Fabio Motta/Estadão, Brazilian Sugar Kane Association NYT e Tasso Marcelo/AE
PIB 2020 Fabio Motta/Estadão, Brazilian Sugar Kane Association NYT e Tasso Marcelo/AE

PIB de 2019 cresce 1,1% e frustra expectativas de retomada da economia

Analistas já chamam os anos 2010 de 'década frustrada' e movimento tende a se repetir este ano, em decorrência dos efeitos do avanço do novo coronavírus

Vinicius Neder, Daniela Amorim e Denise Luna, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2020 | 10h00
Atualizado 05 de março de 2020 | 10h24

RIO - O crescimento de apenas 1,1% do Produto Interno Bruto (PIB, valor de todos os bens e serviços produzidos na economia) em 2019, informado nesta quarta-feira, 4, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), frustrou, pelo segundo ano consecutivo, as expectativas de uma retomada mais firme da atividade econômica. O padrão se repetiu em vários anos desta década. Entre os economistas, já há quem chame os anos 2010 de “década frustrada”. O movimento tende a se repetir este ano, com os efeitos do surto do novo coronavírus como vilão da frustração.

Em 2019, primeiro ano do governo Jair Bolsonaro, a economia cresceu menos da metade do que projetavam analistas e economistas na primeira semana do ano passado - as projeções apontavam um crescimento de 2,53%, conforme as estimativas coletadas pelo Banco Central (BC) no Boletim Focus. O mesmo ocorreu em 2018. As projeções começaram o ano apontando para crescimento de 2,69%, mas o PIB acabou avançando apenas 1,32%.

No ano passado, a expectativa era de uma aceleração da economia no último trimestre, mas os resultados acabaram ficando abaixo do esperado. No acumulado do ano, todos os setores tiveram crescimento baixo: a indústria cresceu apenas 0,5%, os serviços tiveram alta de 1,3% e a agropecuária também subiu 1,3%. O consumo das famílias aumentou 1,8%, enquanto o consumo do governo caiu 0,4%. A taxa de investimentos (formação bruta de capital fixo) subiu 2,2%. Em valores correntes, o PIB total somou R$ 7,3 trilhões.

Para a economista-chefe da Reag Investimentos, Simone Pasianotto, qualitativamente, o PIB não cresceu em 2019, pois não houve aceleração na expansão da indústria e dos investimentos. O avanço de 1,1% do PIB, ela diz, foi possível graças ao consumo das famílias e ao setor de serviços, que, mesmo assim, desaceleram em relação a 2018. "Se analisarmos os vetores que estruturam essa expansão de 1,1%, na prática o crescimento é zero, o PIB patinou, não teve ganho qualitativo, pois faltaram melhoras de investimento e indústria, que poderiam oferecer ganhos de produtividade e uma expansão mais robusta e sustentável da economia", disse.

Rafael Leão, economista-chefe da Arazul Capital, tem avaliação semelhante. Para ele, o PIB de 2019 mostrou crescimento mais fraco e composição pior do que a observada em 2018. Além da desacelaração do crescimento da economia (de 1,3% para 1,1%) e dos investimentos (de 3,9% para 2,2%), também houve uma crescimento nas importações (1,1%), , sinalizando pressão nas contas nacionais. “Quando o País está crescendo, é natural ter uma alta das importações puxada por máquinas e equipamentos. Mas, pela taxa baixa dos investimentos, estamos vendo que a composição é ruim e que essa pressão das importações continua sendo negativa”, disse Leão.

E, segundo ele, tudo indica que o mix da economia em 2020 vai continuar igual ao do ano passado, com crescimento puxado pelo consumo das famílias e com FBCF ainda baixa. Isso, diz Leão, é puxado entre outras coisas pela turbulência política causada pelo governo federal, que afasta os investimentos. “Tem toda essa instabilidade, essa incerteza, que parece ter afastado uma parte do investimento no quarto trimestre. Pesa também que, enquanto você não aprova a reforma tributária, por exemplo, você inibe o investimento, porque o empresário não vai investir se acha que vai ter uma mudança na alíquota em breve e que ele não sabe de quanto vai ser”, disse.

 

Frustração em sequência

“Ano após ano, com exceção de 2017, a gente frustrou o que se esperava para o crescimento brasileiro. É uma frustração em sequência”, afirmou o economista Ricardo Barboza, professor colaborador do Coppead, instituto de pós-graduação em administração da UFRJ.

Em 2017, as projeções compiladas pelo BC apontavam para um crescimento de 0,5% na primeira semana do ano, mas a economia acabou avançando 1,32%, mais do dobro do esperado inicialmente. Em todos os outros anos desde 2011, o desempenho efetivo do PIB ficou abaixo do que apontavam as projeções na primeira semana de cada ano.

 
Barboza fez um estudo mais amplo, considerando não apenas a projeção para um ano, mas para os quatro anos seguintes. O quadro de frustração fica ainda mais claro. No início de 2012, por exemplo, as projeções apontavam para crescimento de 3,30% naquele ano, 4,25% em 2013, 4,50% em 2014 e 2015. Na realidade, o PIB teve as seguintes variações: 1,92% (2012), 3,0% (2013), 0,5% (2014) e -3,55% (2015).

Segundo Barboza, embora algumas projeções possam ser feitas com pouco embasamento, mais na base da “torcida”, a metodologia para o cálculo das estimativas, com uso de modelos matemáticos ou cenários, é uma “tecnologia comum”, muito difundida entre economistas - além disso, séries estatísticas recentes e a falta de estabilidade na economia tornam o trabalho de projetar mais impreciso.

A frustração das expectativas estaria mais associada a uma “falta de pragmatismo” na condução da política econômica do que a um excesso de erros por parte dos economistas. Essa “falta de pragmatismo” estaria associada à insistência em adotar políticas de estímulo à demanda, na primeira metade da década de 2010, quando havia sinais de que a economia estava aquecida demais, e à adoção do receituário oposto, com o foco exclusivo em reformas de longo prazo, sem qualquer apoio à demanda, quando há sinais de excesso de ociosidade na economia, de 2016 para cá.

