PIB chega lá em 2019?

A incerteza sobre o quadro eleitoral deve limitar uma expansão maior da atividade

Fábio Alves, O Estado de S.Paulo

18 Abril 2018 | 04h00

Um movimento interessante vem acontecendo nos últimos dias: enquanto cortam as projeções de crescimento da economia em 2018, vários analistas estão melhorando a estimativa do Produto Interno Bruto (PIB) em 2019, com base numa visão de que uma maior aceleração da retomada econômica está apenas sendo adiada deste ano para o ano que vem.

A grande dúvida dessa aposta, todavia, está na premissa de que o vencedor da eleição presidencial deste ano será um candidato de centro que abraçará de imediato a aprovação de reformas essenciais para o controle dos gastos públicos, como a da Previdência.

O problema é que, na fotografia de hoje, candidatos pró-reformas estão na rabeira das pesquisas de intenção de voto. Mais ainda: a candidatura do melhor colocado de partidos do centro, o ex-governador Geraldo Alckmin, até o momento não conseguiu decolar e inspirar confiança sobre sua viabilidade no mercado financeiro.

Da mesma forma que estão sendo forçados neste momento a rever o otimismo sobre o crescimento do PIB em 2018, em razão dos fracos números da indústria, do comércio varejista e do setor de serviços, os analistas poderão ter que enfrentar uma dura realidade logo mais à frente em relação às projeções para 2019.

Isso porque, à medida que as pesquisas de intenção de voto mostrem que candidatos de esquerda ou de extrema direita estão ganhando mais terreno para disputar o segundo turno do pleito, a confiança empresarial e dos consumidores poderá piorar e asfixiar a aceleração do PIB projetada para 2019. 

Na segunda-feira, após o Banco Central ter divulgado seu índice de atividade econômica (IBC-Br) de fevereiro, foi deflagrada uma nova rodada de revisão para baixo do PIB brasileiro neste ano. O IBC-Br avançou apenas 0,09% em fevereiro. Em relação a igual mês de 2017, a alta foi de 0,66%. Mas em janeiro, quando comparado com janeiro de 2017, essa alta havia sido de 2,95%. Ou seja, a economia perdeu fôlego no início deste ano.

Na mais recente pesquisa semanal Focus, do BC, a mediana das estimativas do PIB de 2018 caiu pela terceira semana consecutiva, apontando agora um crescimento de 2,76%. Para 2019, essa previsão segue inalterada há 11 semanas em 3,0% de expansão.

Em nota a clientes, os economistas do banco J.P. Morgan revisaram sua projeção para o PIB do primeiro trimestre deste ano de um crescimento de 0,8% para 0,6% ante o quarto trimestre de 2017. Com isso, o banco americano cortou a estimativa de expansão do PIB neste ano de 3,0% para 2,7%, mas elevou a previsão para 2019, de uma expansão de 2,5% para 3,1%. “Vale a pena destacar que o cenário de 2019 traz um nível elevado de incerteza sem precedente dada a sua dependência do desfecho para a eleição, que, até o momento, continua bem aberta”, dizem os economistas do J.P. Morgan.

Também em nota a clientes, os economistas do banco Fibra reduziram a previsão de crescimento do PIB neste ano de 4,1% para 2,8%, com o número para o primeiro trimestre revisado de alta de 0,9% para 0,4% por conta de um “desempenho aquém do esperado de um conjunto de indicadores econômicos”. Para 2019, o Fibra melhorou sua estimativa de 3,5% para 4,3%. Mas eles também citam um fator “exógeno” para o retardamento da melhora na economia neste ano.

“A incerteza eleitoral tem afetado, pelo menos parcialmente, as decisões de investimento, mesmo em um cenário de taxa de juros real historicamente bastante baixa”, escreveram os economistas do Fibra. “A falta de previsibilidade e o fato de os principais pré-candidatos não serem claros em suas agendas, por exemplo, em como vão endereçar o problema estrutural do déficit da previdência e o grave problema fiscal brasileiro (herança do governo anterior) são, em nossa opinião, entraves para recuperação mais acelerada do investimento.”

Se, de um lado, o agressivo corte de juros pelo BC, com mais uma redução da taxa Selic em maio, para 6,25%, e a inflação mais baixa do que o esperado devem contribuir para o consumo e, por tabela, para a retomada da economia, de outro, a incerteza sobre o quadro eleitoral deve limitar uma expansão maior da atividade. E se o desfecho da eleição presidencial for desfavorável às reformas, as projeções atuais para o crescimento do PIB em 2019 estariam demasiadamente otimistas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.