'PIB do Banco Central está mais realista'

Consultor acha que nem mesmo banco levava a projeção anterior de 2,5% de crescimento da economia tão a sério

Entrevista com

FERNANDO DANTAS/RIO, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2012 | 03h06

Para José Júlio Senna, sócio-diretor da MCM Consultores, o Relatório de Inflação, divulgado ontem, indica estabilidade de inflação até 2013, o que dever reduzir as apostas numa alta da Selic no próximo ano.

Como o sr. viu o Relatório de Inflação, com a queda da projeção de crescimento em 2012 de 2,5% para 1,6%?

Qualquer pessoa que faz conta sabe que os 2,5% não era um número factível. Agora, o Banco Central trabalha explicitamente com um número bem mais realista, quanto a isso não há dúvida. Nem sei até que ponto o Banco Central efetivamente levava o número anterior tão a sério.

O que o sr. achou das projeções de inflação?

No cenário de referência, com juros constantes, as projeções centrais da inflação do IPCA estão em 5,2% para 2012, 4,9% para 2013, e 5,1% até o terceiro trimestres de 2013. São projeções, grosso modo, de uma inflação bem estável. Então o Banco Central espera uma certa estabilidade na inflação, e não espera grandes alterações até onde a vista alcança. Diante da imprecisão de estimativas desta natureza, não há grande diferença entre 4,9% e 5,1%. É uma inflação rodando perto de 5%.

Quais as implicações disso para a política monetária?

Diminui bastante a aposta que se faz em mercado de alta da Selic ao longo de 2013. Tira um pouco o gás desta hipótese. O Banco Central há muito tempo tem dado sinais de que não persegue a ferro e fogo o centro da banda de inflação. A inflação de 2012 não tem tanta importância, porque não tem muito o que fazer. As defasagens de política monetária impedem que se altere significativamente a inflação deste ano, dado que só falta um trimestre. Mas quando se olha uma inflação de 5% lá para a frente, e as projeções não se alteram muito no cenário de mercado, isso diminui bastante as apostas na alta da Selic.

Como o sr vê o ritmo da atividade econômica daqui para a frente?

Eu não vejo como possa haver uma aceleração muito substancial, nem lá fora nem aqui dentro. Continuo achando muitíssimo preocupante a situação no exterior. A economia americana ainda não mostrou gás, a demanda lá não anda, a China está em desaceleração. Os dados da Organização Mundial do Comércio (OMC) mostram que o comércio mundial em volume crescia há dois anos e meio a um ritmo de 13% a 14%, e agora está crescendo 4%. Esse tipo de coisa, aliás, ajuda a controlar a inflação brasileira.

Que mais o sr. destacaria no Relatório de Inflação divulgado ontem pelo Banco Central?

Uma preocupação minha que mereceu menção no Relatório foi a questão dos investimentos, que cai pelo quarto trimestre consecutivo. É de fato um problema, porque o crescimento dos preços industriais não cresce no mesmo ritmo do custo de produção das empresas. E essa política de apoio discricionário e ad hoc, de incentivos para determinados setores, traz muita incerteza. Pode animar o empresário de um ou outro setor, mas contribui para uma certa apatia dos investimentos como um todo, porque o empresário fica sem saber como fazer as contas. Isso introduz um elemento de risco adicional.

Com o sr vê a ajuda na queda do custo de energia ao controle da inflação no próximo ano?

De fato ajuda, mas as tarifas de eletricidade evidentemente não devem ser estabelecidas de olho no comportamento da inflação futura, porque tarifa elétrica não é instrumento de combate à inflação. Instrumento de combate à inflação é a taxa básica de juros. Essas considerações que volta e meia vemos os governantes fazendo, sobre a contribuição de determinados itens à redução da inflação, como desoneração de cesta básica, me preocupam. Interferências no sistema de preço aumentaram muito nos últimos tempos, segura-se o preço da gasolina, por exemplo.

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