Para Entender

Como o PIB é calculado

O Produto Interno Bruto (PIB) é utilizado para medir a atividade econômica do país. Economistas costumam dizer que o PIB é um bom indicador de crescimento, mas não de desenvolvimento. Confira.

O professor do Departamento de Economia da Universidade de Brasília (UnB) José Luís Oreiro chama a atenção para a imprecisão dessas projeções. São “palpites informados”, na avaliação do professor, que vê movimentos estruturais - como a desindustrialização, a derrubada dos investimentos e a longa duração do elevado desemprego - por trás do baixo crescimento desde que o Brasil saiu da recessão, em 2017.

Gustavo Arruda, economista-chefe do banco BNP Paribas, vê uma dificuldade adicional para as projeções nos últimos anos, relacionada a uma mudança no modelo econômico do País. Durante décadas, a economia brasileira teve o setor público, via gastos dos governos ou expansão de bancos públicos e empresas estatais, como motor do crescimento. Segundo o economista, como era insustentável, esse modelo está sendo substituído por outro, com crescimento puxado via setor privado.

O que as pessoas não estavam esperando é que essa mudança não é de uma hora para outra”, afirmou Arruda, acrescentando que, além de demorada, a transição de modelo econômico também beneficia determinados setores e regiões, em detrimento de outros. Um estudo do BNP Paribas sugere que, em regiões do País com menor peso do setor público, como em São Paulo e nas regiões Sul e Centro-Oeste, a economia já está crescendo na casa de 2,5% ao ano, mais próximo do ritmo indicado nas projeções.

Segundo Arruda, se, por um lado, a transição entre os modelos leva a um menor crescimento econômico no curto prazo, no longo prazo, a economia deverá se sair melhor. Tanto que, após revisar a projeção de crescimento para 2020 de 2,0% para 1,5%, em função dos impactos negativos do surto do novo coronavírus, o BNP Paribas manteve a estimativa de que o PIB brasileiro poderá avançar 3,0% em 2021, quando, além dos avanços no modelo econômico, os efeitos dos juros baixos sobre a alta do consumo e dos investimentos serão maiores.

“É frustrante você esperar 2,5% e acabar crescendo 1,1%, mas temos um desempenho mais sustentável na economia: não estamos dependendo de setor externo, de governo, mas temos um crescimento puxado por um setor interno privado”, afirmou o economista-chefe do Banco ABC Brasil, Luis Otávio Leal.

Silvia Matos, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), chamou atenção ainda para fato de que, além de lenta, a saída da economia da recessão a partir de 2017 tem sido desigual. Assim, determinados setores e regiões do País têm crescido mais, enquanto outros avançam menos. Entre os diferentes componentes do PIB, o consumo das famílias tem sido, consistentemente, o motor do crescimento, ainda que a um ritmo lento, enquanto os investimentos patinam.

“O normal seria uma recuperação mais homogênea, entre setores e regiões. A grande característica da atual saída de recessão é que ela é lenta e desigual”, afirmou Matos, completando que essa característica dificulta o trabalho de fazer as projeções econômicas. / COLABORARAM CÍCERO COTRIM E THAÍS BARCELLOS

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Coronavírus contribui para revisões para baixo nas projeções do PIB de 2020

Mudanças nas estimativas já acontecia nas últimas semanas, devido aos dados mais fracos de atividade, mas se intensificou com conforme o vírus se disseminou pelo mundo

Vinicius Neder, Thaís Barcellos e Cícero Cotrim, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2020 | 09h30

RIO e SÃO PAULO - O surto do novo coronavírus iniciado na China, que preocupa o mundo desde meados de janeiro, surge como o principal vilão das revisões para baixo nas projeções para o crescimento econômico em 2020, que deverá ser marcado por mais uma frustração nas estimativas do início do ano. 

As Bolsas de Valores mundo afora já registraram fortes quedas nas cotações dos ativos financeiros, exigindo ação dos bancos centrais para acalmar os mercados, diante das previsões de redução no crescimento global.

Por aqui, embora o cenário ainda seja marcado pela incerteza, os primeiros impactos negativos já começaram a ser sentidos, sustentando uma onda de reduções de estimativas para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB, valor de todos os bens e serviços produzidos na economia) deste ano. Pesquisa preliminar do Projeções Broadcast, feita na segunda-feira, 2, aponta crescimento de 2,0% este ano. No mesmo dia, o Boletim Focus, compilação semanal de projeções de analistas feita pelo Banco Central (BC), apontava para crescimento econômico de 2,17%, ante 2,30% na primeira semana do ano.

 

Nesta quarta-feira, 4, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou que o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB, valor de todos os bens e serviços produzidos na economia) em 2019 ficou em 1,1%O resultado frustrou, pelo segundo ano consecutivo, as expectativas de uma retomada mais firme da atividade econômica. O padrão se repetiu em vários anos desta década. Entre os economistas, já há quem chame os anos 2010 de “década frustrada”. O movimento tende a se repetir este ano, justamente com os efeitos do surto do novo coronavírus como vilão da frustração

O movimento de revisão para as projeções já acontecia aos poucos nas últimas semanas, devido a dados mais fracos de atividade, mas se intensificou com as primeiras informações sobre o efeito do surto na economia chinesa e com a dispersão do vírus pelo mundo. 

Na semana anterior ao carnaval, a equipe de economistas da subsidiária brasileira do banco francês BNP Paribas revisou a estimativa de alta no PIB do Brasil este ano de 2,0% para 1,5%, após a equipe da instituição na China rever a projeção de crescimento da economia chinesa de 5,7% para 4,5%, disse Gustavo Arruda, economista-chefe para o Brasil.

Na segunda-feira, 2, o ASA Bank reduziu as projeções para o PIB de 2020, também de 2,0% para 1,50%, e de 2021, de 2,50% para 2,0%. Nos últimos dias, Banco Safra e Barclays também diminuíram as expectativas para o crescimento econômico.

