Felipe Rau/Estadão - 26/3/2019
Mutirão de emprego no centro de São Paulo promovido por sindicatos. Felipe Rau/Estadão - 26/3/2019

PIB cresce 0,4% no segundo trimestre e fica acima do esperado

Em relação ao mesmo período de 2018, atividade econômica do País teve avanço de 1%, informou nesta quinta-feira o IBGE; resultado foi puxado pela alta de 0,7% na indústria, de 0,3% no setor de serviços e de 0,3% no consumo das famílias

Vinicius Neder, Daniela Amorim e Mariana Durão, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2019 | 09h07

RIO - O PIB Brasil 2019 registrou, no segundo trimestre, crescimento de 0,4%, resultado melhor que o esperado pelos analistas - alta de 0,2% em relação ao primeiro trimestre, segundo pesquisa do Projeções Broacast.

Os dados foram divulgados na manhã desta quinta-feira, 29, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Na comparação com o segundo trimestre de 2018, o crescimento foi de 1%. O instituto também revisou o resultado da economia no primeiro trimestre, de -0,2% para -0,1%. O PIB é o valor de todos os produtos e serviços produzido no País.

O desempenho do segundo trimestre foi puxado pela alta de 0,7% na indústria, de 0,3% no setor de serviços e de 0,3% no consumo das famílias. A taxa de investimentos também apresentou um bom resultado, com avanço de 3,2%. O que segurou o PIB, por outro lado, foi o consumo do governo, que caiu 1%, e também o setor agropecuário, que recuou 0,4%.

Chama a atenção nos resultados do segundo trimestre o da construção, que registrou crescimento de 2% em relação ao segundo trimestre do ano passado. É a primeira alta depois de 20 quedas consecutivas nessa base de comparação - o último resultado positivo havia sido no primeiro trimestre de 2014, com avanço de 8,2% em relação a igual período de 2013.

Mesmo com esse resultado acima do esperado, a economia brasileira ainda pode ser considerada dentro de um quadro de estagnação, e está muito longe de recuperar o que perdeu durante os anos da recessão. De acordo com o IBGE, a economia ainda está 4,8% abaixo do pico alcançado no primeiro trimestre de 2014.

"É claro que a economia vem se recuperando, mas ainda não recuperou tudo. Está recuperando em relação ao ponto mais baixo que a gente teve, mas ainda não chegou aos mesmos patamares de 2014, que seria o pré-crise", disse a coordenadora de contas nacionais do instituto, Rebeca Palis.

O movimento é de fato gradual. O PIB tinha voltado ao patamar de 2010, depois atingiu o patamar de 2011 e, segundo Rebeca, está agora no patamar de 2012.

A avaliação dos economista é que essa  lentidão na recuperação da economia após a saída da recessão, no primeiro trimestre de 2017, é alimentada pela persistência do desemprego elevado, pela perda de produtividade e pelas incertezas políticas que travam o investimento.

Muitos analistas, de diferentes linhas teóricas, veem na falta de demanda, especialmente por causa do nível ainda baixo dos investimentos, a principal explicação para a estagnação no curto prazo. A continuidade nos cortes da taxa básica de juros (Selic, hoje em 6,0% ao ano) é defendida por muitos, mas há divergência sobre o uso ou não de outras medidas de estímulo.

Economistas como Marcos Lisboa, presidente do Insper, e o ex-diretor do Banco Central Alexandre Schwartsman não veem espaço para estímulos fiscais. O economista Eduardo Gianetti defendeu, em entrevista ao Estado, o uso dos recursos levantados pela venda da carteira de participações societárias do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para recuperar investimentos públicos. Para o economista sênior da LCA Consultores Bráulio Borges, sem estímulos fiscais com foco nos investimentos, a economia seguirá crescendo pouco.

A lentidão da recuperação se deve também ao fato de que estudos indicam que reformas estruturais levam até dez anos para consolidar seus efeitos na economia, disse ao Estado, no último domingo, o economista-chefe do Banco Votorantim, Roberto Padovani. Além disso, a retomada atual não pode ser comparada com outras, dado o grau de devastação que a recessão deixou, atingindo em cheio setores como a construção pesada e petróleo e gás.

Na visão de Lisboa, que foi secretário de Política Econômica do antigo Ministério da Fazenda, de 2003 a 2005, a lentidão na aprovação de reformas estruturais é o principal motivo para a paralisia no crescimento econômico. Nesse ritmo, o Brasil “não vai voltar a crescer 3% de forma sustentável nos próximos anos”, disse Lisboa, em entrevista ao Estado na terça-feira, dia 27.

Para piorar, uma luz amarela foi acesa na economia internacional, após os mercados globais reagirem negativamente a riscos de recessão mundial no último dia 14, na esteira da disputa comercial entre China e Estados Unidos. Isso se soma à crise econômica na Argentina, que vem sendo um peso na economia brasileira desde o segundo semestre de 2018 e tende a se agravar em meio às eleições presidenciais de outubro.

