponto de transição será o desfecho das eleições”, conclui.

 

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O Estado de S.Paulo

30 Agosto 2018 | 20h30

O Produto Interno Bruto (PIB) é um indicador para medir a atividade econômica do país. Quando há queda de dois trimestres consecutivos no PIB, a economia está em recessão técnica. Os economistas costumam dizer que o PIB é um bom indicador de crescimento, mas não de desenvolvimento, que deveria incluir outros dados como distribuição de renda, investimento em educação, entre outros aspectos.

Como o PIB é calculado?

O PIB pode ser calculado de duas maneiras. Uma delas é pela soma das riquezas produzidas dentro do país, incluindo nesse cálculo empresas nacionais e estrangeiras localizadas em território nacional. Nesse cálculo entram os resultados da indústria (que respondem por 30% do total), serviços (65%) e agropecuária (5%). Entra no cálculo apenas o produto final vendido, por exemplo, um carro e não o aço e ferro da produção. Evita-se, assim, a contagem dupla de certas produções.

Outra maneira de medir o PIB é pela ótica da demanda, ou seja, de quem compra essas riquezas. Nesse caso, são considerados o consumo das famílias (60%), o consumo do governo (20%), os investimentos do governo e de empresas privadas (18%) e a soma das exportações e das importações (2%). Esses dois cálculos devem sempre chegar ao mesmo resultado.

Quem calcula o PIB?

No Brasil, o cálculo do PIB é feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), instituição federal subordinada ao Ministério do Planejamento, desde 1990. Antes disso, a Fundação Getúlio Vargas (FGV) era responsável pela medição.

O que é a Formação Bruta de Capital Fixo divulgada junto com o PIB?

Pela ótica da demanda, A FBCF é justamente a conta de investimentos do PIB. A FBCF mede o quanto as empresas aumentaram os bens de capital - aqueles que que servem para produzir outros bens, como máquinas, equipamentos e construção civil.

Qual a diferença entre PIB nominal e PIB real?

O PIB nominal é calculado a preços correntes, ou seja, considera os valores do ano em que o produto for produzido e comercializado. Já o PIB real exclui os efeitos da inflação.

O que é o PIB per capita?

Este indicador é calculado a partir da divisão do PIB pelo número de habitantes da região. Ele indica quanto cada habitante produziu em determinado período.

Qual a diferença para o Produto Nacional Bruto?

No PNB entra toda a produção nacional, em território do Brasil ou não. Assim, empresas brasileiras que tenham fábricas no exterior também se somam a este indicador. Em geral, países desenvolvidos possuem PNB maior do que o PIB, mostrando assim que a soma da produção nacional é mais forte do que a soma da riqueza produzida em território nacional, que inclui as empresas estrangeiras localizadas ali.

Quem criou o conceito do PIB?

O primeiro cálculo de produção nacional foi publicado em 1953 nas Nações Unidas, baseado em um documento do economista Richard Stone. O título era 1ª Versão do Manual de Contas Nacionais. Stone foi eleito em 1984 o Prêmio Nobel de Economia.

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Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

31 Agosto 2018 | 11h49

RIO - O Brasil ficou na lanterna no ranking do crescimento econômico do segundo trimestre, conforme compilação com dados de 47 países feita pela agência de classificação de risco Austin Rating. O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro avançou 1,0% em relação ao segundo trimestre de 2017, informou mais cedo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O destaque na compilação foi o crescimento da Índia, cujo PIB do segundo trimestre ficou 8,2% acima do verificado em igual período de 2017.

O desempenho do Brasil foi igual ao do Japão, em 46.º lugar no ranking, e pouco abaixo do da Itália, com avanço de 1,1% ante o segundo trimestre de 2017. Bélgica e Reino Unido, com crescimento de 1,3%, também ficaram para trás.

No topo do ranking, a Índia cresceu acima da média das projeções de analistas, que apontava para um avanço de 7,6% no PIB do segundo trimestre ante igual período de 2017. O resultado também mostra aceleração em relação aos 7,7% registrados entre janeiro e março, ante o primeiro trimestre de 2017.

