Helvio Romero/Estadao
Helvio Romero/Estadao

PIB deve andar de lado até o fim do ano

Bancos revisam para baixo projeções de crescimento para os próximos trimestres e economistas já falam até em alta de apenas 1% no ano

Luciana Dyniewicz, Mônica Scaramuzzo e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

10 Junho 2018 | 05h00

SÃO PAULO e RIO - Uma greve que parou o País, um governo frágil, um cenário eleitoral completamente indefinido, um desempenho econômico decepcionante aliado a um cenário externo desfavorável. Esses ingredientes desestabilizaram o mercado na semana passada, deixaram os investidores no escuro e levaram os economistas a rever todas as projeções para 2018 e 2019. A deterioração da economia e da política brasileira ainda deverá frear os investimentos feitos pelos estrangeiros no País pelo menos até dezembro e não há sinais de que o nervosismo financeiro vá passar.

A turbulência mudou totalmente o cenário otimista que o mercado projetava no início do ano. A sensação dos investidores e dos economistas dos grandes bancos era que a alta estimada de 3% no Produto Interno Bruto (PIB) chegaria ao dia a dia da população, que, consequentemente, apoiaria um candidato de centro-direita para a corrida eleitoral.

Mas o cenário se distanciou bastante disso. Na sexta-feira, mais bancos reviram para baixo suas projeções econômicas para 2018 – o Bradesco cortou de 2,5% para 1,5%, o Itaú de 2% para 1,7% e o Bank of America Merrill Lynch de 2,1% para 1,5%. Há, inclusive, economistas que já projetam uma repetição do resultado de 2017, quando o PIB avançou 1%, após acumular queda de quase 7% nos dois anos anteriores.

“Meu cenário base já é de uma economia que cresça menos que em 2017. O primeiro trimestre não tem fôlego para impulsionar o resto do ano como em 2017, com a safra recorde”, diz a economista Monica De Bolle, do Peterson Institute for International Economics. “Agora é esperar, porque estamos sem controle da própria situação.”

Para Paulo Leme, presidente do conselho da Vinland Capital, um PIB de 1% “não seria tão ruim dadas as dificuldades”. 

O professor José Luís Oreiro, da Universidade de Brasília, destaca que, para o PIB chegar a 1,5%, a economia terá de avançar pelo menos 0,5% no terceiro trimestre e mais 0,5% no quarto – ele prevê um número negativo no segundo trimestre.

“Se o governo ainda existisse, teria de fazer um ajuste fiscal de emergência, poderia aumentar impostos para tentar reduzir o déficit em 2019”, diz Oreiro. A medida, afirma, daria espaço para um recuo na taxa básica de juros, o que poderia impulsionar o PIB. “Como o governo não existe mais, o que nos resta é esperar 2019.”

Ferramenta. A redução da Selic em 7,75 pontos porcentuais até maio é justamente a ferramenta que resta ao País, dizem os analistas. Para o economista-chefe do Banco Votorantim, Roberto Padovani, o crédito está se recuperando na esteira da queda do juros e deve ser responsável por parte da elevação do PIB neste ano. Ele prevê um resultado “otimista”, de 1,8%. A economista-chefe da XP Investimentos, Zeina Latif, vai na mesma linha. “Ainda tem efeito de política monetária para se materializar. Não vejo a economia com fundamentos tão ruins para entrar numa espiral recessiva”.

O Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV também está “otimista”. Amanhã, o órgão divulga sua nova projeção de PIB para o ano, que passou de 2,3% para 1,9%. As estimativas de inflação mudaram de 3,4% para 4%. A economista Silvia Matos afirma, no entanto, que a deterioração dos indicadores pode se acentuar até o fim do ano. “O mercado pune e pode entrar em modo anti-Brasil. A gente só viu um pequeno movimento. A preocupação é que o fundo do poço pode ser mais embaixo.” 

No mercado de capitais, o humor também mudou em relação ao início do ano, quando as companhias recorreram à Bolsa, reafirmando o apetite de investidores estrangeiros e nacionais por negócios locais. A expectativa era que mais empresas recorressem ao mercado até julho. O sinal, no entanto, se inverteu. Em maio, as operações caíram drasticamente – nenhuma empresa abriu capital. De janeiro a maio, as transações no mercado de capitais haviam somado R$ 73,4 bilhões, alta de 40% na comparação com o mesmo período do ano passado, segundo a Anbima (associação das entidades do mercado de capitais). 

“O segundo semestre vai ser mais complicado. A expectativa mais otimista é que possamos repetir o desempenho de 2017. A depender de quem for eleito e se tiver o apoio do Congresso, 2019 será melhor”, diz Marcelo Noronha, vice-presidente do Bradesco. 

Apetite. O ano começou bem para fusões e aquisições – a união entre Suzano e Fibria foi emblemática e prometia puxar outros negócios. O fundo americano Advent anunciou, na semana passada, a compra de 80% do Walmart no Brasil – uma negociação que levou meses. Mas outros grandes negócios dependem do apetite a risco do investidor, que está mais cauteloso.

Até maio, o número de fusões e aquisições recuou 15,5% ante os cinco meses de 2017. Dessas operações, 157 tiveram valores divulgados, somando R$ 92,8 bilhões, alta de 32,2%, segundo a consultoria TTR. “O investidor estrangeiro está mais reticente e só faz apostas em grandes oportunidades”, diz Fábio Nazari, sócio do BTG Pactual.

 

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