Na visão da economista Silvia Matos, coordenadora técnica do Boletim Macro Ibre, da FGV, o risco de recessão global é preocupante para o Brasil porque pode atingir em cheio a indústria de transformação e os investimentos. A indústria de transformação já era afetada pela redução de vendas para a Argentina, seu principal mercado, mas, com um “choque agregado”, pode haver aumento do prêmio de risco do Brasil e alta do dólar, o que é “péssimo para o Brasil no sentido geral”, disse Silvia ao Estado no último dia 15.

Outro novo risco no radar é são os efeitos da crise ambiental no desempenho do agronegócio. Uma das válvulas de escape nesse período de estagnação econômica, o agronegócio agora se depara com ameaças às exportações. O economista José Roberto Mendonça de Barros disse ao Estado em entrevista publicada segunda-feira, dia 26, que a ameaça é “gigante”, porque o risco de boicote internacional ao agronegócio brasileiro “não é invenção”. / COLABOROU THAÍS BARCELLOS

 

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'Políticas de estímulo à demanda foram demonizadas'

Bráulio Borges avalia que excesso de rigor do Banco Central é um dos motivos para estagnação da economia

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2019 | 11h06

RIO - O economista sênior da LCA Consultores Bráulio Borges considera que o País ainda vive um quadro de estagnação, mesmo com a alta de 0,4% do PIB no segundo trimestre, e vê a fraqueza na demanda, provocada, principalmente, pelo excesso de rigor do Banco Central (BC) ao evitar cortar mais a taxa básica de juros (Selic, hoje em 6% ao ano), como maior motivo para esse quadro.

Segundo ele, o ritmo de crescimento do segundo trimestre, se anualizado, daria algo como 1,5% ao ano, ainda muito baixo para "consumir o excesso de ociosidade da economia". O prolongamento dessa situação, para o economista, pode afetar até mesmo o potencial de crescimento do País. A saída seria, além de baixar os juros mais rapidamente, ampliar os gastos públicos com investimentos, mas Borges vê pouca chance de isso acontecer.

O que explica a estagnação da economia brasileira, falta de demanda ou restrição de oferta?

Temos que voltar um pouco atrás. O Brasil viveu uma espécie de bolha entre 2004 e 2012 ou 2013. Essa bolha resultava de uma bolha lá fora, que estourou em 2008 e 2009, mas o Brasil esticou um pouco a corda, alimentando a bolha internamente com a política fiscal, que ficou expansionista. Isso acumulou uma série de desequilíbrios. Chegou em 2014 e não deu mais para sustentar isso. Aí veio todo o freio de arrumação a partir de 2015, para corrigir esses desequilíbrios. A opção naquele momento foi por fazer uma coisa mais parecida com um choque, tentar corrigir mais rápido a questão fiscal, na política monetária, fazer a inflação voltar para a meta o mais rápido o possível. Esse choque gerou resultado rapidamente. A economia caiu muito em 2015 e 2016, mas já em 2016 a inflação já estava alinhada à meta, o fiscal melhorou um pouco em 2015, mas piorou um pouco em 2016, e o teto de gastos pelo menos deu horizonte um pouco mais longo de correção da solvência fiscal. Chegou então 2017, e a economia já estava mais bem ajustada, principalmente em termos de inflação e nas contas externas.

Mas por que a recuperação está tão lenta desde então?

Ninguém tinha ilusão de que seria rápido. As recuperações que vêm depois de estouros de bolhas trazem o fenômeno que a gente chama de “recessões de balanços”. Empresas que sobreinvestiram no “boom” demoram um tempo para digerir, muita gente quebra e o setor privado vai se desalavancando (reduzindo dívidas). Tudo isso são explicações levantadas hoje, não lá em 2016 ou 2017, para a retomada atipicamente lenta e frustrante. Não é que todo mundo imaginava exatamente essa trajetória do PIB (Produto Interno Bruto) há dois ou três anos.

O que explica essa frustração?

Aconteceram algumas coisas inesperadas, como colapso da Argentina, alguns choques políticos domésticos, Brumadinho (rompimento de barragem da mineradora Vale, em janeiro, na região metropolitana de Belo Horizonte, que levou à paralisação de várias minas em Minas Gerais), mas tudo isso pressupõe que a política econômica aqui dentro, principalmente a monetária, dado que a fiscal está mesmo sem muita margem, não teria margem de manobra. E o fato de observarmos, por três anos consecutivos, incluindo 2019, uma inflação muito abaixo de meta é um indício claro de que a resposta de política monetária, que é a que tinha margem de manobra, foi inadequada. Isso é um ingrediente importante, inclusive para responder aos choques do meio do caminho. Veio o choque argentino, a partir de meados do ano passado, a resposta da política monetária aqui dentro deveria ser uma flexibilização adicional da política monetária (mais cortes na taxa básica de juros). A política monetária no Brasil foi muito inadequada nos últimos três anos, em particular no último um ano ou um ano e meio.