O economista-chefe do Banco ABC Brasil, Luis Otávio Leal, estima que o coronavírus retire 0,3 ponto porcentual da evolução da economia brasileira neste ano, considerando apenas os efeitos relacionados à queda na demanda chinesa pelos produtos exportados pelo Brasil. O banco estima crescimento de 2,0% para o PIB em 2020. 

Considerando o que se sabe hoje sobre a magnitude do surto do novo coronavírus, o analista da Rio Bravo Investimentos Luis Bento calcula que o choque deverá reduzir o crescimento brasileiro deste ano entre 0,1 e 0,3 ponto porcentual. Atualmente, a Rio Bravo projeta alta de 1,80% em 2020.

Silvia Matos, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), disse que a equipe de economistas da instituição decidiu por manter a estimativa de crescimento econômico de 2,2% para 2020, mas uma revisão para baixo deverá ser anunciada ainda nesta quarta-feira, 4, após a incorporação, nos cálculos, dos dados de 2019 divulgados na manhã desta quarta, pelo IBGE. A tendência é a projeção passar para cerca de 2,0%.

Ainda assim, Silvia ainda vê efeitos limitados à indústria e à exportações de matérias-primas. “Para o crescimento ficar muito abaixo de 2,0%, é preciso haver um choque mais duradouro, com efeitos sobre o setor de serviços e sobre o emprego”, disse a pesquisadora do Ibre/FGV, lembrando que as projeções já consideravam um desempenho fraco na indústria. Apenas a indústria extrativa, da qual se esperaria uma recuperação após as paradas de produção mineral na esteira do rompimento da barragem da Vale em Brumadinho (MG), deverá ser sofrer com a queda na demanda chinesa.

No cenário de Silvia, o consumo das famílias, o setor de serviços e a construção civil (segmento do PIB industrial), voltados para a demanda doméstica, tenderão a ficar blindados dos efeitos do novo coronavírus e continuaram a puxar o lento crescimento da economia. Leal, do banco ABC Brasil, concorda e afirma que a construção civil deve aprofundar a tendência de retomada observada ao longo de 2019, levantando o investimento na composição do PIB deste ano.

“Já é lugar comum nas projeções essa avaliação, principalmente a partir do momento em que o programa de concessões (de infraestrutura) do governo começar a andar e se as reformas avançarem”, disse Leal.

Para o economista Ricardo Barboza, professor colaborador do Coppead, instituto de pós-graduação em administração da UFRJ, que tem registrado em estudos a frustração das projeções de crescimento econômico, as revisões para baixo nas estimativas para o PIB ocorreriam independentemente do surto iniciado na China.

“Os economistas não têm a menor ideia de qual o impacto do coronavírus no PIB brasileiro. Esses números que estão surgindo são um ‘mix’ de frustração com a atividade e de chute com o corona”, escreveu Barboza na terça-feira, 3, em sua conta no Twitter.

Na mesma linha, o economista-chefe da Arazul Capital, Rafael Leão, destaca que, mesmo antes do aparecimento da doença, a economia indicava estar crescendo em um ritmo mais baixo do que o inicialmente esperado.

“O vírus só agravaria esse panorama”, disse Leão, que tem projeção de crescimento de 2,0% no PIB em 2020, mas com tendência de revisar o número para baixo. 

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Análise: Por que a economia brasileira cresce tão pouco?

Mesmo com aprovação de reformas consideradas fundamentais, falta confiança aos empresários para investir, e clima de tensão entre Bolsonaro e o Congresso não ajuda nesse quadro

Alexandre Calais, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2020 | 10h09

Pelo segundo ano seguido, o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) frustrou as expectativas que o pessoal do mercado financeiro tinha em janeiro. No início de 2019, esperava-se algo como 2,5%, e o número final acabou ficando em 1,1%. O mesmo já tinha ocorrido, com dados razoavelmente parecidos, em 2018. Mas, afinal, por que a economia brasileira tem encontrado tanta dificuldade em achar um rumo de crescimento mais forte?

Não é obviamente, uma pergunta que tenha uma resposta fácil. O que ouvimos com bastante frequência é que são necessárias reformas. Mas uma boa parte delas já foi aprovada e está em vigor. A trabalhista, por exemplo, foi aprovada no governo de Michel Temer e já vale desde o final de 2017. A reforma previdenciária, apontada por quase todos os analistas como a mais importante de todas, também já está valendo.

Além dessas, algumas outras reformas consideradas fundamentais para uma mudança de patamar na economia brasileira também já entraram em vigor. Uma delas é a mudança da TJLP (uma taxa de juros subsidiada) pela TLP (sem subsídios) nos financiamentos do BNDES. Isso tem provocado uma grande revolução no mercado de crédito, com as empresas recorrendo cada vez mais a financiamentos privados - como acontece em todas as grandes economias capitalistas. 

O teto de gastos, impedindo que as despesas do governo cresçam acima da inflação, é outra medida considerada pelos analistas como fundamental nessa tentativa de recuperar a confiança na economia - embora esteja sempre sob ataque no parlamento.

Nada disso, no entanto, tem sido suficiente para a retomada dos investimentos, o passo fundamental para que o País cresça e consiga atacar seus maiores problemas, como o nível altíssimo de desemprego - que atingiu recordes por conta da recessão de 2014-2016 e ainda está longe de voltar a um patamar 'civilizado'.

Seria preciso mais reformas? A mudança na legislação tributária teria o efeito mágico de fazer com que a confiança dos empresários finalmente fosse retomada? Difícil dizer. Provavelmente, não.

É preciso avançar em outros pontos. O País precisa amadurecer do ponto de vista político, por exemplo. Desde a eleição de Dilma Rousseff, no final de 2010, há no Brasil uma polarização gigantesca, que chegou a extremos com o próprio impeachment de Dilma. Esperava-se que a eleição de 2018 pusesse um fim nisso, mas esse cenário não poderia estar mais equivocado.

A eleição de Bolsonaro parece ter agravado esse quadro ainda mais. Há hoje uma tensão entre os poderes da República como poucas vezes se viu. O diálogo entre o Executivo e o Legislativo não poderia ser pior. O que se pode esperar de bom para a economia num quadro como esse? 

