PIB decepciona, mas BC eleva juros em 0,5 ponto para conter inflação

A economia brasileira frustrou as expectativas e cresceu apenas 0,6% no primeiro trimestre, na comparação com o trimestre anterior. O número divulgado ontem, bem abaixo das expectativas de analistas e do próprio governo, teve reflexos praticamente imediatos em outros indicadores da economia: a Bolsa de Valores de São Paulo caiu 2,5% e o dólar subiu 1,78%, fechando a R$ 2,11.

RIO, SÃO PAULO, BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2013 | 02h05

À noite, mesmo pressionado pelo fraco resultado da economia, o Banco Central elevou a taxa básica de juros em 0,5 ponto porcentual, para 8% ao ano, para conter a inflação. A decisão surpreendeu analistas financeiros.

Após o resultado decepcionante do PIB (soma de todos os bens e serviços produzidos na economia), divulgado pela manhã, boa parte do mercado apostava que o BC promoveria uma alta menor dos juros, em torno de 0,25 ponto porcentual, para não afetar a frágil recuperação da economia. Mas, no dilema entre a inflação alta e o crescimento baixo, o BC optou por tentar conter os preços.

A decisão provocou polêmica. Para a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a "elevação da taxa básica de juros traz ganhos modestos contra a alta da inflação, prejudica a expansão dos investimentos e impede o aumento da oferta".

Mas alguns economistas consideraram o movimento uma sinalização positiva em relação ao combate à inflação, especialmente por ter sido unânime. "Tivemos uma mensagem mais contundente do Banco Central. Uma divisão da decisão poderia ser ruim na percepção em relação ao BC", disse o economista-chefe do Banco J. Safra, Carlos Kawall.

Revisão. Antes mesmo da alta dos juros, a decepção com o resultado do PIB já havia motivado uma recalibragem das projeções para a economia.

O índice anunciado pelo IBGE corresponde a uma taxa anualizada de 2,4%. Depois da divulgação, o governo admitiu ter desistido da previsão de crescimento em torno de 3,5% este ano. As projeções do mercado financeiro, por sua vez, desceram mais alguns degraus e já se situam abaixo dos 2,5%.

O IBGE destacou uma "mudança de perfil" no crescimento do primeiro trimestre, marcado pela elevação dos investimentos e por um arrefecimento no crescimento do consumo das famílias. A alta nos investimentos, a mais intensa na comparação com o trimestre anterior desde o início de 2010, foi comemorada pelo governo como uma melhora de qualidade. Mas economistas alertam para o fato de o saldo estar um tanto distorcido, com, por exemplo, os resultados da alta da produção de caminhões, que entra na conta de investimentos.

A estagnação do consumo, que caminhou somente 0,1% do fim de 2012 para o início de 2013, também lança dúvidas sobre o ciclo de crescimento da economia, marcado pela política de incentivos do governo. O grande destaque positivo foi a agropecuária, com crescimento de 9,7%. Segundo o Bradesco o crescimento do PIB seria nulo não fosse a agropecuária.

Na esteira da decepção com o PIB, e refletindo uma declaração do ministro Guido Mantega de que o câmbio não é utilizado para combater a inflação, o dólar fechou com a maior cotação desde 4 de dezembro. Mais uma vez, o BC preferiu não atuar e deixar o real se desvalorizar. Para Mantega, a desvalorização pode até ser benéfica, por tornar as exportações mais competitivas. Mas analistas manifestaram sua preocupação em relação aos efeitos da alta das mercadorias cotadas em dólar na inflação.

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