O BC exagerou na dose?

O BC tem um mandato muito claro, que é entregar a inflação na meta, goste-se da meta ou não. Muita gente argumenta que é uma inflação baixa, de Primeiro Mundo, mas não é a meta de inflação (4,25% para 2019). Se querem uma inflação de 3,0%, então primeiro mudem a meta, seguindo toda a institucionalidade do regime de metas. Uma inflação atipicamente baixa no contexto atual do Brasil é o outro lado da moeda de uma economia deprimida. As recessões trazem o risco negativo de “histerese”. Quando se entra numa recessão profunda como foi a brasileira e fica lá no fundo do poço por muito tempo, isso começa a afetar as nossas perspectivas de médio e longo prazo. “Histerese” é o ciclo afetando a tendência.

Se os desequilíbrios começaram a ser corrigidos após 2015, o maior problema da estagnação é uma depressão de demanda?

No curto prazo, o problema é falta de demanda. A restrição de oferta pode surgir, sim, daqui a três ou quatro anos, se não for feita nenhuma reforma e a economia recuperar, consumindo o excesso de ociosidade. Como a questão da oferta demora para maturar, não se pode esperar três ou quatro anos para fazer as reformas. É preciso ir fazendo as reformas agora, paralelamente a uma política de demanda de curto prazo, pavimentando o caminho para um crescimento mais alto e sustentável.

Alguns economistas sugerem fazer as reformas e esperar, não?

O problema de fazer só as reformas é ignorar o fato de que esse curto prazo muito ruim pode atuar como uma contrarreforma. Pode reduzir o efeito que se esperaria, por exemplo, da abertura comercial, que tende a elevar a produtividade da economia.

Qual a saída então?

A política monetária tem um espaço enorme. Temo se o Banco Central está disposto a fazer isso (cortar juros) na necessidade que seria necessária. Em paralelo a isso, o estímulo com a liberação adicional do FGTS é correto, mas, infelizmente, demos azar. Nas nossas contas, a crise da Argentina vai ter uma piora adicional por conta das eleições (em outubro), o que praticamente neutraliza o impacto positivo que a liberação do FGTS teria na economia. O FGTS só vai evitar que a economia brasileira piore ainda mais. Precisa de outras coisas. Aí surge a discussão da política fiscal. Cada vez mais gente está defendendo algum tipo de estímulo fiscal, desde que seja inteligente, focado em investimento. Para viabilizar um investimento adicional, necessariamente isso passa pela discussão sobre a flexibilização do teto de gastos. Isso traz muita polêmica. Muita gente acha que estímulo fiscal pode ser contraproducente. Acho que o pessoal demoniza as políticas de estímulo à demanda que foram colocadas em prática em 2012 e 2013, mas ignoram que lá a economia estava além do pleno emprego de sua capacidade. Era uma economia que não precisava desses estímulos expansionistas e que os recebeu mesmo assim. Hoje, a situação da economia brasileira é muito aquém do pleno emprego das capacidades, então, não tem nada mais ortodoxo do que políticas de estímulo à demanda.

Há clima político para isso?

Acho pouquíssimo provável. A tendência é crescimento lento e inflação abaixo da meta.

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Para analistas, resultado do PIB traz mais otimismo para a economia

Economista diz que desempenho no segundo trimestre deve motivar alterações, para cima, nas expectativas deste ano

Thaís Barcellos e Altamiro Silva Junior, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2019 | 11h13

O crescimento de 0,4% do Produto Interno Bruto (PIB) no segundo trimestre de 2019, número acima do esperado pelo mercado (0,2%), faz economistas começarem a olhar com um pouco mais de otimismo para a economia daqui para a frente. Para o estrategista-chefe do Banco Mizuho, Luciano Rostagno, o resultado é um dado encorajador e que traz boas notícias, depois de um longo período de decepções com a atividade, embora a retomada ainda seja gradual.

Segundo o economista, foi um destaque dentro desse resultado a recuperação da indústria (0,7%) e dos investimentos (3,2%), depois de dois trimestres negativos. Esse resultado melhor do que o esperado, conforme Rostagno, deve estancar as revisões para baixo do PIB do ano e pode até motivar elevações nas expectativas. Atualmente, as previsões dos analistas ouvidos pelo Banco Central no boletim Focus são de alta de 0,81% para este ano. A projeção do Mizuho é de alta de 0,9% para o PIB do ano, mas o economista admite que o dado do segundo trimestre impõe viés de alta, para algo em torno de 1,0%.

O próprio secretário do Tesouro Nacional, Mansueto Almeida, disse que o resultado foi melhor que o previsto. "O resultado foi o dobro do que a maioria dos analistas esperava", avaliou. "Não dá para soltar fogos com o resultado do PIB de um semestre, mas o resultado é um certo alívio."