Qualquer reforma tem muita dificuldade de tramitar. E o presidente Bolsonaro parece pouco estar ligando para isso. Parece estar apenas preocupado em agradar a seus seguidores e manter acesa uma polarização que o leve para um segundo turno na disputa presidencial de 2022. Estaremos condenados mesmo a crescer apenas 1% ao ano por tanto tempo?

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Atividade econômica do País está 3,1% abaixo de seu ponto mais alto, antes da recessão

Para o professor da UnB José Luís Oreiro, processo de desindustrialização da economia, queda dos investimentos durante a recessão e desemprego alto prejudicam crescimento de longo prazo

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2020 | 10h13

RIO - Com o avanço de apenas 1,1% no Produto Interno Bruto (PIB, valor de todos os bens e serviços produzidos na economia) em 2019, informado nesta quarta-feira, 4, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o nível da atividade econômica no Brasil ainda está 3,1% abaixo do pico, antes do início da recessão de 2014 a 2016. Só que o professor do Departamento de Economia da Universidade de Brasília (UnB) José Luís Oreiro vê a recuperação ainda mais distante, já que, no fim de 2018, o nível da atividade estava “quase 20%” abaixo do patamar em que deveria estar, se a tendência de crescimento de longo prazo fosse mantida.

Nas contas da coordenadora de Contas Nacionais do IBGE, Rebeca Palis, o PIB atingiu no quarto trimestre de 2019 nível equivalente ao que foi verificado no primeiro trimestre de 2013. “É o mesmo patamar do primeiro trimestre de 2013”, disse Rebeca, em entrevista coletiva na sede do IBGE.  

Na visão de Oreiro, para se recuperar completamente, a atividade econômica precisaria retomar seu curso, conforme as tendências de longo prazo, atingindo o nível em que estaria caso a recessão não tivesse ocorrido. “As pessoas usam um conceito equivocado, de que a economia vai se recuperar quando voltar ao nível do PIB de antes da crise. Isso não é correto. Na verdade, a economia se recupera quando ela voltar ao nível de PIB que teria caso a crise não tivesse acontecido”, disse Oreiro.

Nas contas do professor, como publicado em seu blog na internet no início de fevereiro, a tendência de longo prazo do crescimento econômico no Brasil é uma alta de 2,81% ao ano, conforme a média de 1980 a 2014. O comportamento esperado de economias em saída de recessão seria crescer acima da tendência de longo prazo, por um determinado período, para manter o crescimento na média de longo prazo.

Segundo Oreiro, foi isso que aconteceu em outras grandes recessões brasileiras, como no início dos anos 1980 e na virada dos anos 1980 para a década de 1990. Agora, porém, a retomada da economia tem sido muito mais lenta. Passados três anos inteiros (2017, 2018 e 2019) após a recessão, o nível do PIB não voltou sequer ao que era antes da crise.

E, pior, como não cresceu acima da média, no fim de 2018 o nível do PIB brasileiro estava “quase 20%” abaixo do patamar que deveria atingir caso não tivesse entrado em retração, nas contas do professor da UnB. Isso significa que o PIB deveria ser R$ 1,72 trilhão maior no encerramento de 2018, segundo escreveu Oreiro em seu blog. Se a economia tivesse crescido, em média, 4% ao ano a partir de 2017, o PIB só retornaria ao nível da tendência de longo-prazo em 2033. Mesmo com uma média de avanço de 5% ao ano, a recuperação só ocorreria em 2026.

Para o professor, dada a magnitude da recessão de 2014 a 2016, não seria possível recuperar a tendência de longo prazo em apenas dois anos, mas a lentidão do crescimento de 2017 em diante sugere que a crise deixou marcas na própria tendência de crescimento de longo prazo. Ou seja, a crise reduziu o “crescimento potencial” do PIB, como os economistas chamam o ritmo no qual a economia consegue avançar sem provocar desequilíbrios, como inflação elevada.

“A tendência de crescimento de longo prazo da economia brasileira caiu depois da crise”, disse Oreiro, que, por isso, ressaltou no título do post em seu blog que a economia brasileira “talvez nunca se recupere” da crise.

Na interpretação do professor da UnB, há três movimentos por trás desse fenômeno. O primeiro foi a “continuidade” do processo de desindustrialização da economia brasileira, que se acentuou entre 2011 e 2012, quando o dólar baixo reduziu a competitividade internacional da indústria nacional.

O segundo movimento foi a queda “muito forte” dos investimentos na recessão. Além da crise em si, que leva empresários a adiarem projetos de expansão diante da falta de demanda, a queda foi turbinada pelo ajuste fiscal – com as contas públicas no vermelho, governos das três esferas cortaram, principalmente, os aportes em obras de infraestrutura, o que reduz a produtividade do setor privado.

Por fim, o terceiro movimento citado por Oreiro ocorreu no mercado de trabalho, após tantos anos de desemprego elevado. Quando o trabalhador fica por muito tempo desempregado, ele “perde” qualificação, ou seja, não se atualiza para continuar exercendo suas funções, que tendem a se modernizar na esteira da inovação tecnológica. A falta de mão de obra qualificada reduz a produtividade e a capacidade de crescimento, já que atrapalha a expansão das empresas, como relatou ao 'Estado' a Amazon, gigante americana do comércio eletrônico que vem ampliando investimentos na filial brasileira desde o ano passado.

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Bolsonaro usa humorista para evitar responder sobre PIB fraco

Ao lado de Carioca, que usava uma réplica da faixa presidencial, o presidente perguntou: 'O que é PIB?'; encenação foi transmitida ao vivo pelas redes sociais

Julia Lindner, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2020 | 10h47
Atualizado 04 de março de 2020 | 13h06

BRASÍLIA - Após resultado fraco do Produto Interno Bruto (PIB) em 2019, com crescimento de apenas 1,1% no ano, o presidente Jair Bolsonaro escalou um humorista para responder perguntas da imprensa sobre o ritmo da atividade econômica nesta quarta-feira, 4. O primeiro PIB de Bolsonaro é pior do que o último do ex-presidente Michel Temer.