A China cresceu 6,7% e ficou em segundo na lista da Austin Rating. Em terceiro ficaram as Filipinas, com 6,0%, seguidas de Egito e Peru (ambos com 5,4%), Indonésia e Chile (ambos com 5,3%), Polônia e Letônia (ambos com 5,1%). Em décimo lugar no ranking ficou a Tailândia, com crescimento de 4,6%, empatada com a Hungria.

 

Os Estados Unidos cresceram 2,9% em relação ao segundo trimestre de 2017. Entre os países comparáveis com o Brasil, Coreia do Sul (2,9%) e México (2,7%) tiveram desempenho superior ao brasileiro.

 

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'Crescimento robusto só virá com volta do investimento', diz Pessôa

Para economista, resultado do segundo trimestre mostra que saída da recessão ainda será lenta, mas terceiro trimestre deve ser melhor

Entrevista com

Samuel Pessôa, economista do Ibre/FGV

Douglas Gavras, O Estado de S.Paulo

31 Agosto 2018 | 10h23

O crescimento mais robusto da economia só virá com a volta dos investimentos privados, avalia o pesquisador associado ao Ibre/FGV Samuel Pessôa. Para ele, o  resultado de 0,2% de crescimento do segundo trimestre deste ano, divulgado nesta sexta-feira, 31, pelo IBGE, aponta que a saída da crise será mais lenta do que se imaginava há dois anos, com a consolidação do processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

Ainda que a saída da recessão seja lenta, na avaliação de analistas, a greve dos caminhoneiros, que parou o País em maio, contribuiu para um segundo trimestre ainda tímido. Na visão de Pessôa, os resultados da economia no terceiro trimestre devem ser melhores. A seguir, trechos da entrevista ao Estado.

Podemos ver o resultado de 0,2% do segundo trimestre como um sinal de estagnação da economia?

Veio um pouco mais baixo do que nós, do Ibre, esperávamos. A gente esperava 1,2% de crescimento entre o segundo trimestre deste ano e o segundo trimestre do ano passado. O que veio mais fraco do que a gente esperava foi o consumo das famílias. Isso parece se dever à insegurança, ao crescimento da renda mais baixo e ao mercado de trabalho, que está pior do que se imaginava. O  endividamento também ainda é alto. E quando a gente olha o PIB pelo lado da oferta agregada, o que decepcionou foi o comércio. 

Os efeitos da greve dos caminhoneiros ficaram no retrovisor?

Sim, mas a estrada é longa, o que os dados estão mostrando é que é muito difícil uma recuperação exclusivamente voltada pelo consumo. O investimento tem de voltar, a queda foi de 30% e a retomada foi muito pequena. Se olhar o ano passado e este ano, o investimento subiu cerca de 5%, dado que caiu na casa dos 30%, o que cresceu agora foi muito pouco. 

O que falta, então, para uma recuperação mais robusta da economia?

É muito difícil a economia voltar sem investimento e é impossível que ele volte sem o problema político ser solucionado. Esse problema é mais no sentido de definir como a sociedade vai resolver o desequilíbrio fiscal estrutural, tem de saber como pagar as nossas contas no longo prazo. Tem um gasto previdenciário que cresce e precisamos de setor público que a longo prazo se sustente. Fazendo isso, dá para cuidar do curto prazo. 

Investimento público ou privado?

Investimento privado. Evidentemente, se a gente resolver o problema fiscal, será ótimo que o investimento público volte, principalmente no setor de logística, que gera uma reação mais rápida de emprego. Mas esse tipo de investimento só deve voltar mais tarde.

Foi ingênuo acreditar em uma recuperação mais rápida e robusta após o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, há dois anos?

Acredito que o Brasil já estava fadado a ter uma recuperação lenta, porque uma parte grande dessa crise vem de um enorme processo de investimentos que foram feitos em setores errados. Uma dimensão da recessão se deu pelo problema político, que está associado à dificuldade de o Congresso escolher um setor público com um tamanho e bases tributárias que façam sentido. O Congresso sofre uma espécie de síndrome de adolescente: ele quer coisas, mas não quer pagar o preço que essas coisas custam. Ele não reforma a Previdência, por exemplo.