Alexandre Ázara, economista-chefe e sócio do Mauá Capital, diz que o resultado do segundo trimestre quebra, de certa forma, a dinâmica pessimista embutida nas expectativas em relação ao crescimento da economia também em 2020. Para ele, a despeito da crise econômica internacional, o PIB no próximo ano deverá crescer algo entre 2,0% e 2,5%. Isso porque, entre outras coisas, o carregamento estatístico de uma expansão de 1,1% este ano - esta é a projeção da Mauá Capital - será positivo.

Segundo ele, o pessimismo em relação ao PIB foi barrado pelo crescimento do segundo trimestre. Para o terceiro trimestre, a Mauá projeta um crescimento de 0,3% a 0,4% apesar de ainda haver muita incerteza pelo fato de os dados estarem começando a sair agora. 

Para a consultoria Capital Economics, os dados do segundo trimestre surpreenderam e mostram que a piora da atividade observada nos primeiros três meses do ano (quando houve queda de 0,1%) foi mais um fator passageiro do que o início de uma piora mais acentuada da economia. O economista-chefe para mercados emergentes da Capital Economics, William Jackson, porém, pondera que o crescimento da economia brasileira ainda é fraco, principalmente se comparado a outros emergentes, mas deve ter algum fortalecimento nos próximos períodos.

Indicadores de confiança apontam para uma melhora neste terceiro trimestre, observa Jackson. O ritmo, porém, vai seguir moderado e apoiar cortes de juros pelo BC. A Capital Economics projeta expansão de 0,8% do PIB neste ano e de 2% em 2020.

A avaliação da consultoria inglesa Pantheon Macroeconomics é de que os bons números do segundo trimestre mostram que a economia brasileira está resistente, apesar dos muitos choques que teve no período. "Olhando para a frente, indicadores antecedentes, incluindo os de consumidores e empresários, sugerem que a economia deve ir relativamente bem no fim deste terceiro trimestre e no quarto período de 2019", avalia o economista sênior para América Latina da Pantheon, Andres Abadia.

A demanda doméstica tem se mostrado resistente, apoiada pela baixa inflação e juros em mínimas históricas. A liberação de recursos do FGTS deve ser um fator adicional positivo para a atividade do período, observa ele. "A retomada, contudo, será limitada pele ambiente global crescentemente desafiador."

Abadia destaca que um dos pontos positivos do PIB é o consumo das famílias, em alta de 0,3%. Outro destaque foi a expansão de 3,2% da formação bruta de capital fixo. 

"São bons números", diz Abadia sobre os dados do segundo trimestre. Para o economista, os dados são uma evidência de que a atividade conseguiu superar eventos negativos na primeira metade do ano, que inclui a tragédia com a barragem da Vale em Brumadinho (MG) e, sobretudo no segundo trimestre, um cenário externo mais adverso e a piora da situação na Argentina.

Rostagno, da Mizuho, avalia que o cenário externo deve continuar sem ajudar o PIB brasileiro, como ocorreu no segundo trimestre, mas a demanda doméstica deve mais que compensar esse efeito negativo. No segundo trimestre, as exportações caíram 1,6%, enquanto as importações cresceram 1,0%, ambos na margem.

Em relação à política monetária, o economista do Mizuho acredita que o PIB mais forte e alta recente do dólar não são suficientes para mudar a aposta de queda dos juros de 0,50 ponto porcentual na reunião de setembro, já que o hiato do produto ainda está muito aberto e o cenário de inflação, muito confortável. 

Contudo, ele diz que esses eventos podem limitar a expectativa de Selic abaixo de 5,0%. A projeção do economista é de redução de 0,50 ponto em setembro e mais 0,25 ponto em outubro, levando a Selic para 5,25%. Segundo ele, o dado do PIB do terceiro trimestre deve definir se o juro cai para 5,0%, mas como ele está otimista com o desempenho no período de julho a setembro, mantém 5,25%.

Rostagno ainda diz que os ativos brasileiros estão de certa forma blindados da deterioração na Argentina, devido ao baixo déficit em conta corrente, o nível robusto de reservas e à baixa exposição de ativos atrelados ao dólar. "Algum impacto de realocação de portfólios dos investidores estrangeiros pode acontecer, mas vejo impacto moderado, não vejo cenário de contágio", avalia.

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Não dá para soltar fogos com o PIB, mas é um certo alívio, diz secretário do Tesouro

Mansueto Almeida defendeu a reforma tributária como uma das medidas para estimular o crescimento do País

Lorenna Rodrigues e Eduardo Rodrigues, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2019 | 12h25

BRASÍLIA - O secretário do Tesouro, Mansueto Almeida, disse que o resultado do Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre, com alta de 0,4% em relação aos primeiros três meses do ano, foi melhor que o esperado. "O resultado foi o dobro do que a maioria dos analistas esperava", avaliou. "Não dá para soltar fogos com o resultado do PIB de um semestre, mas o resultado é um certo alívio."

PIB Brasil 2019

Mansueto lembrou que o País passou por dois anos seguidos de queda de PIB. "O Brasil está em uma recuperação muito lenta, mas a magnitude da recessão pela qual passamos não tem paralelo na nossa história", repetiu.

