Werther Santana/Estadão; Dirceu Portugal/FotoArena; Gabriela Biló/Estadão
PIB brasileiro avançou 1,1% em 2018. Werther Santana/Estadão; Dirceu Portugal/FotoArena; Gabriela Biló/Estadão

Com alta de 1,1%, avanço da economia frustra e analistas já revisam PIB de 2019

Após IBGE confirmar a expansão modesta de 2018, projeções apontam, em média, crescimento de 2,05% para este ano, ante 2,4% duas semanas atrás; economia ainda está 5,1% abaixo do pico pré-crise, a mais lenta recuperação em 40 anos

O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2019 | 09h05
Atualizado 28 de fevereiro de 2019 | 21h38

RIO, BRASÍLIA E SÃO PAULO - A economia cresceu 1,1% em 2018, o mesmo ritmo de 2017, frustrando expectativas que apontavam, no início do ano passado, para um avanço médio de 2,8%. Após o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) confirmar nesta quinta-feira, 28, o modesto avanço no Produto Interno Bruto (PIB, a soma de todo o valor gerado na economia) do ano passado, analistas cortaram as projeções para 2019. Agora, na média, as apostas apontam para um crescimento de 2,05% este ano, ante 2,4% duas semanas atrás, como mostraram as pesquisas do Estadão/Broadcast.

Dois anos após o fim da recessão, a atividade econômica ainda está 5,1% abaixo do pico do início de 2014, configurando a mais lenta recuperação em 40 anos, nas contas da LCA Consultores. Para Mônica de Bolle, pesquisadora do Instituto Peterson de Economia Internacional, em Washington (EUA), o Brasil poderá experimentar uma nova década perdida, recuperando as perdas apenas em 2021 ou depois.

Segundo a economista, a “destruição de capacidade produtiva” causada pela política econômica do governo Dilma Rousseff (PT) e pelos efeitos das investigações sobre corrupção nos setores de petróleo e construção ajudam a explicar a lentidão. “Não tem como a recuperação ser rápida”, disse, citando ainda a crise política iniciada nas eleições de 2014.

Previdência

O secretário de Política Econômica (SPE) do Ministério da Economia, Adolfo Sachsida, afirmou que o crescimento pode chegar a 2,9% se a reforma da Previdência for aprovada, mas diversos analistas demonstraram ceticismo.

Para a economista-chefe da XP Investimentos, Zeina Latif, a economia tem problemas estruturais. Ela defende a reforma da Previdência como “primordial” e frisa que juros mais baixos, como sugerem alguns economistas, poderiam ajudar, mas as duas medidas não impulsionariam a atividade. “Fica uma coisa de que basta melhorar a confiança para o empresário sair investindo. Não é bem assim.”

A frustração em 2018 foi forjada, mês a mês, com o agravamento da crise econômica na Argentina, a greve dos caminhoneiros, em maio, as incertezas do período eleitoral e a persistência do desemprego.

No ano passado, o crescimento foi menos concentrado na agropecuária do que em 2017. O PIB industrial teve a primeira alta desde 2013, mas o avanço de apenas 0,6% foi minado por uma freada no segundo semestre. O crescimento de 4,1% nos investimentos foi inflado por uma questão contábil. A alta de 1,9% do consumo das famílias foi o motor do crescimento, porém os dados de emprego e renda não animam.


Em relação a 2018, economistas também ressaltam a diferença entre a expectativa de crescimento no início do ano, quando o Relatório de Mercado Focus, que reúne previsões semanais do mercado financeiro para a economia, chegou estimar um avanço de 2,92% e o crescimento de 1,1% divulgado nesta quinta-feira, 28.

O resultado anual ficou no piso das expectativas coletadas por 48 instituições consultadas pelo Projeções Broadcast. As casas previam um crescimento que variava de 1,1% a 1,35%, com mediana de 1,20%.

No quarto trimestre do ano passado, ainda que alguma desaceleração do PIB fosse esperada depois de um terceiro trimestre atípico, com a reversão dos danos da greve dos caminhoneiros e efeitos da liberação do PIS/Pasep, o desempenho efetivo da atividade no fim do ano ficou aquém do previsto pelos economistas, principalmente diante do avanço dos indicadores de confiança. Essa fraqueza do quarto trimestre acende um alerta para o ritmo de crescimento no começo de 2019, segundo economistas.

