Marcos de Paula/Estadão
Marcos de Paula/Estadão

PIB do 3º trimestre adia virada na economia para meados de 2017

Recuo de 0,8% no período confirma a expectativa de analistas sobre a fraqueza da atividade econômica

O Estado de S.Paulo

30 Novembro 2016 | 17h30

O desempenho da economia brasileira no terceiro trimestre veio em linha com o esperado pelos analistas, o que não significa que tenha sido bom. O resultado divulgado nesta manhã pelo IBGE confirmou que o PIB brasileiro segue bastante frágil e fez os analistas adiarem o momento previsto para a virada na atividade. A expectativa agora é de que os números só se tornarão firmemente positivos no segundo trimestre de 2017.

O IBGE divulgou que o PIB brasileiro recuou 0,8% no terceiro trimestre em relação ao segundo trimestre deste ano. O resultado veio dentro do intervalo das estimativas dos analistas de 41 instituições consultados pelo Projeções Broadcast, que esperavam uma retração de 0,50% a 1,15%, com mediana negativa de 0,90%. Na comparação com o terceiro trimestre de 2015, o PIB recuou 2,9%. As previsões iam de contração de 2,60% a 4,85%, com mediana negativa de 3,20%. A contração do PIB na margem foi a sétima seguida, enquanto no interanual a comparação está negativa há dez trimestres.

De acordo com os analistas ouvidos pelo Broadcast, sistema de informações em tempo real do Grupo Estado, a melhora observada no segundo trimestre se deu por motivos pontuais, aliados à recuperação na confiança decorrente da troca de governo. Entretanto, na sequência a economia brasileira voltou a piorar no terceiro trimestre e os indicadores do quarto trimestre também sugerem fragilidade, o que não deixa uma herança positiva para o começo de 2017.

Ainda que a recessão prolongada gere uma base de comparação baixa - que facilita uma retomada do crescimento - o grande problema é a falta de motores para a retomada. Com a necessidade de ajuste fiscal, o impulso para a atividade não virá dos gastos do governo. No caso das famílias, inflação ainda elevada, crédito restrito e desemprego em alta também não deixam muito espaço para otimismo. Em relação aos investimentos, o cenário político ainda conturbado dificulta ações mais ousadas dos empresários, enquanto no ambiente externo a eleição de Donald Trump deve estimular o protecionismo e forçar o Federal Reserve a adotar uma política mais restritiva.

De acordo com o economista da consultoria Pezco Microanalysis Helcio Takeda, o ponto de inflexão na atividade não deve mais ocorrer no quarto trimestre deste ano, como se esperava, e possivelmente também não virá no primeiro trimestre de 2017. "A primeira impressão que eu tenho vendo os dados de hoje e os indicadores econômicos recentes é que isso só deve acontecer no segundo trimestre do próximo ano". Visão semelhante tem o economista da Parallaxis Rafael Leão, que acredita na volta do crescimento somente a partir do segundo trimestre, isso se o Banco Central acelerar o ritmo de afrouxamento monetário. "É mais que imprescindível a aceleração do corte de juro, senão agora na próxima reunião, para sair de um estágio tão deletério de atividade."

Na palavra do economista do Goldman Sachs para América Latina, Alberto Ramos, a nova queda do PIB do Brasil fez o indicador voltar, em termos reais, para o mesmo nível do terceiro trimestre de 2010. Ele espera que a economia permaneça fraca neste quarto trimestre e se estabilize na primeira metade do ano que vem, para só mostrar "sinais claros" de recuperação cíclica no segundo semestre. "A atual recessão/depressão está durando um período extraordinariamente longo (dez trimestres) e tem sido inacreditavelmente profunda (queda acumulada de 10,3% no PIB per capta)", ressalta em relatório, apontando que essa retração supera a da chamada "década perdida" dos anos 80, quando o PIB encolheu 7,6%.

O economista-chefe do Banco Votorantim, Roberto Padovani, admite que pode ter havido um otimismo exagerado do mercado financeiro quando Michel Temer assumiu a presidência da República, mas também diz que alguns fatores pontuais ajudaram o PIB do segundo trimestre e levaram, naquele momento, a uma melhora das perspectivas para a economia brasileira. Entre esses fatores estava a recuperação na indústria e a recomposição de estoques.

Mesmo assim, ele ainda tem uma visão positiva sobre a economia brasileira. Segundo ele, os principais motores para a retomada do crescimento serão a queda da inflação - que abre espaço para a redução dos juros - e a melhora da confiança de empresas e famílias. Isso deve permitir uma recuperação do crédito e da renda, estimulando consumo e investimentos. Padovani vê um ciclo longo e profundo de queda da Selic, que deve terminar o próximo ano em um dígito, ante o patamar atual de 14%. O economista diz ainda que não se pode subestimar as reformas que estão sendo feitas pelo governo, inclusive microeconômicas, e que isso deve gerar no longo prazo uma melhora na produtividade e no crescimento.

Outros analistas, no entanto, tem uma análise bem menos otimista. O professor de economia do Insper Otto Nogami previa queda de 0,6% do PIB no próximo ano, isso antes do dado de hoje. "Quando Michel Temer assumiu, criou-se uma expectativa muito grande de recuperação e retomada do crescimento, mas até agora não houve nada concreto em termos de política econômica, ficou tudo no âmbito da intenções. O governo está em um estado de inanição", afirma. O sócio-diretor da Global Financial Advsor, Miguel Daoud, também chama atenção para a influência do componente político sobre a economia. Para ele, "há uma incapacidade da equipe econômica para reverter os ganhos de confiança em crescimento econômico no presente, no curto prazo".

Já Flávio Serrano, economista-sênior do Haitong, chama atenção para o carry over negativo deixado pelo PIB de 2016. Segundo ele, os dados de hoje geram um carrego de -0,6% para o próximo ano. Com uma nova contração esperada no quarto trimestre, o legado negativo será ainda pior. "Nossa previsão de alta de 0,5% para o PIB de 2017 que era pessimista está ficando otimista", resume.

Os números divulgado hoje pela IBGE reforçam o pessimismo para os próximos trimestres. Os investimentos, medidos pela formação bruta de capital fixo, caíram 3,1% na margem, após terem subido 0,4% no segundo trimestre, interrompendo então uma sequência de dez trimestres negativos. "A FBCF era um item que vinha em uma trajetória mais favorável, até ficou positivo no segundo trimestre, mas agora piorou de novo. Pode ser algo pontual, mas ainda assim é negativo", diz Takeda, da Pezco. /ÁLVARO CAMPOS, MARIA REGINA SILVA, ALTAMIRO SILVA JUNIOR, FRANCISCO CARLOS DE ASSIS, THAÍS BARCELLOS

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