O secretário defendeu a reforma tributária e outras reformas como medidas para estimular o crescimento do País. "O resultado melhor de PIB deixa todos nós mais otimistas, tem que fazer dever de casa", acrescentou.

Mansueto destacou que a taxa de juros está no menor patamar da história (a Selic está em 6% ao ano), com grande impacto na dívida brasileira, que em sua maior parte é de curto prazo. "Vamos ter um ganho enorme na conta de juros neste ano. Só aí teremos um ganho fiscal importante", destacou.

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Estratégia de crescimento com responsabilidade fiscal é acertada, diz ministério sobre PIB

Mesmo com queda de 1% no consumo do governo, avaliação da Secretaria de Política Econômica do Ministério da Economia sobre o resultado do PIB no segundo trimestre foi positiva

Adriana Fernandes e Sandra Manfrini, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2019 | 12h05

BRASÍLIA - Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Economia avaliou que a "estratégia adotada pelo governo, de crescimento com responsabilidade fiscal, vai se mostrando acertada". A avaliação foi feita em nota divulgada para comentar o resultado do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro no segundo trimestre de 2019, que teve alta de 0,40% na comparação com o trimestre anterior, como informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), nesta quinta-feira, 29.

"Apesar do forte ajuste nas contas públicas, representada por uma queda de 1% no consumo do governo, o crescimento no trimestre foi positivo e acima das projeções de mercado", avalia a secretaria, que é órgão responsável pela análise das contas nacionais e das projeções de crescimento do PIB que embasam o orçamento e as políticas de governo.

Segundo a SPE, o cenário ainda é desafiador. "O ajuste fiscal em curso, a baixa produtividade da economia brasileira e a incerteza da conjuntura internacional sugerem ainda um longo caminho a percorrer", diz a nota. Apesar desses desafios, a avaliação é que a conjuntura brasileira atual é mais favorável do que era há alguns meses.

A nota divulgada pela secretaria destaca que o resultado de queda "expressiva" de 1% do consumo do governo, no segundo trimestre, "reflete a adoção do regime fiscal de contenção de gastos necessária para conter o crescimento da dívida pública resultante da expansão de gastos de anos anteriores".

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'Fundo do poço pode ter ficado para trás', diz Mendonça de Barros

Para o ex-presidente do BNDES, apesar de resultados do PIB do segundo trimestre terem sido melhores do que o esperado, recuperação do País ainda deve ser lenta

Entrevista com

Luiz Carlos Mendonça de Barros, economista

Douglas Gavras , O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2019 | 11h53

A economia brasileira parece ter batido no fundo do poço e agora está voltando - só que em marcha lenta, avalia o economista Luiz Carlos Mendonça de Barros. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados nesta quinta-feira, 29, apontam que o Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre cresceu 0,4% em relação ao trimestre anterior. 

Para o ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e ex-ministro das Comunicações, o País ainda sofre de um colapso de demanda, que adia investimentos e desacelera o ritmo de recuperação. A seguir, trechos de sua entrevista ao Estado:

O resultado do PIB do segundo trimestre veio acima do esperado pelos analistas. Que sinais a economia está dando?

Quando o resultado vem melhor do que aquilo que o mercado esperava, a primeira avaliação é de que a economia bateu no fundo do poço e agora está voltando, em marcha lenta. Antes da divulgação do PIB do segundo trimestre, alguns analistas já previam um crescimento de 0,8% ou de 0,6% para o ano - e essa perspectiva deve melhorar agora. Eu sou um pouco mais otimista, acredito que o País deve crescer 1% este ano. 

Ainda assim, não seria um crescimento baixo, se considerada a queda dos anos recentes?

Evidentemente, estamos falando de um crescimento baixo. Embora o IBGE tenha informado esta semana que a população brasileira está crescendo 0,8% ao ano. Se a expectativa de crescer 1% se confirmar, isso quer dizer que a economia vai crescer mais do que a população - o que é um resultado importante.

O Brasil escapou de mais um trimestre recessivo.

Alguns itens tiveram um desempenho bem acima do esperado. Na Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF, a taxa de  investimentos  na economia), a alta foi de 3,2%. No comércio e no consumo, vieram números mais sólidos. Esses dados são importantes, porque interrompem um movimento contínuo para baixo que nos acostumamos a ver nos últimos trimestres. O País escapou de uma recessão técnica (quando o resultado é negativo por dois trimestres consecutivos) e estava melhor no segundo trimestre do que os analisas esperavam, mas isso não muda o quadro geral de crescimento baixo.

Que outros resultados merecem destaque?

A construção civil trouxe dados importantes e que são representativos da formação bruta de capital. Já havia sinais setoriais, mas ninguém esperava que isso se refletisse no agregado do PIB. E esse é um setor fundamental na criação de postos de trabalho de baixa qualificação. Como a construção é um setor que perdeu muito na crise, agora parece ter um movimento de alguns investidores mais ousados que tentam tomar a dianteira dos investimentos antes da recuperação plena do setor.