O avanço de 0,1% no último trimestre do ano ficou dentro das estimativas coletadas pelo Projeções Broadcast, que previam um recuo de 0,20% a um avanço de 0,36%, com mediana positiva de 0,1%.

Desempenho dos setores

O IBGE registrou desempenho positivo em 2018 nas atividades da agropecuária (0,1%), da indústria (0,6%) e dos serviços (1,3%).

No primeiro setor, que teve resultado recorde em 2017, os números foram puxados pela agricultura, com destaque para café (29,4%), algodão (28,4%), trigo (25,1%) e soja (2,5%). Houve quedas nas lavouras de milho (-18,3%), laranja (-10,7%), arroz (-5,8%) e cana (-2,0%).

Na indústria, o destaque foi o segmento de eletricidade e gás, água, esgoto, atividades de gestão de resíduos, que cresceu 2,3%ante 2017. Por outro lado, a construção teve retração de 2,5% em 2018 - foi o quinto ano seguido de queda.

Segundo Rebeca, o segmento de infraestrutura, diretamente atingido pelos cortes no investimento público, é o principal responsável pelo desempenho negativo do Produto Interno Bruto (PIB) da construção civil. "Quando (os governos) têm que cortar, o investimento é o primeiro a ser cortado porque não é despesa obrigatória". Ela ainda apontou que a queda da construção foi a menos intensa dos últimos 5 anos.

Com o bom resultado nos segmentos de veículos automotores, papel e celulose, farmacêutica, metalurgia e máquinas e equipamentos, as indústrias de transformação cresceram 1,3% no ano.

Em serviços, todas as atividades tiveram variação positiva, com destaque para atividades imobiliárias (3,1%), comércio (2,3%) e transporte, armazenagem e correio (2,2%).

Entre os componentes da demanda interna, o consumo das famílias cresceu 1,9% e os investimentos, 4,1%, depois de quatro anos no negativo. O consumo do governo se manteve estável (0,0%).

As exportações de bens e serviços cresceram 4,1%, enquanto as importações subiram 8,5%.

Setor externo contribuiu negativamente para o PIB

O setor externo contribuiu negativamente para o PIB brasileiro em 2018, ressaltou a coordenadora de Contas Nacionais do IBGE. As importações cresceram 8,5% em 2018, enquanto as exportações aumentaram 4,5%.

"A importação está crescendo mais que a exportação. Aqui tem a ver, por exemplo, com a agropecuária, que diante da safra recorde no ano 2017, exportou bem menos em 2018 do que em 2017. E além disso a crise da Argentina afetou muito as exportações, porque é um dos principais parceiros comerciais do Brasil", justificou a pesquisadora.

Segundo Rebeca, o PIB poderia ter crescido mais em 2018, não fosse a contribuição negativa do setor externo, que ocorreu a despeito da desvalorização do real ante o dólar.

Pela ótica da demanda, o avanço de 1,9% no Consumo das Famílias foi o que puxou o PIB no ano passado. "O mercado de trabalho está melhorando, mas realmente a renda não cresce tanto. A renda está crescendo em ritmo muito lento. Então essa melhora, mesmo que seja pequena, já ajuda o consumo das famílias", explicou Palis.

Para a pesquisadora, se todo trabalhador que está entrando no mercado de trabalho tivesse carteira assinada, a renda estaria crescendo mais. Ela lembra que, por enquanto, nem a economia nem o consumo das famílias cresce no mesmo ritmo que cresciam antes da crise.

Revisões

O IBGE revisou o PIB do terceiro trimestre de 2018 ante o segundo trimestre do ano, de 0,8% para 0,5%. O órgão também revisou a taxa do PIB do segundo trimestre de 2018 ante o primeiro, de 0,2% para 0,0%.

A taxa do primeiro trimestre de 2018 ante o quarto trimestre de 2017 saiu de 0,2% para 0,4%. Já o resultado do quarto trimestre de 2017 ante o terceiro trimestre de 2017 passou de 0,2% para 0,3%.

Para Entender

Entenda o que é o PIB e como ele é calculado

Saiba também quem calcula o Produto Interno Bruto e quem criou o conceito.