"PIB? O que é PIB? Pergunta para eles (jornalistas) o que é PIB", disse Bolsonaro ao humorista Márvio Lúcio, conhecido como Carioca, da TV Record. Em seguida, um jornalista reforçou que a pergunta era dirigida para o presidente, e não para o humorista. "Paulo Guedes, Paulo Guedes", reagiu Carioca. "Posto Ipiranga", sugeriu Bolsonaro ao humorista, rindo.

Vestido como Bolsonaro, inclusive com uma réplica da faixa presidencial, Carioca usou a estrutura da Presidência para oferecer bananas aos jornalistas em frente ao Palácio da Alvorada - nenhum jornalista aceitou. O humorista que popularizou o apelido "mito" também pediu para ser questionado pelos profissionais como se fosse o presidente, o que não ocorreu.

Depois, o próprio Bolsonaro apareceu e quis participar da encenação que foi combinada um pouco antes. Carioca participou de um café da manhã no Alvorada que reuniu o presidente, ministros e parlamentares do PSD. Na conversa com o humorista, Bolsonaro afirma ser "agredido" pela imprensa e  pede que ele "fale em seu lugar" em frente à residência oficial. "É impressionante que eles (imprensa) ficam me agredindo. Todo dia eles estão lá fora. Estou há duas semanas sem falar com eles. Fala no meu lugar. Vou te dar a palavra", disse Bolsonaro.

O vídeo do café da manhã de Bolsonaro com o humorista foi divulgada pelo site Folha do Brasil, que publica notícias favoráveis ao governo. Na conversa, em tom de piada, Bolsonaro fala sobre política externa e faz piada com o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro. "Quem é o único gordo da Venezuela?", questiona após ser questionado se conhece o venezuelano.

Frustração

O resultado do PIB de 2019 é menos da metade do projetado inicialmente pelos economistas. Em dezembro de 2018, às vésperas da posse do presidente Jair Bolsonaro, analistas do mercado financeiro renovaram a aposta na retomada e projetaram crescimento de 2,55%.

Foi o terceiro ano seguido de fraco crescimento da economia brasileira. Em 2017 e em 2018, a primeira divulgação do PIB mostrou expansão de 1,1%. Posteriormente, os dados foram revisados para 1,3%. Em 2015 e 2016, houve queda no PIB. 

Em nota, o Ministério da Economia afirmou que a composição do PIB de 2019 indica "melhora substancial", com "aumento consistente do crescimento do PIB privado e do investimento privado".

Quando indagado por jornalistas sobre riscos na negociação com o Parlamento em relação ao Orçamento impositivo ou sobre o resultado aquém do esperado do PIB, Bolsonaro terceirizou as respostas ao humorista. Tudo foi transmitido ao vivo na conta oficial do presidente da República nas redes sociais.

O humorista chegou em um carro oficial da Presidência e contou com a ajuda do secretário especial de Comunicação, Fabio Wajngarten, para sair do veículo. Ele ficou posicionado no mesmo local que Bolsonaro usa normalmente para responder perguntas da imprensa. A área é restrita.

Antes da chegada de Carioca, o ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, responsável pela Secom, desceu de outro carro e foi a pé acompanhar todo o ato.

Na terça-feira, o governo federal divulgou a reedição de uma cartilha sobre a proteção de jornalistas e comunicadores no Brasil. Elaborado pelo Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, chefiado por Damares Alves, o texto traz uma nova edição do documento, lançado no governo de Michel Temer, e prevê que "as autoridades públicas têm a obrigação de condenar veementemente agressões contra jornalistas". O manual diz ainda que "os agentes do Estado não devem adotar discursos públicos que exponham jornalistas".  

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'Governo tem muita retórica, mas falta rumo', diz economista

Segundo Armando Castelar, do Ibre/FGV, País poderia crescer em um ritmo de 4% ao ano caso melhorasse ambiente de negócios, que hoje trava a volta dos investimentos

Entrevista com

Armando Castelar, pesquisador do Ibre/FGV

Douglas Gavras , O Estado de S.Paulo

04 de março de 2020 | 10h58

Para Armando Castelar, coordenador de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), o crescimento do País no ano passado foi uma "decepção antecipada" e já é possível considerar que a década encerrada em 2019 foi perdida. "Apesar de o ritmo fraco já ser esperado, os dados mostram que a economia ainda está com uma dificuldade muito grande de se recuperar."

Nesta quarta-feira, 4, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou que o Produto Interno Bruto (PIB, valor de todos os bens e serviços produzidos na economia) do País cresceu apenas 1,1% em 2019. O resultado frustra as expectativas de uma retomada robusta da atividade econômica. 

Na avaliação de Castelar, o País teria condição de crescer em um ritmo de até 4% ao ano, caso fizesse as reformas necessárias para melhorar o ambiente de negócios e destravar investimentos. 

A seguir, trechos da entrevista ao Estado:

O PIB do ano passado veio abaixo dos resultados de 2017 e de 2018, que já foram anos de crescimento fraco. Podemos chamar o crescimento de 2019 de 'pibinho'?

É um resultado que veio, mais ou menos, dentro das nossas expectativas. Os resultados do último trimestre do ano passado já haviam sido decepcionantes, o que acabou contribuindo para essa perda de velocidade. Não surpreende, mas é um número baixo. Os dados mostram, de maneira preocupante, que o PIB per capita está longe de recuperar as perdas que tivemos antes da recessão - crescimento de 0,3%, depois de quedas na casa dos 4% em anteriores. Eu diria que o resultado do PIB em 2019 foi uma decepção antecipada.

Por que a recuperação da economia, que já era lenta, desacelerou?

É preciso lembrar que os resultados de 2017 e 2018 eram mais baixos e foram revistos depois. Nada impede que o mesmo aconteça com os números de 2019. De todo modo, parece que a economia está com uma dificuldade muito grande de se recuperar, ela mantém um padrão muito baixo, que não permite que a recuperação que o País experimenta desde 2017 venha com mais força.