E o que mais explicaria essa dificuldade de o País voltar a crescer?

Tem o lado da crise do intervencionismo, que começou lá em 2006 e se aprofundou a partir de 2009, com os R$ 400 bilhões para o BNDES reconstruir do nada a indústria naval, as desonerações. Também foi feita a política desastrosa da gasolina, que quebrou o setor sucroalcooleiro. Esse tipo de bobagem não é possível de ser arrumado rapidamente. Nesse intervalo, foram feitos vários investimentos que não maturaram bem e endividaram muita gente. Ainda tem um monte de gente querendo receber suas dívidas. Hoje, temos um problema real e um problema financeiro complicado. Tanto o problema financeiro quanto o de investimentos errados demoram a ser resolvidos. Evidentemente, o evento de 17 de maio do ano passado, com a gravação do presidente Michel Temer com o empresário Joesley Batista, ajudou a travar o processo de recuperação da economia.

Quais são as expectativas para o PIB do próximo trimestre e de 2018?

A gente, no Ibre, espera uma recuperação mais forte no terceiro trimestre, alguma coisa em torno de 1%, já com ajuste sazonal. Para o ano todo, esperamos um resultado próximo de 1,5%.

 

 

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Fernando Honorato*, O Estado de S.Paulo

31 Agosto 2018 | 11h45

O PIB encerrou o segundo trimestre crescendo apenas 0,2%. Ainda que a paralisação do setor de transportes responda parcialmente pelo fraco desempenho, os fatores estruturais estão por trás dessa lenta recuperação. O consumo das famílias está 6% abaixo do seu melhor momento, em 2014, e o investimento, 28%. Ao ritmo de recuperação dos últimos trimestres, o investimento só recuperará seu nível pré-crise após 2025: um longo inverno para o Brasil se esse quadro se confirmar.

A crise de balanço das empresas e as instabilidades políticas explicam boa parte do fraco desempenho entre 2015 e 2017. As dúvidas quanto ao futuro da política econômica explicam a frustração em 2018, apesar da correta reorientação nos últimos anos. Enquanto a incerteza fiscal não diminuir, será difícil acelerar o PIB.

Essa incerteza pesa no risco país e nas curvas de juros, que afetam o custo do dinheiro. Mais recentemente, começam a afetar o câmbio que, quanto mais depreciado, retarda a retomada do investimento, muito dependente e correlacionado com as importações em um país com baixa poupança doméstica, 15% do PIB.

Acelerar o crescimento potencial não é uma tarefa trivial – o PIB brasileiro cresce em média 2,2% desde a década de 80. Irá envolver reformas do lado da oferta que melhorem o ambiente de negócios, a segurança jurídica, abram a economia, ampliem a infraestrutura, a qualidade da educação básica, o acesso à tecnologia e, consequentemente, melhorem a produtividade.

Mas, com ociosidade no mercado de trabalho e necessidade de ampliação dos investimentos, o crescimento cíclico pode acelerar rapidamente com a redução da incerteza macro. Os setores de bens duráveis e imobiliário, inclusive, já respondem positivamente à queda de juros. A situação patrimonial das empresas tem melhorado e não será mais uma restrição se as reformas avançarem.

E crescimento e emprego sempre geram dividendos políticos, o que, juntamente com o desafio fiscal, conferem o incentivo e a urgência para que o próximo presidente as implemente.

Se esse cenário mais positivo se materializar, a recuperação da economia brasileira surpreenderá e se dará mais rapidamente do que aquela sugerida pelo ritmo recente.

*Economista-chefe do Bradesco

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Anna Carolina Papp, O Estado de S.Paulo

31 Agosto 2018 | 12h57

A incerteza com o quadro eleitoral torna difícil prever o desempenho da economia brasileira não só nos próximos anos, mas até no curto prazo – para o final de 2018. A fragilidade nas projeções do Produto Interno Bruto (PIB),achatado por conta da greve dos caminhoneiros e da retomada mais lenta que a que fora prevista, reside, sobretudo, na dificuldade de se prever o perfil do candidato vencedor das urnas em outubro.