Ranking

O Brasil ficou na 40ª posição em um ranking de crescimento econômico de 2018 com 42 países, informou na quinta-feira a consultoria Austin Asis. O crescimento de 1,1% do Produto Interno Bruto (PIB) consolidado de 2018 colocou o País abaixo da média global de 3,7%.

A distância para os países emergentes do grupo Brics, que, além do Brasil, reúne China, Rússia, Índia, África do Sul, foi ainda maior. A média de crescimento no grupo foi de 5,1%. A Índia lidera o ranking, com alta estimada de 7,5% no ano, seguida pela China, cujos dados, já divulgados, mostram alta de 6,6% em 2018.

“O resultado da Índia advém da política voltada para os investimentos. A Índia investe cerca de 30% a 40% do PIB, tendo em vista sua necessidade a absorver toda a mão de obra entrante no mercado, contribuindo para o forte crescimento do PIB”, afirma o economista da Austin Asis, Wellington Ramos, frisando que os EUA também já colhem os resultados das medidas de estímulo ao emprego e de queda da carga tributária, tomadas no fim de 2017.

A exemplo do que aconteceu com o Brasil, no último trimestre de 2018, o ritmo de crescimento nos países pesquisados diminuiu. Na comparação com o terceiro trimestre, a média de crescimento do grupo de 42 países ficou em 2,7% - o PIB brasileiro avançou 0,1% no quarto trimestre ante o terceiro: “O destaque do ranking é a recuperação dos países europeus que passaram por crise (em 2011), como Espanha e Portugal. Em uma década, já conseguiram se recuperar e já crescem mais do que o Brasil”. /VINICIUS NEDER, DANIELA AMORIM, RENATA BATISTA, ADRIANA FERNANDES, IDIANA TOMAZELLI, RENATA PEDINI e FRANCISCO CARLOS DE ASSIS

Encontrou algum erro? Entre em contato

PIB da agropecuária cresce 0,1% em 2018, limitado por greve dos caminhoneiros

Segundo o IBGE, desempenho modesto é justificado pela alta base de comparação com 2017, quando o setor registrou avanço de 12,5%

Gustavo Porto, Isadora Duarte e Barbara Nascimento, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2019 | 12h12

O Produto Interno Bruto (PIB) da agropecuária subiu 0,1% em 2018 ante 2017. Os dados foram divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que anunciou nesta quinta-feira, 28, os resultados das Contas Nacionais Trimestrais. O PIB do País avançou 1,1% no - mesmo resultado de 2017 - e 0,1% no último trimestre.

No quarto trimestre de 2018, o PIB da agropecuária subiu 0,2% contra o terceiro trimestre. Na comparação com o quarto trimestre de 2017, teve alta de 2,4%.

O coordenador do Núcleo Econômico da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Renato Conchon, afirmou ao Estadão/Broadcast Agro que o crescimento modesto do  PIB da agricultura no ano passado é justificado pela alta base de comparação com 2017, quando registrou crescimento de 12,5%.

"O PIB de 2018 poderia ser melhor, já que estimávamos alta de 0,5%. Mas a base de comparação foi forte e, além disso, 2018 não foi ano maravilhoso, pois teve condições climáticas adversas e 'brindes' como a greve de caminhoneiros e as eleições", disse.

O coordenador do Núcleo Econômico da CNA lembrou que o processo eleitoral trouxe volatilidade para o dólar no segundo semestre do ano passado, época de compra de insumos por parte dos agricultores. "O ambiente econômico não foi um dos melhores", concluiu.

Ele ainda afirmou que a entidade estima alta de 3,5% do PIB da Agropecuária em 2019. Segundo Conchon, a base de comparação com 2018, cuja alta foi apenas 0,1% sobre 2017, é baixa e favorecerá o desempenho do PIB setorial este ano.

Para a consultoria MB Agro, após o leve crescimento em 2018, o setor não deve ter muito a comemorar em 2019. "O indicador veio dentro do esperado. No período, tivemos quebras expressivas nas safras de milho e cana-de-açúcar. O resultado não foi ainda pior porque a produção de soja no ano foi boa", disse José Carlos Vannini Hausknecht, sócio diretor da consultoria.

O executivo acredita que a Operação Carne Fraca e a greve dos caminhoneiros também contribuíram para limitar a produção agropecuária. A primeira porque levou o setor pecuário a reduzir a produção, em virtude de embargos nas exportações. Já a segunda porque restringiu a produção de setores que dependem de cargas vivas ou perecíveis.