Após as eleições de 2018 e no começo do ano passado, havia um clima de otimismo e a expectativa era que o País crescesse 2,5%. No entanto, o primeiro PIB do governo Bolsonaro ficou bem abaixo dessa previsão. Por que isso aconteceu?

Há mais de uma interpretação para o crescimento mais fraco no ano passado. Uma discussão tem sido de que temos trabalhado em um estado permanente de expectativa e de choques: a gente fica otimista e logo vem um choque. Em 2017, o cenário era de otimismo também. Então, veio o caso da delação da JBS, com uma gravação em que o presidente Michel Temer aparecia, que mudou o clima no País e eliminou a chance de aprovação de uma reforma da Previdência. Em 2018, aconteceu a greve dos caminhoneiros, que enfraqueceu muito o governo, e também houve uma mudança do cenário externo. No ano passado veio a crise da Argentina, uma ducha de água fria na indústria, e mais problemas externos.

Qual seria a outra interpretação?

Uma outra visão, que parece mais correta, é que há travas mais profundas que impedem o crescimento do Brasil. Aconteceu uma mudança importante no modelo vigente no País, que antes era muito baseado em aumento do gasto público. Em 2019, essas mudanças permitiram a redução dos juros de uma forma nunca vista. Em certo sentido, foi a demanda privada, doméstica, que puxou o PIB no ano passado para cima. Só que não está puxando no ritmo que se esperava. O crédito, via consumo das famílias, puxou o PIB de 2019, mas isso tem um limite.

Apesar de ter sido um motor, o consumo das famílias ainda está reprimido, certo?

Se considerarmos toda a década passada, o consumo ainda está reprimido, ainda está abaixo do pico, considerando que a população cresceu. E é baixo, porque o desemprego é alto. O crédito está crescendo bastante e é isso que está fazendo o consumo crescer, e essa é a lógica que vai prevalecer em 2020. Mas, para ter consumo, tem de ter emprego; para ter emprego, tem de ter investimento.

O que fazer para trazer mais investimentos?

O que acontece é que o ambiente de negócios é muito ruim, tem muita insegurança jurídica e incerteza nos rumos do País. O modelo saiu do público para o privado, mas o setor privado está atrasado. E isso fica claro no investimento. Não se conseguiu destravar os investimentos privados até agora e, sem isso, não vamos destravar o resto. Quando isso se resolver, é razoável que o País cresça num ritmo de 4% ao ano.

O remédio aplicado desde 2016, de contenção de gastos públicos e foco no investimento privado, está perdendo efeito?

Creio que não. O modelo anterior vinha gerando recessão, o modelo novo tirou o País da recessão. O que falta é completar essa transição, efetivamente dar um ambiente de negócios que permita que empresas tenham confiança para investir. O que está segurando o investimento é a incerteza, tanto a micro, de como fica a tributação, até a coisa macro.  O governo tem muita retórica, mas falta rumo, as pessoas comuns não têm uma visão clara de para onde o País está indo. Falta clareza. Por exemplo, existe demanda por grandes projetos e falta de infraestrutura. O risco de negócio é baixo, mas as incertezas regulatórias fazem com que o investimento não ocorra. As propostas de reforma tributária que estão na mesa vão nessa direção.

Agora, com o resultado de 2019, podemos avaliar que a década passada foi uma década perdida?

Ao se medir pelo PIB per capita (divisão dos bens e serviços produzidos pela população do País), foi uma década perdida. O Brasil encerrou a década abaixo do ponto em que estava. O que precisa ser feito para a economia melhorar, a gente sabe. Há 20 ou 30 anos se discute como melhorar o ambiente de negócios. A reforma da Previdência me deu otimismo, mas vamos ter vontade política para fazer ou vamos empurrar com a barriga? O histórico dos últimos 40 anos é ruim. Quando se olha o desempenho do Brasil, comparado com outros emergentes, andamos para trás. 

 

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Adriana Fernandes
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PIB fraco mostra que o Brasil não pode esperar sempre pela próxima semana

Incertezas continuam pairando no ar, boa parte provocada pelo próprio governo

Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2020 | 11h39

BRASÍLIA - O Brasil perde tempo. A alta de 1,1% do PIB do presidente Jair Bolsonaro frustra não só porque o novo governo ganhou as eleições prometendo mais crescimento, mas também porque a trajetória de recuperação mais rápida da atividade econômica do Brasil não está contratada.

Pelo contrário, as incertezas continuam pairando no ar – boa parte delas provocada pelo próprio governo. O PIB de 2019 – primeiro ano de Bolsonaro no Palácio do Planalto – é menor do que os de 2017 e 2018, entregues pelo ex-presidente Michel Temer

Não dá para culpar o mundo. Os dois primeiros meses de 2020 foram marcados por tensão, que vêm de fora, é claro, com o avanço do coronavírus e outros fatores geopolíticos, porém, governo e Congresso parecem não entender que o País precisa avançar. 

A desordem é grande. Ela chegou também ao Ministério da Economia e à agenda econômica, que pareciam blindados e contavam com confiança dos agentes econômicos. A percepção é de que voltamos há um ano, nos primeiros meses do governo Bolsonaro, quando presidente e lideranças do Congresso se engalfinhavam em debates e brigas em torno da articulação política. 

Déjà-vu completo. Presidente e seus ministros tentam novamente constranger os congressistas com estímulo às manifestações de rua. A diferença agora que não temos uma reforma da Previdência “salvadora” para liderar a agenda. A pauta de projetos econômicos é tão diversa e reúne tantas frentes de interesse que até agora ninguém sabe dizer o que é prioritário. Nem a queda mais acelerada dos juros pelo Banco Central deu jeito, por enquanto, no problema do baixo crescimento.

Nada mais representativo do cenário atual do que a queda de braço entre governo e Congresso sobre quem manda mais no dinheiro do Orçamento. Enquanto no plenário do Congresso, ontem, ninguém entendia direito o acordo para o Orçamento de 2020, o ministro da Economia, Paulo Guedes, se reunia com representante dos movimentos de manifestações marcadas para o domingo, 15. Se era para negociar, por que Guedes não foi ao Congresso?

