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PIB de 2018 confirma fragilidade da recuperação

Resultado da atividade não surpreendeu os analistas numa perspectiva de curtíssimo prazo, mas foi uma grande surpresa em relação ao que se antevia no início do ano passado

Fernando Dantas*, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2019 | 17h37

O resultado do PIB do quarto trimestre, fechando o ano de 2018, não surpreendeu os analistas numa perspectiva de curtíssimo prazo, mas foi uma grande surpresa se nos transportarmos ao que se antevia no início do ano passado.

A mediana das previsões do Focus para o crescimento em 2018 era de 2,7% no começo de 2018, chegou a um pico de 2,92% em fevereiro e março do ano passado, e depois começou a cair. Em agosto, já se previa 1,5% e, nas últimas projeções em fevereiro deste ano, 1,2%, próximo ao resultado efetivo divulgado pelo IBGE hoje, de 1,1%.

O que deu errado? Na verdade, o desapontamento foi bastante generalizado, afetando boa parte dos componentes do PIB pelo lado da oferta e da demanda. Simplesmente, a recuperação econômica, após uma das piores recessões da história, não engatou nem a segunda marcha, e continuou a se arrastar em ritmo superlento.

O pior, porém, é que esse ritmo de tartaruga não foi uniforme, mas representou uma desacelerada no segundo semestre de 2018, depois de uma primeira metade do ano mais animadora. Ou seja, se alguém está angustiado com o risco de a retomada empacar de vez, provavelmente é um pessimista, mas não está fora da realidade.

“A recuperação está muito lenta, sem nenhum esboço da aceleração que todo mundo espera”, diz um gestor no Rio.

É verdade que houve em 2018 diversos “choques” na economia brasileira e internacional (com reflexos aqui), alguns mais previsíveis, outros menos, mas que não estavam incorporados nas projeções do início do ano passado: greve dos caminhoneiros, estresse eleitoral no câmbio e nos juros privados muito intenso, crise argentina com reflexo na exportação e produção industrial brasileiras (com destaque para automóveis), estresse em relação à normalização das taxas de juros nos Estados Unidos (já superado), elevação do preço de petróleo, riscos geopolíticos diversos.

Uma possível leitura é a de que esses choques, especialmente a alta dos juros e a desvalorização do câmbio – que só foram revertidas quando a campanha se encaminhou claramente para uma vitória de Bolsonaro –, castigaram a economia brasileira em plena tentativa de decolagem, com o impacto da crise argentina sobre a indústria no segundo semestre dando o golpe de misericórdia.

Um fator adicional é que a vitória de Bolsonaro – com a agenda liberal e de ajuste fiscal de Paulo Guedes, apreciada pelo mercado – afastou o risco de uma volta à desastrosa nova matriz econômica, defendida pelo menos no discurso pelos candidatos de esquerda, mas não garante por si só o desatamento do nó fiscal que estrangula a economia brasileira.

A reforma da Previdência encaminhada por Bolsonaro é ousada, consistente e engenhosa, mas o amadorismo que contamina várias áreas do governo, incluindo parcela da articulação política, suscita a dúvida sobre o que sobreviverá da proposta depois que passar pelo Congresso.

Como nota Carlos Macedo, economista da gestora Canepa, no Rio, “os investidores ficaram traumatizados com 2017, quando a reforma da Previdência estava na cara do gol e tudo foi por água abaixo de uma hora para a outra – agora a tendência é de esperar sinais mais concretos de aprovação, já que quatro ou cinco meses não são muita coisa para quem tem, por exemplo, um projeto de infraestrutura com prazo de maturação de cinco anos”.

Para 2019, há um movimento de migração das projeções de crescimento do PIB para 2% ou até um pouco menos, vindas de algo em torno de 2,5%.

Os analistas notam que há travas na maior parte dos fatores de impulsão. O consumo do governo será contido em função do ajuste fiscal, que também afeta a política parafiscal de crédito dos bancos públicos. Em termos de demanda externa, o mundo desacelera e nossa vizinha Argentina ainda não viu a luz no fim do túnel.

O consumidor brasileiro está em mais condições de liderar a retomada, mas os dados de emprego, renda e crédito sugerem que este será um processo muito gradual. O investimento público também está bloqueado pelo ajuste fiscal, e o privado em compasso de espera pela entrega das reformas. O investimento em infraestrutura, na esteira da ambiciosa agenda de privatizações e concessões do novo governo, pode dar um gás, mas isto viria mais para o final do ano, por causa da complexidade política, legal, regulatória e empresarial de deslanchar estes projetos.

Flávio Serrano, economista sênior do Haitong Bank, vê um sinal levemente positivo no resultado do PIB em 2018 pelo fato de que a demanda doméstica cresceu em torno de 2%, mais que os 1,1% do PIB. Mas ele se preocupa com a perda de ritmo na margem, na indústria, varejo, serviços, etc. Guedes e o novo presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, terão um ano bastante difícil pela frente.

*COLUNISTA DO BROADCAST

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