"Tivemos uma série de problemas no setor com a paralisação dos caminhoneiros, entre eles, recuo no abate de animais por falta de ração e milhares de litros de leite jogados fora", ressaltou Hausknecht.

A estimativa da consultoria para o PIB da agropecuária neste ano é de queda ou, no máximo, crescimento próximo de zero. "O desempenho do setor tende a ser pior do que no ano passado, principalmente pelo aperto na safra de soja. Será próximo de zero somente se a produção de milho se recuperar e compensar, parcialmente, as perdas da colheita de soja. Caso contrário, será ainda pior", explicou Hausknecht.

A economista da Fundação Getulio Vargas, Luana Miranda, acredita  que o desempenho da agropecuária é cíclico e deve voltar a decepcionar em 2019. "Vai ser um ano difícil para a agropecuária, por questões climáticas. Alguns produtos já estão com problemas na safra", aponta.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Com maior peso no PIB, setor de serviços puxa avanço da economia

Responsável por 75,8% do PIB, setor, que inclui atividades do comércio, cresceu 1,3% em 2018; inflação controlada e desemprego ligeiramente menor que em 2017, contribuíram para o resultado

Daniela Amorim, Renata Batista e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2019 | 11h48
Atualizado 28 de fevereiro de 2019 | 21h23

RIO - O setor de serviços, que responde por 75,8% do Produto Interno Bruto (PIB), cresceu 1,3% em 2018, e foi o que mais contribuiu para o avanço da economia, ao registrar taxas positivas em todas as sete atividades pesquisadas, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados nesta quinta-feira, 28. Atividades imobiliárias, que cresceram 3,1%, e comércio, 2,3%, foram os ramos que mais influenciaram o desempenho do setor.

De acordo com a gerente de Contas Nacionais do IBGE, Cláudia Dionísio, a estabilização da economia, com inflação e juros baixos, contribuiu para o avanço do segmento. “Essas atividades foram beneficiadas por um mercado mais estabilizado, aliado à inflação mais controlada e pelo desemprego ligeiramente menor que o do ano passado”, apontou.

No quarto trimestre de 2018, o PIB de serviços subiu 0,2% contra o terceiro trimestre do ano. Na comparação com o quarto trimestre de 2017, o PIB de serviços mostrou alta de 1,1%.

Segundo o IBGE, o PIB nacional repetiu o resultado de 2017 e avançou 1,1% no ano de 2018, somando R$ 6,8 trilhões. No quarto trimestre, o crescimento foi de 0,1% em comparação com o trimestre imediatamente anterior. A alta anual leva a atividade econômica ao mesmo patamar do primeiro semestre de 2012, mas o PIB ainda encontra-se 5,1% abaixo do pico alcançado no primeiro semestre de 2014.

Consumo das famílias tem alta

Apesar da situação ainda precária no mercado de trabalho, o consumo das famílias brasileiras foi o principal motor da economia no ano passado. O avanço foi de 1,9% no ano de 2018, ainda aquém do patamar pré-crise.

“O mercado de trabalho está melhorando, mas a renda está crescendo em ritmo muito lento. Essa melhora, mesmo que seja pequena, já ajuda o consumo das famílias. Se todo o mundo que está entrando no mercado de trabalho tivesse carteira assinada, a renda estaria crescendo mais”, explicou Rebeca Palis, coordenadora de Contas Nacionais do IBGE.

Além do crescimento da massa salarial real, o consumo foi impulsionado em 2018 pelo avanço nas concessões de crédito para pessoas físicas e por um alívio nas taxas de juros. A inflação ainda comportada também incentivou o brasileiro a gastar.

“A taxa de juros para o consumidor ainda tem o que cair, está em 49% ao ano, mas pode chegar a 45% ainda em 2019”, lembrou Fabio Bentes, chefe da Divisão Econômica da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

A CNC prevê que o consumo acelere o ritmo de recuperação este ano, com uma alta de 2,6%, puxada pela melhora no crédito, mas também por uma projeção de geração de 850 mil postos de trabalho com carteira assinada, como registrado no Caged, cadastro federal.