O resultado positivo pode animar os investidores?

Tem o aspecto psicológico importante, de não ter tido uma queda. Os analistas já viram que o pior parece ter passado. Mas ninguém vai sair correndo para fazer investimentos, porque a demanda está muito baixa e a capacidade ociosa na indústria é muito alta ainda. O investidor sente que o quadro está melhor do que imaginava, mas ainda não tem motivos para sair por aí investindo.  

O agravamento da crise argentina pode causar um impacto ainda maior na indústria brasileira e nas exportações?

Acredito que a indústria já sentiu o que tinha de sentir. Mas é preciso perceber que o Brasil está umbilicalmente ligado à China, é preciso ficar atento aos desdobramentos da guerra comercial entre chineses e americanos. E há também pesquisas recentes que mostram uma perda de popularidade do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A Argentina sempre nos impacta, mas são os movimentos desses dois países que precisam ficar no radar do governo.

Por que a recuperação está demorando tanto?

Teve um colapso da economia, pelo exagero do crescimento. Isso é um quadro que os economistas têm dificuldade de lidar, porque acontece poucas vezes na história. Mesmo uma economia como a dos Estados Unidos, com a crise de 2008, levou tempo para se recuperar. A crise do Brasil tem a vantagem de não ter se tornado uma crise bancária, mas temos uma situação de colapso da demanda. 

O governo tem conseguido lidar bem com os desafios da economia?

Caímos em uma armadilha e a recuperação é muito difícil. Alguns economistas insistem na tese errada de que a recuperação é lenta por estarmos atrasados na agenda de reformas. Não é isso. A demanda está muito fraca e o setor que responde mais rápido é o investimento privado, que demora a vir. Uma solução para isso seria fomentar o processo de privatizações, mas vai demorar um ou dois anos para se transformar esses planos em uma ponte para atrair investimentos privados. Infelizmente, essa análise é difícil de entrar na cabeça da turma do (ministro da Economia) Paulo Guedes.  

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Análise: Economia deve sustentar ritmo moderado de expansão nos próximos trimestres

Redução dos riscos de insolvência fiscal com o encaminhamento da reforma da Previdência e os efeitos da política monetária estimulativa devem se traduzir em expansão um pouco mais robusta

Alessandra Ribeiro*, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2019 | 16h43

Os números do PIB do segundo trimestre mostraram-se um pouco melhor do que o esperado, evidenciando que a economia brasileira sustenta ritmo bastante gradual de retomada. Com o resultado, afastou-se, portanto, o temor de nova fase de retração da atividade econômica na sequência da queda registrada no primeiro trimestre.

No que diz respeito ao PIB industrial, os desempenhos da indústria de transformação e da construção civil foram os principais responsáveis, pelo lado da oferta, pelo resultado melhor em relação ao esperado. Já pelo lado da demanda, a surpresa positiva concentrou-se nos investimentos. O comportamento mais favorável dessas rubricas é especialmente importante, após dois trimestres seguidos de queda.

Para frente, a expectativa é de sustentação de ritmo pouco superior ao observado no primeiro semestre (média trimestral de 0,2%). A redução dos riscos de insolvência fiscal com o bom encaminhamento da reforma da Previdência e os efeitos da política monetária estimulativa devem se traduzir em expansão um pouco mais robusta, ainda que o crescimento do ano deva ficar abaixo de 1,0%.

Os riscos para essa trajetória encontram-se no contexto externo e no ambiente político doméstico. O quadro internacional marcado por desaceleração mais significativa das principais economias do globo e o ambiente de elevada aversão ao risco afetam a economia brasileira por canais diversos, como do comércio e financeiro. No âmbito doméstico, o risco advém do Executivo, ao contribuir para manutenção de quadro de incerteza elevada que afeta de maneira importante decisões de consumo e, principalmente, de investimento, como bem provam os modelos econométricos.

Em suma, além do andamento da boa agenda econômica, é importante o governo trabalhar para reduzir as incertezas, o que certamente contribuirá para a sustentação do ritmo moderado de crescimento nos próximos trimestres.

*Diretora de Macroeconomia e Análise Setorial da Tendências Consultoria

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'Demanda ainda não se recuperou, e isso trava o crescimento'

Para ex-diretor do BC, mercado interno ainda fraco, especialmente por causa dos investimentos deprimidos, é principal causa da estagnação da economia desde a saída da recessão

Entrevista com

Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2019 | 14h30

RIO - O consultor Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central (BC) e ex-economista-chefe do banco Santander, vê falta de demanda, especialmente por causa dos investimentos deprimidos, como principal causa da estagnação da economia desde a saída da recessão, mesmo após o crescimento de 0,4% do PIB no segundo trimestre. Para ele, os estímulos à demanda devem vir apenas da redução da taxa básica de juros (Selic, hoje em 6% ao ano) pelo Banco Central (BC), pois não há espaço para estímulos fiscais, nem mesmo com foco em investimentos públicos.