Para os economistas, ressalvadas as diferenças ideológicas e programáticas entre os candidatos, há basicamente dois caminhos possíveis: a vitória de um candidato que siga uma agenda reformista, na esteira do atual governo, ou um candidato de discurso mais radical, menos comprometido com a recuperação das contas públicas.

Essa encruzilhada pode alterar as previsões de forma significativa ­– em até um ponto porcentual. Para a Tendências Consultoria Integrada, uma agenda de continuidade levaria a um avanço de 1,7% do PIB em 2018.  Já caso vença um presidente que não priorizasse tanto a pauta fiscal, a economia, já arrefecida, desaceleraria no quarto trimestre e cresceria apenas 0,7% – mais próximo de um cenário de estagnação.

Isso porque, apesar de ter avançado em alguns pontos considerados fundamentais pelos agentes econômicos, o atual governo não teve sucesso em contemplar toda a agenda fiscal, como aprovar a reforma da Previdência. Além disso, houve o avanço no Congresso de projetos em que parlamentares pleiteiam aumentar gastos ou abrem mão de receitas para beneficiar setores específicos, cujo impacto pode ultrapassar os R$ 100 bilhões nas contas públicas nos próximos anos.

 “A agenda de reformas precisa continuar, para diminuir a percepção de risco e aumentar os índices de confiança”, afirma a economista e sócia da Tendências Consultoria Integrada, Alessandra Ribeiro. “O mercado está otimista com a vitória de um candidato que mantenha essa linha para que a economia volte a crescer, mas um candidato não comprometido com essa agenda pode levar a economia à estagnação nos próximos.”

Para a consultoria, o candidato Geraldo Alckmin (PSDB) seria o que mais bem atenderia a pauta. Já no cenário pessimista estaria um candidato do Partido dos Trabalhadores (PT). “Isso porque é uma outra orientação de economia, com um papel maior do Estado, incluindo questões de políticas de preço”, diz.

Já um eventual  governo de Jair Bolsonaro (PSL), para a Tendências, também seria enquadrado mais próximo à ponta pessimista das projeções. “Ainda que ele tenha uma orientação liberal, com o economista Paulo Guedes ao seu lado, ainda não temos nada muito concreto de como isso seria realizado, como as privatizações, por exemplo”, observa. “Há ainda uma importante questão de governabilidade, já que parte relevante dessa agenda depende do Congresso”, diz.

Fábio Silveira, sócio da MacroSector, também questiona a viabilidade da implementação da agenda liberal de Bolsonaro. “Não acreditamos que Bolsonaro e Paulo Guedes falem a mesma língua durante muito tempo. Não é uma aliança que deve perdurar”, opina. Para a consultoria, a vitória de Bolsonaro geraria muita incerteza no mercado, o que traria um impacto negativo maior do que o eventual de um candidato petista. “O provável candidato, Fernando Haddad, tem uma visão dos fundamentos econômicos mais flexível do que Marcio Pochmann, por exemplo ­– um dos coordenadores do programa do PT ­– e poderia dialogar melhor com o mercado.”

A consultoria prevê que, com Alckmin, o PIB cresceria 2,5% no ano que vem. Já com Bolsonaro, o País teria um PIB de 1%, além de inflação e juros maiores – IPCA de 6%  e Selic a 9% ao final de 2019. Quanto ao resultado primário, referente às contas públicas do governo, a diferença seria de déficit de 1% do PIB no governo de centro-direita para 3% do PIB com Bolsonaro.

Margem de vitória

Além dos programas e da agenda de cada campanha, também pode entrar na equação econômica a margem pelo qual um candidato venceria o outro num eventual segundo turno. “Se quem for eleito ganhar com uma margem mais ampla, é mais tranquilizador, pois o presidente tomará posse numa situação de maior força. Isso faz diferença para angariar apoio no Congresso, por exemplo”, afirma Fenando Sampaio, economista da LCA.