Senadores e deputados reagiram e não votaram o acordo. “Pera aí, Guedes, cadê as suas reformas? E a reforma administrativa? E a reforma tributária?”, reclamavam. Desde o início do segundo semestre Bolsonaro, Guedes, Senado, Câmara prometem para a “próxima semana” a votação de projetos importantes. 

A reforma da Previdência foi aprovada em outubro e nada mais importante foi feito. Todos só pensam na reeleição. O Brasil precisa de conserto agora. Não dá para esperar pela próxima semana.

O PIB de Bolsonaro, mais tímido do que os dois últimos de Temer, mostrou que os problemas de baixo crescimento do Brasil são bem mais profundos.

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'Estou surpreso com a surpresa de vocês sobre o PIB', diz Guedes

Ministro da Economia afirma que crescimento de 1,1% já era esperado pelo governo, mas resultado é menos da metade do projetado inicialmente pelos economistas

Amanda Pupo e Julia Lindner, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2020 | 17h59

BRASÍLIA - O ministro da Economia, Paulo Guedes, disse que o resultado do PIB de 2019 de crescimento de 1,1% já era esperado pelo governo. Após participar de um evento com o presidente Jair Bolsonaro, ele afirmou que a expectativa do governo é que, neste ano, a economia cresça 2%, caso as reformas avancem no Congresso.  

“Até agora, eu não diria que houve surpresa nenhuma. Estou surpreso com a surpresa que vocês estão tendo”, disse à imprensa ao fim de cerimônia no Palácio do Planalto. Ao sair do prédio do ministério em Brasília para ir ao evento, Guedes já havia afirmado não ter entendido a “comoção” com o resultado.

O resultado do PIB de 2019 é menos da metade do projetado inicialmente pelos economistas. Em dezembro de 2018, às vésperas da posse do presidente Jair Bolsonaro, analistas do mercado financeiro renovaram a aposta na retomada e projetaram crescimento de 2,55% para o ano passado.

Foi o terceiro ano seguido de fraco crescimento da economia brasileira. Em 2017 e em 2018, a primeira divulgação do PIB mostrou expansão de 1,1%. Posteriormente, os dados foram revisados para 1,3%. Em 2015 e 2016, houve queda no PIB.

O ministro afirmou que a economia brasileira tem dinâmica própria, e que, independentemente da epidemia do coronavírus, o Brasil vai reacelerar o crescimento, considerando a realização de reformas. “O Brasil é País de dimensão continental, tem própria dinâmica de crescimento, se fizermos nossas reformas, vamos reacelerar nosso crescimento”, disse. “Se as reformas continuam, nós achamos que vamos passar de 2%”, afirmou.

Guedes ainda explicou novamente sua visão de que o País não é “uma folha ao vento do comércio internacional”, e que tem potência para superar efeito do coronavírus. “Vai atrapalhar um pouco, mas temos potência suficiente para superar esse efeito. Brasil não é uma folha ao vento do comércio internacional”, disse, acrescentando que a China não deixará de comprar produtos agrícolas do Brasil em função da epidemia.

“Naturalmente, quando o mundo começa a desacelerar, quem sofre os maiores impactos são as economias mais abertas, então a crise começou na China. E a China é uma economia muito aberta, então ela pega o maior dos impactos. Os maiores parceiros comerciais dela vão sofrer impacto também. A China compra muito produto agrícola do Brasil, ela não vai parar de comer. Chinês pode ter coronavírus, ele vai precisar comprar soja, vai continuar comprando produtos agrícolas nossos”, afirmou, pontuando que, enquanto o mundo cresceu sincronizadamente durante "20, 30 anos", o Brasil ficou fora.

"O Brasil afundando e o mundo acelerando. Agora o mundo começou a desacelerar e nós estamos reacelerando, estamos fora de fase com eles", comentou.

Também nesta quarta, o secretário-especial de Fazenda do Ministério da Economia, Waldery Rodrigues, afirmou que o resultado do PIB no ano passado veio em linha com o esperado.

"A dinâmica do ano passado, separada por semestres, mostra um segundo mais forte e dinâmico do que o primeiro. Porque aprovamos a maior reforma paramétrica da reforma da previdência no Brasil. Veja a dificuldade de outros países. E medidas como o FGTS, que antecipamos a devolução de R$ 43 bilhões", declarou.

Para este ano, o secretário afirmou que é importante manter a agenda de reformas, com a votação da PEC dos fundos públicos, além das PECs da emergência fiscal, do pacto federativo, e mudanças no regime de recuperação fiscal dos Estados. Também defendeu a aprovação das reformas administrativa e tributária.

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Comentário de Maia sobre PIB retoma debate sobre papel do gasto público no crescimento

Maia ressaltou a importância da participação do Estado no desenvolvimento do País: 'O setor privado sozinho não vai resolver os problemas'

Adriana Fernandes e Camilla Turtelli, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2020 | 20h54

BRASÍLIA - O crescimento baixo do Brasil no primeiro ano do governo Jair Bolsonaro reacendeu a polêmica sobre a necessidade de estímulos do Estado para impulsionar o Produto Interno Bruto (PIB) que patina na faixa de 1% ao ano após do período de recessão iniciado no governo Dilma Rousseff.

O debate, que provocou embates ruidosos entre os economistas nas redes sociais e no Congresso após a divulgação na manhã desta quarta, 4, feita pelo IBGE, teve um ingrediente a mais: a declaração do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

Ao comentar o PIB de 2019, Maia ressaltou a importância da participação do Estado no desenvolvimento do País. "O setor privado sozinho não vai resolver os problemas. Então acho que a grande mensagem do PIB que saiu hoje é exatamente que a participação do Estado também será sempre importante para que o Brasil possa crescer e se desenvolver", disse Maia.

O presidente da Câmara foi além: "A gente não consegue organizar um país apenas fazendo as reformas, cortando, cortando, cortando. Isso tudo é fundamental, a reforma administrativa, previdenciária, o novo sistema tributário", disse.