“O mercado de trabalho é o que dá combustível ao consumo das famílias. A preocupação não é nem com a taxa de desemprego, é com a subutilização da força de trabalho. A informalidade está muito alta, temos desalentados e subocupados em níveis recordes”, lamentou Bentes.

A melhora na confiança de consumidores e empresários ainda é puxada pelas expectativas mais otimistas com os próximos meses do que por uma avaliação favorável do momento atual, lembrou Leonardo Mello de Carvalho, técnico de planejamento e pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). “É preciso que se reduza o nível de incerteza para que o empresário volte a investir.”

Círculo vicioso

Para a economista Mônica de Bolle, pesquisadora do Instituto Peterson de Economia Internacional, em Washington (EUA), a economia está vivendo um “processo endógeno, que se retroalimenta”, no qual o elevado desemprego impede um crescimento maior do consumo, o que inibe a demanda por novos investimentos, que, por sua vez, freia a geração de empregos.

O consumo das famílias puxou também a alta de 1,3% no PIB de serviços em 2018. O destaque foi justamente a atividade de comércio, que avançou 2,3% ante 2017.

Nesse quadro, segundo o IBGE, o crescimento do ano passado foi dependente da demanda interna, que cresceu 1,6% ante 2017. A atividade econômica só não avançou mais porque o setor externo teve contribuição negativa, tirando 0,5 ponto porcentual do crescimento de 2018.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

PIB da indústria tem primeiro resultado positivo desde 2013

Setor cresceu 0,6% em 2018 em relação ao ano anterior; o segmento de construção civil, porém, acumula cinco quedas seguidas

Daniela Amorim, Renata Batista e Vicicius Neder, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2019 | 11h21

RIO - A crescimento de 0,6% no Produto Interno Bruto (PIB) da indústria em 2018 foi a primeira variação positiva após quatro anos de queda, informou nesta quinta-feira, 28, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2013, a indústria havia subido 2,2% ante 2012.

Apesar do alívio, quando as atividades industriais são desagregadas, a indústria da construção civil amargou o quinto ano seguido de queda, com recuo de 2,5% em seu PIB em 2018 ante 2017. A construção tem desempenhos negativos desde 2013.

Segundo o IBGE, o PIB nacional repetiu o resultado de 2017 e avançou 1,1% no ano de 2018, somando R$ 6,8 trilhões. No quarto trimestre, o crescimento foi de 0,1% em comparação com o trimestre imediatamente anterior. A alta anual leva a atividade econômica ao mesmo patamar do primeiro semestre de 2012, mas o PIB ainda encontra-se 5,1% abaixo do pico alcançado no primeiro semestre de 2014.

Isoladamente no quarto trimestre de 2018, na comparação com o trimestre imediatamente anterior, a indústria da transformação encolheu 1,0%, maior queda nessa base de comparação desde o quarto trimestre de 2016, quando houve recuo de 1,3% em relação ao terceiro trimestre de 2016.

Minério de ferro

O aumento da produção de minério de ferro pela Vale em 2018 compensou a queda na extração de petróleo e gás no ano e garantiu a alta de 1% na produção do segmento de indústrias extrativas em relação ao ano anterior.

Os dados do IBGE mostram que a produção avançou significativamente no último trimestre do ano, quando o setor extrativo avançou 1,9% em relação ao período entre julho e setembro. Em relação ao mesmo trimestre do ano anterior, a alta foi de 3,8%.

De acordo com a coordenadora de Contas Nacionais do IBGE, Rebeca Pallis, o desempenho da indústria extrativa foi um dos fatores que ajudaram a compensar  a redução no ritmo de crescimento do agronegócio em 2018 para o resultado do setor externo.

Os dois segmentos são fortemente orientados às exportações, mas o segmento agro não repetiu a safra recorde do ano anterior. A exportação avançou apenas 4,1% no ano apesar da alta do dólar, mas também mostrava aumento no ritmo no último trimestre de 2018, quando avançou 12% em realização aos três meses do ano anterior.

Antes do rompimento da barragem de Brumadinho, em Minas Gerais, a produção da Vale vinha subindo principalmente na região Norte, com o aumento paulatino da nova operação de S11D, no Pará. A produção de minério no Sudeste em 2018 foi afetada pela operação da Anglo American, que teve um vazamento em um mineroduto e passou a maior parte do ano paralisada.