O que explica esse crescimento lento da economia brasileira: falta de demanda ou restrição de oferta?

Não me parece ser um problema ligado à questão da oferta. Embora no fim de 2013 e em 2014 fosse muito claro que o crescimento baixo era muito resultado de restrições de oferta, essas restrições não estão presentes hoje. A taxa de desemprego ainda está muito elevada e o nível de utilização da capacidade no setor manufatureiro ainda é muito baixo. A estagnação é porque a demanda interna não se recuperou. E a questão da demanda interna está fundamentalmente ligada ao investimento. Não é que o consumo esteja extraordinário, não está e poderia estar mais forte, mas, bem ou mal, está se recuperando. O problema está muito ligado no investimento.

Qual o principal motivo para os investimentos estarem deprimidos?

É um conjunto de fatores. O principal deles é uma dificuldade de olhar o horizonte além de dois ou três anos. Era muito claro que a gente tinha um problema fiscal, que se aguçou em 2014, com ressurgimento de déficits primários muito grandes e um orçamento extraordinariamente rígido. Ficou claro que, para endereçar esses problemas, seria preciso um conjunto de reformas, o qual a gente ameaçou fazer em 2017, foi torpedeado no meio do caminho, e retomamos agora o fio da meada, no segundo trimestre de 2019. A dificuldade que existia no governo Dilma, no governo Temer, e só agora superada, mais por iniciativa do Congresso do que do governo Bolsonaro, é o que está segurando o investimento.

A incerteza em relação à agenda de reformas é o principal peso?

A incerteza quanto à possibilidade de aprovar as reformas. O diagnóstico está claro. O problema fiscal requer reformas profundas e durante um bom tempo não tivemos governos que fossem capazes de levar adianta essa agenda de reformas.

Há outros fatores a segurar os investimentos?

O fato de existir capacidade ociosa sobrando também não ajuda. Nenhuma empresa tem uma pressão enorme para ampliar capacidade. Além disso, a incapacidade que o mundo político teve até agora, ou seja, levou cinco anos, para se mobilizar e conseguir entregar as reformas que o País precisa.

Tem algo a fazer além de seguir com a agenda de reformas?

Tem o óbvio, que é o Banco Central baixar juros. Existe um espaço, exatamente porque o País vem crescendo pouco. Temos uma situação em que o desemprego alto e o excesso de capacidade ainda provocam pressões para baixo na taxa de inflação. Estamos nos encaminhando para uma inflação na casa de 3,6% neste ano, e com pressão de preços administrados e o dólar encarecendo. Tem espaço para o BC reduzir adicionalmente a taxa de juros. O consenso hoje é que o BC pode trazer a Selic para 5%. Se isso não reativar a economia, pode baixar a Selic para 4,0%, para 3,0%, para 2,0%. Hoje, tem 6 pontos porcentuais da Selic para cortar.

O BC errou ao demorar a cortar mais os juros?

O cenário para o BC foi mais complicado. Em meados do ano passado, mais ou menos quando o BC parou de cortar juros, logo de cara ele levou um choque de 1% de inflação na testa (em junho de 2018, por causa da greve dos caminhoneiros). A minha visão à época era de que ia ser transitório, mas o BC não pode contar com uma visão. Nesse meio tempo, o dólar também foi para acima de R$ 4. Que ele tenha demorado um pouco mais, ele corta mais (agora) também.

Há espaço para outros estímulos à demanda?

Se tem a possibilidade para trazer a taxa de juros para baixo, por que não? Qualquer coisa que se conseguir a mais do ponto de vista de demanda por política fiscal (mais gastos públicos) ou parafiscal (expansão de crédito dos bancos públicos) é um pouco menos de espaço para cortar juros. A vida inteira a gente reclamou de juros altos, por que vai perder a oportunidade de cortar mais o juro agora? Parece um contrassenso. Se não tiver nenhum estímulo fiscal, talvez o BC consiga trazer a taxa de juros para baixo de 5,0% e, inclusive, mantê-la mais baixa por mais tempo.

A ação na demanda via redução de juros muda a necessidade de continuar com as reformas para retirar restrições de oferta?

Hoje, não é uma restrição, mas a gente espera que em algum momento seja, que a economia volte a crescer, que a taxa de desemprego volte a cair. O ideal é que consiga, com as reformas, melhorar o PIB potencial (capacidade de a economia crescer sem gerar desequilíbrios). Se formos começar a nos preocupar com medidas que elevem o PIB potencial quando se está mais próximo do potencial, é um problema. É sempre bom consertar o telhado quando está fazendo sol. Não está com muita cara de sol, mas, enfim, consertar o telhado quando não há problemas no telhado. Se for deixar para corrigir lá na frente, corremos o risco de bater muito cedo numa restrição de oferta.