Ele lembra que, em seu segundo mandato, Dilma Rousseff ganhou com 51% dos votos ­ – uma diferença muito pequena, o que, para ele, acabou influenciando na perda de governabilidade.

“O desfecho político e o porcentual nas urnas irão influenciar na retomada econômica, além de outros fatores, como se a campanha foi muito ‘sangrenta’ ou não, por exemplo”, diz. A LCA projeta 3% de crescimento do PIB em 2019 num cenário mais otimista e 1,2% num mais pessimista. “As condições são boas para a retomada. O Brasil tem, por exemplo, um ótimo aliado, que é o juro a 6,5% ao ano – uma potência que está sendo amortecida pela criptonita da incerteza”, diz.

Mas, para ele, independentemente do candidato que assuma, será muito difícil escapar das reformas econômicas. “É inescapável que esses temas sejam atacadas no ano que vem  – é uma agenda que se impõe, não é optativa”, diz.

Alessandra Ribeiro, da Tendências, concorda. “Mesmo no cenário mais pessimista não é caótico. Isso porque, primeiramente, o novo presidente terá algumas amarras institucionais, como o teto de gastos, que limita as despesas. Além disso, há a forte pressão do mercado pelas reformas. Não haverá muito para onde fugir."

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Vinicius Neder e Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

31 Agosto 2018 | 22h41

A queda de 1,8% nos investimentos no Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre, em relação aos três primeiros meses do ano, chamou a atenção em meio à estagnação da economia. O recuo interrompeu uma sequência de quatro altas e levou a taxa de investimentos para 16% do PIB, a segunda menor taxa para segundos trimestres desde 1996, quando começa a série estatística do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 

Segundo economistas, a queda nos investimentos sinaliza para uma recuperação lenta da economia nos próximos trimestres e está relacionada com a incerteza política. O efeito da greve dos caminhoneiros aí é indireto, ao sinalizar para as dificuldades de articulação do governo.

“A formação bruta de capital fixo (FBCF, conta dos investimentos no PIB) está nesse processo de ‘stand by’ por conta do problema político, que foi de certa forma antecipado pela greve de caminhoneiros”, disse Fabio Bentes, chefe da Divisão Econômica da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

Cenário externo e incerteza eleitoral frearam investimentos

Além da greve dos caminhoneiros, o aumento da turbulência no cenário internacional e da incerteza no quadro eleitoral freiam os investimentos, segundo José Ronaldo de Castro Souza Júnior, diretor de Estudos e Políticas Macroeconômicas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). “Para o investimento deslanchar, precisa de uma melhora nas expectativas”, afirmou Souza Júnior.

A turbulência nos mercados internacionais, com alta dos juros nos EUA e crises cambiais na Turquia e na Argentina, contribui para a alta do dólar no País, o que também atrapalha os investimentos.

“A depreciação, que no começo de abril estava mais associada ao dólar forte no mundo, hoje está associada também a um pouco mais risco de doméstico. O que importa é que no fundo essa depreciação cambial já está impactando os investimentos, principalmente nesta metade de ano, e vai continuar impactando até o último trimestre do ano”, disse Igor Velecico, economista do Bradesco.

Para o economista-chefe da Mapfre Investimentos, Luis Afonso Lima, a fraca demanda das empresas por máquinas e equipamentos é um dos aspectos observados por Lima para afirmar que o PIB foi ruim “qualitativamente”. “A taxa de investimento não chega a 20% (do PIB) e não é tão relevante para o crescimento do próprio ano, mas dá pista do que acontecerá no longo prazo”, disse Lima. 

A fraca demanda por bens de capital nacionais contribuiu para a queda de 0,8% na indústria de transformação, na comparação com o primeiro trimestre. O resultado levou o PIB da indústria a recuar 0,6%.