A expectativa dos analistas do setor para 2019 é que a retomada da Anglo compense, em parte, a retirada de parte da produção da Vale na região Sudeste após a tragédia de Brumadinho. A empresa tomou a iniciativa de suspender a produção de cerca de 40 milhões de toneladas na região e está com outros 35 milhões de toneladas suspensos por questões de licenciamento.

Encontrou algum erro? Entre em contato

'Se reformas caminharem, dá para ser mais otimista em 2019', diz Silvia Matos

Para economista, apesar de o País repetir o resultado do ano anterior, desempenho de 2018 foi melhor e consumo das famílias deve avançar este ano

Entrevista com

Silvia Matos

Douglas Gavras, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2019 | 12h12

Na visão da economista Silvia Matos, o desempenho da economia brasileira no ano passado, de crescimento de 1,1% do Produto Interno Bruto (PIB), divulgado nesta quinta-feira, 28, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostra uma melhora no cenário interno, apesar de muito abaixo do que era esperado no início de 2018.

Para a pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), a aprovação da reforma da Previdência é crucial para a sinalização do compromisso do governo de Jair Bolsonaro com as contas públicas, mas ela não basta para que o País entre em ciclo de crescimento mais acelerado. Também é preciso resolver a eficiência e a qualidade dos gastos públicos. A seguir, trechos da entrevista. 

Em 2018, o Brasil cresceu o mesmo que havia crescido no ano anterior. Esse desempenho deve ser comemorado?

Devemos considerar que o País está em baixo crescimento. O resultado de 2018 foi melhor do que o do ano anterior, porque a composição foi diferente. Se o PIB de 2017 cresceu embalado pela agropecuária e por uma indústria muito dependente das exportações, em 2018 o consumo das famílias já teve um desempenho maior e houve um avanço do investimento em máquinas e equipamentos, mesmo desconsiderando os investimentos em plataformas de petróleo, que comprometem a comparação. O resultado é muito aquém do esperado, após a perda de PIB durante a recessão, mas é um pouco melhor.

Com o resultado do PIB de 2018 já é possível fazer um retrato do desempenho do governo Michel Temer na economia. Ele é positivo ou negativo?

Vimos alguns avanços, o governo montou uma equipe econômica muito boa e conseguiu aprovar a PEC dos gastos, mas havia uma promessa de ajuste fiscal estrutural, que não se cumpriu. A fragilidade política do presidente e sua baixa popularidade aumentaram a dificuldade de aprovação das reformas. Quando ficou claro que o governo não conseguiria aprovar a reforma da Previdência, houve uma grande frustração, que limitou a capacidade de recuperação da economia. Eu critico a visão muito otimista que se criou sobre a capacidade de resolução dos problemas do País. Criou-se uma expectativa muito grande, que acabou atrapalhando na retomada do crescimento — e ainda estamos pagando essa conta de 2018, de ajuste incompleto. 

A reforma da Previdência ganhou protagonismo ao se discutir os passos que o País precisa dar para acelerar a recuperação. Esse protagonismo é justificado? 

A reforma da Previdência é muito importante, mas não resolve todos os problemas do País. Ela ataca um problema inicial, de insolvência das contas públicas, mas é preciso melhorar também a eficiência do gasto público. O governo precisa ser mais eficiente e alocar recursos de forma mais racional do que tem feito até agora. Essa é uma agenda muito longa e de difícil execução, mas necessária. Sem isso, o cenário interno será bem negativo e é bom lembrar que ele sempre pode piorar. 

Os investimentos devem ter um desempenho maior este ano?

Acredito que este ano vai ser melhor para os investimentos do que o ano passado. Estamos projetando um avanço mais próximo de 5%, o que ainda inclui as plataformas de petróleo, mas um número melhor do que o de 2018 e que deve crescer mais no segundo semestre. Só que o recurso internacional para investimentos ainda não está vindo. No começo do ano, o investidor ainda vai esperar para tomar decisões que demandam mais certezas, ele ainda precisa acreditar que o governo Bolsonaro irá conseguir implementar as reformas.  

Quais são as perspectivas de crescimento do País para este ano?