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Setor imobiliário puxou o crescimento da construção no segundo trimestre

Alta de 2,7% nas atividades imobiliárias ante 2018 confirmam a construção puxada pelo setor imobiliário, diz analista

Daniela Amorim, Mariana Durão e Vinicius Neder, O Estado de S. Paulo

29 de agosto de 2019 | 12h05

RIO - A construção foi um dos setores que mais surpreenderam e ajudaram no resultado de 0,4% do PIB no segundo trimestre. Segundo os dados do IBGE, o setor registrou um crescimento de 1,9% no segundo trimestre, na comparação com o primeiro, e de 2% em relação ao mesmo período do ano passado. E, segundo a coordenadora de contas nacionais do IBGE, Rebeca Palis, o desempenho foi puxado pelo segmento de imóveis, e não pelo de infraestrutura.  

“A parte de infraestrutura continua bem baixa. Não tem muito recurso público. Mas a parte de construção de imóveis ajudou um pouco. A alta é puxada não pela parte da infraestrutura, mas pela parte de imóveis”, disse Rebeca. 

Segundo Claudia Dionísio, gerente na coordenação de contas nacionais do IBGE, a base de comparação baixa também ajuda a explicar o avanço na construção, assim como a melhora na confiança empresarial. A alta de 2,7% nas atividades imobiliárias ante o segundo trimestre de 2018 confirmam a construção puxada pelo setor imobiliário, apontou Claudia.

++Excesso de rigor do BC é um dos motivos para estagnação, diz economista

“O crédito, a renda melhorando um pouco, o ambiente e o déficit habitacional que a gente sempre tem também colaboram (para a alta na construção)”, completou Rebeca Palis.

A construção responde por cerca de 50% da Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF, medida dos investimentos no PIB). A FBCF cresceu 3,2% na passagem do primeiro trimestre para o segundo trimestre de 2019. Na comparação com o segundo trimestre do ano passado a alta foi de 5,2%. “Todos os componentes favoreceram (a FBCF)”, disse Claudia, acrescentando que a construção é a que tem peso maior.

++Por que a economia está em marcha lenta? Veja análises 

A maior produção de bens de capital também impulsionou os investimentos no segundo trimestre, influenciando o crescimento registrado pela indústria da transformação no período.

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'PIB mostra recuperação lenta e sustentável da economia', diz Ana Paula Vescovi

Segundo a economista-chefe do Santander, avanço de 0,4% no segundo trimestre veio dentro do previsto pelo banco; reformas devem contribuir para a continuidade do crescimento

Talita Nascimento, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2019 | 15h57

A economista-chefe do Banco Santander e ex-secretária do Tesouro Nacional, Ana Paula Vescovi, afirmou nesta sexta-feira, 29, que o crescimento do Produto Interno Bruno (PIB) de 0,4% no segundo trimestre ano, demonstra uma recuperação lenta e sustentável da economia. "O resultado do PIB atesta nossa leitura da economia, de recuperação lenta. Não será uma retomada acelerada", diz. Em sua visão as reformas da Previdência e a tributária dão espaço para a continuidade dessa melhora.

Para ela, a dívida pública do Brasil deve atingir 82% do PIB até 2026, mesmo com a reforma da Previdência [Em junho deste ano, a dívida bruta bateu em 78,7% do PIB]. "A reforma é fundamental para evitar o colapso, o ajuste fiscal precisa acontecer em seguida", disse. A economista aponta os subsídios fiscais e as regras de remuneração e contratação no setor público como os que deveriam ser modificados na sequência das reformas. 

Sobre o texto da reforma apresentado pelo relator Tasso Jereissati (PSDB-CE), que deve ser avaliado pelo Senado a partir da semana que vem, Ana Paula vê "boa potência fiscal" - ele prevê que a economia com as mudanças na aposentadoria será de R$ 990 bilhões em uma década. Ela acredita que a retirada da isenção previdenciária sobre o agronegócio é a mudança que mais pode trazer recursos para o governo federal. 

Ana Paula defende ainda que a entrada dos Estados e municípios no texto da reforma no Senado é o maior ganho que a Previdência pode ter no momento. "O deficit de Previdência de Estados e municípios já está em torno de R$ 400 bilhões", disse. 

Previdência privada

Durante a reunião técnica organizada pelo banco nesta quinta, o presidente da Zurich Santander, Marcelo Malanga, chamou a atenção para a estagnação do setor de previdência privada no País. "É concentrado, são os mesmos poupadores que apenas aumentam suas reservas e há pouca portabilidade", disse Malanga. De acordo com dados da Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (Fenaprevi) divulgados pelo banco, apenas 3% dos investidores desse setor migraram para outros produtos em 2018.

Em razão dessas condições de mercado, o Santander anunciou a redução da taxa de administração de fundos de previdência de renda fixa: de 2% para 1% para todos os aportes, a partir do mínimo de R$ 30, mas podendo chegar a 0,5% para investimentos maiores. Hoje, 41% dos investidores de previdência privada pagam taxas acima de 1,25%.

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