Souza Júnior, do Ipea, lembrou ainda que os investimentos ainda estão sob influência da crise na construção civil. O PIB da indústria da construção encolheu 0,8% / COLABORARAM MARIA REGINA SILVA E CAIO RINALDI

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Silvia Matos*, O Estado de S.Paulo

31 Agosto 2018 | 14h05

Depois de um começo de ano razoável em termos de crescimento econômico, as previsões do Ibre indicavam um segundo trimestre um pouco melhor que o primeiro. De fato, o mês de abril não decepcionou: a indústria cresceu 0,9% em relação ao mês de março, o varejo ampliado 1,7% e foram criados 40 mil empregos formais no mês, já excluindo os efeitos sazonais.

Com a greve dos caminhoneiros em maio, o cenário mudou. Mesmo com a recuperação de parte das perdas em junho, o crescimento econômico recuou. Desde julho, as previsões do Ibre já apontavam para um crescimento baixo, mas positivo para o trimestre.

Mesmo sendo positivo, não podemos comemorar. Após o PIB recuar mais de 8% na última recessão ainda estamos longe de recuperar todas as perdas acumuladas. Após a saída da recessão conseguimos crescer, em média, 0,4% por trimestre. Mantido esse ritmo, só em 2021 o País conseguirá recuperar tudo o que foi perdido. O que seria inédito em nossa história. Em todas as recessões que o País passou desde 1980, de acordo com o Comitê de Datação de Ciclos (Codace), todas as perdas já haviam sido recuperadas, no máximo, em sete trimestres após o fim da recessão.

Para piorar, o investimento contraiu quase 2% neste segundo trimestre, o que é um péssimo resultado. Após recuar quase 30% na última recessão, houve um crescimento acumulado de apenas 2% até o segundo trimestre deste ano, muito distante de recuperar tudo o que perdemos. 

Para o segundo semestre ainda há muita incerteza com relação às previsões. Por enquanto, nossas projeções apontam para um crescimento do PIB de 0,9% no terceiro trimestre em relação ao segundo. Esse número mais elevado decorre em parte do fraco resultado do trimestre anterior. E para o ano fechado esperamos um crescimento de 1,5%.

Para 2019, os prognósticos ficam difíceis, pois qualquer previsão vai depender do resultado das eleições. Caso vença um governo que seja capaz de fazer as reformas de que o País precisa, podemos crescer mais que este ano. Mas, sem dúvida, o desafio do próximo governo será hercúleo. Sem reformas fiscais profundas, não vamos conseguir reequilibrar as contas públicas e estabilizar a dívida pública. Também precisamos continuar avançando nas reformas microeconômicas para aumentar a produtividade, tão crucial para elevar o crescimento potencial.

*Economista e pesquisadora da Economia Aplicada do FGV IBRE

Este artigo expressa a opinião do autor, não representando necessariamente a opinião institucional da FGV

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Márcia de Chiara, O Estado de S.Paulo

31 Agosto 2018 | 22h44

O primeiro semestre deste ano foi difícil para o empresário Ramiro Sanchez Palma, sócio-diretor da Anfra Tecidos, uma indústria de porte médio especializada em tecidos para decoração. A expectativa inicial era repetir neste ano as vendas de 2017, mas o cenário começou a piorar em fevereiro. “A greve dos caminhoneiros em maio foi a pá de cal”, diz o empresário, que fechou o primeiro semestre com queda de até 5% no volume de negócios. 

Para ajustar a empresa à demanda menor, Palma cortou em 10% o quadro de empregados. Está investindo só em novos produtos e processos. Comprar máquinas novas nem passa pela cabeça do empresário, que convive com grande ociosidade na fábrica. Hoje ele usa 65% da capacidade total de produção.

Para reverter a queda do primeiro semestre, Palma decidiu desenvolver novos produtos, já que o mercado não reage. “A receptividade foi boa, mas ainda não deu para sentir no caixa.”

A piora do cenário sentida pelo empresário ficou nítida no desempenho do PIB da indústria do segundo trimestre. O PIB industrial caiu 0,6% em relação ao trimestre anterior e teve o pior resultado comparado à agropecuária e aos serviços.