Se as coisas caminharem bem, em termos de avanços nas reformas fiscais e tributárias e nas privatizações, é possível ser mais otimista e pensar em um crescimento do PIB de 2,1% para 2019. Não dá para dizer que seria um resultado ruim, mas o Brasil ainda tem muitos desafios para chegar a um crescimento na casa dos 3%. No ano como um todo, o agronegócio não deve ter um desempenho muito melhor do que em 2018, a indústria de transformação ainda sofre com a crise na Argentina.

O consumo das famílias cresceu 1,9% em 2018. Ele deve ter um desempenho melhor este ano?

Por um lado, o consumo das famílias cresceu no ano passado, mas o mercado de trabalho ainda está muito fraco e o consumo não dá para crescer muito mais. Os juros reais também ainda estão muito altos, mas não tem milagre, depende de investimento e produtividade. Resolvendo a insolvência fiscal, pode ter um novo ciclo para a economia. Para este ano, estamos prevendo 2,5% de crescimento do consumo das famílias, um resultado acima do PIB, mas que depende do crescimento dos outros setores. A necessidade cada vez menor de mão de obra também pesa no mercado de trabalho e na capacidade de aumento do consumo das famílias. Além disso, o País não pode mais arcar com um boom de crédito, como no passado, sem fazer mudanças estruturais.

Este ano deve ser mais difícil para o Brasil, do ponto de vista internacional?

Sim. O que estamos vendo é um cenário em que o mundo está desacelerando e tendo de enfrentar novos desafios, com um crescimento mais baixo. Há uma discussão ainda forte sobre os rumos da guerra comercial entre China e Estados Unidos que não é favorável aos emergentes. O Brasil, portanto, precisa acelerar seu crescimento em um contexto internacional desfavorável, de desaceleração do crescimento internacional. Com alguma frequência, o País perde janelas favoráveis para o crescimento e precisa compensar essa demora em momentos mais complicados para crescer.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Retomada mais forte depende da aprovação das reformas

Apesar da força externa negativa, a economia brasileira ainda tem um alto nível de ociosidade e é um dos poucos países com possibilidade de aceleração do crescimento

José Ronaldo de C. Souza Jr.*, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2019 | 13h27

Os resultados do PIB para 2018, apenas aparentemente, vieram iguais aos de 2017, mas uma análise desagregada dos dados mostra uma aceleração da demanda interna, contrabalançada pela redução das exportações líquidas. O indicador Ipea de demanda interna por bens industriais já mostrava crescimento muito maior que a produção industrial mensal, crescimento de 3,0% da demanda contra 1,0% da produção.

O comércio exterior ficto de plataformas de petróleo explica praticamente metade da variação anual das quantidades importadas e exportadas de bens. No entanto, esse fato pouco afetou as exportações líquidas (exportações menos importações). Por outro lado cerca de metade do crescimento dos investimentos é resultante de importações fictas de plataformas. Ainda assim, mesmo sem as plataformas, os investimentos teriam revertido a queda de 2017 para uma alta moderada em 2018.

As demais exportações foram muito prejudicadas pela crise econômica da Argentina – país que é um dos principais importadores de produtos industrializados do Brasil. Neste ano, isso deve ter impacto menor sobre o desempenho das nossas exportações e da nossa produção industrial. Outra influência negativa para 2019 é a piora quase generalizada das economias dos países desenvolvidos. Por último, a disputa comercial entre os EUA e a China, que impulsionou as exportações brasileiras de soja – que cresceram mais de 20% em 2018 –, pode ter efeito contrário neste ano. A China deve ampliar as compras de grãos dos EUA, o que tende a prejudicar o desempenho anual das exportações brasileiras.

Apesar dessa força externa negativa, a economia brasileira ainda tem um alto nível de ociosidade e é um dos poucos países grandes do mundo com possibilidade de aceleração do crescimento neste e nos próximos anos. O principal driver de crescimento é a melhora das expectativas, que tenderia a estimular uma retomada mais intensa dos investimentos. Obviamente, o prazo para a aprovação das reformas é crucial para o crescimento do PIB em 2019. No caso da reforma da previdência, que é a mais relevante devido ao problema estrutural das contas públicas, a profundidade das mudanças – em termos de economia para os cofres públicos – também é determinante para o desempenho da economia. 