A fala de Maia teve logo repercussão no mercado. Muitos analistas se perguntaram se o presidente da Câmara, considerado o principal fiador das reformas, havia mudado de tom, numa rendição à exaltação da importância dos gastos para o crescimento ou se estava apenas cutucando o ministro da Economia, Paulo Guedes. O ministro e sua equipe são defensores fervorosos da retomada pelo investimento privado.

Procurado pelo Estado, Maia disse que continua defendendo as reformas: "Eu defendo as reformas porque entendo que temos que abrir uma capacidade de investimento para o Estado brasileiro. O investimento público é importante. Não apenas as reformas que fazem restrição fiscal", ponderou. Na sua avaliação, o Congresso tem que fazer uma boa reforma administrativa e organizar as despesas correntes para que haja mais recursos para investimento.

O presidente da Câmara negou que tenha sugerido a ampliar despesa para estimular crescimento. "De forma nenhuma, ampliar despesa, gerando endividamento. Nada disso", disse Maia. Ele defendeu a abertura de espaço nas despesas discricionárias, via as reformas, para investimento em infraestrutura e na área social. E também parceria com o setor privado, com recursos do Orçamento.

Um dos economistas mais próximos de Maia, José Marcio Camargo, não acredita que o parlamentar tenha mudado de posição. "Ele tem consciência que as reformas são importantes. É possível interpretar essa fala no sentido de que as reformas são importantes para liberar recursos para o governo investir", disse. "Pelo que eu conheço dele, eu acho pouco provável que ele esteja dizendo: 'pode gastar à vontade que o Brasil vai crescer'", enfatizou Camargo, professor da PUC do Rio de Janeiro.

No Congresso, já se espera uma pressão na equipe econômica maior por conta do PIB. "A economia mostrou um respiro, um balão oxigênio, mas não dá para pensar em repetir em 2020 o resultado aquém das expectativas", disse Efraim Filho (PB), líder do DEM na Câmara. Segundo ele, o resultado do PIB demonstra que é preciso haver um esforço concentrado e conjunto para cuidar da agenda econômica. "É ela que realmente interessa ao Brasil que é a retomada do crescimento, voltar a se desenvolver. Essa é a agenda da vida real das pessoas", disse.

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Consumo das famílias puxa PIB, mas perde fôlego

Corte de 0,4% nos investimentos do setor público deixaram ‘missão’ de investir para o setor privado, que registrou alta de 2,2%

Daniela Amorim, Denise Luna e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2020 | 04h00

RIO - Os gastos das famílias brasileiras permaneceram como o principal motor da economia do País no ano passado. O consumo cresceu 1,8%, ajudado pela expansão do crédito e pela liberação de saques do FGTS, informou o IBGE

Apesar dos recursos extraordinários e da redução dos juros à mínima histórica, o gasto das famílias perdeu fôlego. O crescimento do consumo encerrou o ano abaixo do registrado em 2018. Ao mesmo tempo, o governo gastou menos, contribuindo para diminuir a alta do PIB de 2019. O consumo governamental encolheu 0,4% ante 2018.

De acordo com o Ministério da Economia, o investimento público teve retração superior a 5%, indicando que o “PIB do setor público” caiu mais de 1%. O resultado do PIB saiu na quarta-feira, 4, com 1,1% de crescimento em 2019.  

A alta de 2,2% nos investimentos em 2019 se deu graças ao setor privado. Houve melhora na construção, mas no segmento de reformas em empreendimentos imobiliários, enquanto a parte de infraestrutura ainda não mostra reação.

Para Gustavo Arruda, economista-chefe do banco BNP Paribas, há uma mudança no modelo econômico do País. Durante décadas, a economia brasileira teve o setor público, via gastos dos governos ou expansão de bancos públicos e empresas estatais, como locomotiva do crescimento. Segundo o economista, como era insustentável, esse modelo está sendo substituído por outro, com crescimento puxado via setor privado.

“O que as pessoas não estavam esperando é que essa mudança não é de uma hora para outra”, afirmou Arruda, acrescentando que, além de demorada, a transição de modelo econômico também beneficia determinados setores e regiões, em detrimento de outros. Estudo do BNP Paribas sugere que, em regiões do País com menor peso do setor público, como em São Paulo e nas Regiões Sul e Centro-Oeste, a economia já está crescendo na casa de 2,5% ao ano.

Arruda acredita que, se, por um lado, a transição entre os modelos leva a um menor crescimento econômico no curto prazo, no longo prazo, a economia deverá se sair melhor.

Sob a ótica da oferta, os serviços cresceram 1,3% em 2019, enquanto a indústria avançou apenas 0,5%, prejudicada por uma estagnação da indústria de transformação e pelas perdas nas indústrias extrativas, decorrentes do rompimento da barragem da Vale em Brumadinho (MG). A safra recorde de grãos e o bom desempenho da pecuária elevaram o desempenho do PIB agropecuário.

Quarto trimestre 

No fim do ano, houve alguma frustração com o ritmo de recuperação. O PIB cresceu 0,5% no quarto trimestre em relação ao terceiro trimestre de 2019, mas, a despeito das liberações de saques do FGTS, o comércio ficou estagnado. Os investimentos despencaram 3,3%, puxados pelo mau desempenho da construção.

O início de 2020 não deve trazer alívio. Segundo o IBGE, os resultados do PIB do primeiro trimestre deste ano mostrarão os impactos do surto de coronavírus sobre a economia. As estimativas do mercado financeiro apontam agora para um crescimento de 0,2% na comparação com o quarto trimestre de 2019, segundo pesquisa de ontem do Projeções Broadcast.

“Vai ter impacto em tudo, provavelmente vai afetar o comércio exterior e também a produção nacional”, disse Rebeca Palis, coordenadora de Contas Nacionais do IBGE.

Assim, a atividade econômica deverá retornar ao nível anterior à recessão de 2014 a 2016 apenas na primeira metade de 2021, previu Fabio Bentes, economista da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Em meio ao surto do coronavírus e da desaceleração do ritmo de crescimento da economia mundial, a CNC reduziu sua projeção para o PIB de 2020, de uma alta de 2,3% para elevação de 2,1%.

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