Para Rafael Cagnin, economista chefe do Iedi, o baque sofrido pela indústria no PIB não surpreende. Segundo ele, a produção física das fábricas vinha perdendo força desde o início do ano e o quadro piorou com a greve dos caminhoneiros. 

Apesar de ser um resultado previsível, o economista alerta para a gravidade do cenário. A indústria, segundo ele, é o núcleo do sistema econômico. Quando ela perde o passo e patina, tende a levar a economia como um todo para o mesmo caminho, observa. “Isso é preocupante, porque prenuncia um desempenho pífio da economia como um todo.”

O presidente em exercício da Fiesp, José Ricardo Roriz Coelho, também está preocupado com a queda da indústria no PIB. “A indústria é a mola propulsora do crescimento”, diz. Na sua opinião, a estagnação da indústria e do PIB está relacionada com a forte incerteza gerada pela indefinição do cenário eleitoral. O ponto de virada para a volta do investimento e do crescimento virá com o resultado das eleições, prevê. Mesmo assim, até a definição do programa do novo governo, a economia, diz Coelho, deve ficar estagnada e voltar a crescer no 2.º semestre de 2019.

O gerente executivo de Política Econômica da CNI, Flávio Castelo Branco, faz coro com Cagnin e Coelho. “Para desatar o nó da economia brasileira é preciso desatar o nó eleitoral”, diz.

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Daniela Amorim e Renata Batista, O Estado de S.Paulo

31 Agosto 2018 | 22h50

Os brasileiros pisaram no freio nas compras no segundo trimestre, fazendo com que o consumo das famílias ficasse praticamente estagnado, com alta de apenas 0,1% em relação ao trimestre anterior, segundo o IBGE. Com a demanda fraca, o comércio encolheu 0,3% no período, mas alguns serviços ajudaram a manter o PIB em território positivo. Houve avanços nos setores imobiliário, financeiro e de comunicação.

“O que vimos foi uma inflação maior e alguns preços administrados pressionando as margens de lucro dos empresários. O aumento de custos corroeu o aumento nas vendas”, avaliou Fabio Bentes, chefe da Divisão Econômica da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

Segundo o IBGE, a greve de caminhoneiros e a alta do dólar pesaram contra o consumo no trimestre, via desabastecimento e encarecimento de produtos. Além disso, houve impacto negativo do mercado de trabalho, que ainda registra quase 13 milhões de desempregados.

“As liberações de recursos do PIS/Pasep podem ajudar um pouquinho o comércio, mas o câmbio traz um cenário difícil para o segundo semestre do ano”, afirmou Bentes.

Para José Ronaldo de Castro Souza Júnior, diretor de Estudos e Políticas Macroeconômicas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a conjuntura desfavorável, com elevadas incertezas no cenário eleitoral e internacional, tem impedido uma reação mais contundente do emprego. “O mercado de trabalho é consequência disso.”

“O que estamos vendo é que nenhum empresário quer investir antes da eleição e as famílias, com o nível de desemprego que temos, também não estão consumindo”, disse o professor de economia do Ibmec Alexandre Espírito Santo.

Em relatório, a consultoria LCA avaliou que “o somatório do consumo das famílias com os investimentos em ativos fixos (privados e públicos) aparentemente é o principal fator por detrás da expansão muito lenta da atividade nos trimestres mais recentes”. Até o fim do ano, Rodrigo Nishida, economista da LCA, vê espaço para as liberações do PIS/Pasep impulsionarem um pouco o consumo das famílias.

Por outro lado, mesmo em meio à crise fiscal, o consumo do governo cresceu 0,5% no segundo trimestre em relação ao primeiro, o melhor desempenho desde o primeiro trimestre de 2016. O aumento pode estar relacionado com o calendário eleitoral, disse Claudia Dionísio, gerente da Coordenação de Contas Nacionais do IBGE. Como a lei eleitoral impõe restrições aos gastos públicos perto das eleições, os governos regionais correm para aumentar o consumo no segundo trimestre.

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