* Diretor de Estudos e Políticas Macroeconômicas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea)

Encontrou algum erro? Entre em contato

Resultado do PIB indica 'marcha lenta' e pouco espaço para crescimento em 2019

Para especialistas do mercado, economia brasileira deve crescer em torno de 2% neste ano, mas já há revisões negativas nas previsões

Bárbara Nascimento, Caio Rinaldi, Francisco Carlos de Assis e Thais Barcellos, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2019 | 14h34

O resultado do Produto Interno Bruto (PIB) de 2018 mostrou uma economia com dificuldades de reagir. Para além do resultado da indústria, abatida por questões atípicas como o período eleitoral e a greve dos caminhoneiros, especialistas destacam o baixo nível do investimento, que indica pouco espaço para crescer também em 2019.

Para a maior parte dos analistas, o ritmo deve continuar lento e o PIB neste ano deve crescer em torno dos 2%. Mas o dado divulgado nesta quinta-feira, 28, pelo Instituo Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) já provocou revisões em baixa para o PIB desse ano, caso de JPMorgan e Rabobank, por exemplo.

Para o economista-chefe da SulAmerica Investimentos, Newton Rosa, a taxa de investimento de 15,8% do PIB indica uma economia fraca e, consequentemente, um crescimento potencial baixo. Ele acredita que  os empresários devem aguardar a aprovação das reformas, sobretudo a da Previdência, para voltar a investir, o que empurra o crescimento para o segundo semestre. O governo, no entanto, está mais otimista. Em entrevista ao Estadão/Broadcast na manhã desta quinta, o secretário de Política Econômica (SPE) do Ministério da Economia, Adolfo Sachsida, afirmou que o crescimento pode chegar a 2,9% se a reforma for aprovada.

No entanto, na visão da economista-chefe da XP Investimentos, Zeina Latif, a reforma da Previdência e a política monetária acomodatícia não entregarão, sozinhos, um crescimento da atividade. Ela destaca que há problemas regulatórios e estruturais graves a serem resolvidos para que ocorra a retomada da expansão econômica.

O economista-chefe do Banco Fibra, Cristiano Oliveira, afirma acreditar que o PIB em 2019 crescerá com alguma força extra em relação a 2018, mas destaca que o espaço é reduzido. "Tendemos a crescer mais forte, mais próximo do PIB potencial, que não é muito alto, em torno de 2,2%", diz. O economista explica que demora pelo menos dois trimestres para que a melhora nas condições financeiras, observada no fim do ano passado, tenha reflexos na economia real, via crédito.

A percepção é endossada pelo economista do banco ABC Brasil, Luis Otávio de Souza Leal: "Ainda é muito difícil ser otimista com o PIB e enxergar um crescimento acima deste patamar", apontou. O cenário neste início de ano para a atividade econômica está poluído".

Leal destaca a paralisação das atividades da Vale, que pode afetar o desempenho da indústria extrativa e a crise na Argentina. Esta última é uma das responsáveis por ter derrubado também a atividade de 2018 na indústria da transformação. A indústria avançou apenas 0,6% no ano passado.

Rosa, da SulAmerica, emenda ainda que os primeiros indicadores de 2019 apontam que este ano "começou no mesmo ritmo do ano passado". "Teríamos que ver aceleração maior da Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) para aumentar o crescimento potencial nos próximos anos", apontou. Apesar de ter tido uma alta de 4,1% em 2018, a FBCF, que mede o investimento no País, está inflada por uma mudança na contabilização das plataformas de petróleo que são exportadas para empresas estrangeiras que operam no Brasil.

Além disso, problemas na safra de alguns produtos, sobretudo a soja, podem indicar um ano difícil também para a agropecuária, destaca a economista da Fundação Getulio Vargas (FGV/IBRE), Luana Miranda. Em 2018, o crescimento da agropecuária foi de 0,1%.

Por outro lado, a fraca evolução do PIB no ano passado pode abrir espaço para que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central corte mais a taxa nominal de juro (Selic), que atualmente está em 6,50% ao ano, o menor patamar da história. Essa é a percepção do professor de economia da FGV, Nelson Marconi.

Marconi reconhece, que, sozinha, a política monetária não conseguirá mais estimular o crescimento. Mas concorda que redução dos juros básicos, somada a um ambiente de melhora fiscal estabelecido a partir de uma reforma previdenciária, convencerá o mercado a trabalhar com juros mais baixos, o que ajudaria a destravar o crescimento.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.