PIB do próximo ano depende de petróleo e minério

Os economistas que se debruçam sobre dados de crescimento apostam que o Produto Interno Bruto, o PIB, brasileiro em 2015 será sustentado por dois setores bem tradicionais da economia, ligados à exportação de matérias-primas. São eles, o petróleo e o minério de ferro. Enquanto o País deve crescer algo como 0,2% neste ano, petróleo e mineração, juntos, caminham para fechar 2014 com expansão de 5%. A perspectiva é que cresçam outros 4% no ano que vem, também acima do PIB do País, que tende a ficar próximo de 1%.

ALEXA SALOMÃO, Estadão Conteúdo

30 de novembro de 2014 | 09h09

O economista Irineu de Carvalho Filho, da área de Pesquisa Econômica do Banco Itaú BBA, explica a razão: "O que conta no cálculo do PIB é a quantidade produzida, e ambos os setores têm investimentos e contratos que vão se materializar".

À luz do que ocorreu nas últimas semanas, a aposta parece um grande contrassenso. Os preços dos dois produtos estão em queda no mercado internacional, sem perspectiva de recuperação no curto prazo. O barril de petróleo em Londres fechou a semana cotado a US$ 70. Em junho chegou ao pico de US$ 115. A Organização de Países Exportadores de Petróleo (Opep), que responde por um terço da produção mundial e regula a oferta e os preços, sinalizou que não vai intervir.

O minério de ferro está custando US$ 68 a tonelada. Recentemente, o Citibank previu que ele pode cair a US$ 55, em parte porque a China está super estocada. Nos setores de extração mineral, se o preço ficar baixo, pode não cobrir o custo de produção e provocar o fechamento de minas ou transformar poços em fontes de prejuízo.

Há outra questão que lança dúvidas sobre o potencial de concretização de tal tendência. No Brasil, quando se trata de minério de ferro e de petróleo, indiretamente o que está sendo considerado é a capacidade de expansão de produção de duas empresas, a da Vale, maior produtora global de minério de ferro, e a da Petrobrás, maior estatal brasileira. Hoje a Petrobrás é pivô de escândalos que colocam em xeque a sua gestão e a capacidade de investimentos.

Entre os descrentes em relação ao potencial dessas matérias-primas está o economista Vinicius Carrasco, professor e pesquisador da PUC-Rio. Carrasco é coautor de um estudo que avaliou as razões para o baixo crescimento do PIB, intitulado "A Década Perdida 2003-2012". "Investimentos em expansão foram feitos, mas, quando a gente olha o comportamento do resto do mundo, nada indica que a demanda vai compensar o aumento de capacidade instalada no curto prazo".

Um exemplo da complicada relação entre preço e produção está aqui mesmo, no pré-sal. Se o preço do barril do petróleo cair abaixo de US$ 60, pode comprometer a exploração dessa área. "Também não temos garantias de que a Petrobrás conseguirá levar a cabo os planos de investimento", diz Carrasco.

Previsão de alta. As apostas em petróleo e mineração levam em conta que os setores vivem uma retomada consistente e vão mantê-la em 2015, em parte por causa das características da Vale e da Petrobrás.

A Petrobrás de fato vive um momento de depuração. Tem vários projetos atrasados e outros enroscados nas denúncias da operação Lava Jato. A capacidade de refino e a oferta da matéria-prima não acompanharam o crescimento da demanda de combustíveis, forçando a Petrobrás a importar. Apenas na semana que passou, o preço da sua ação acumulou queda de 10%. No entanto, a estatal tem uma expertise ímpar na exploração de petróleo em águas profundas. No ano que vem, espera-se a entrega de projetos importantes, como a Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, que está atrasada.

O ritmo neste fim de ano reforça essa boa expectativa. Em outubro, a estatal bateu o recorde mensal de produção dos últimos quatro anos, com extrações do pré-sal. Nas três primeiras semanas de novembro, o petróleo foi o principal produto das exportações brasileiras. A empresa também é movida pelo instinto de sobrevivência para expandir a produção. "Tem uma dívida de US$ 110 bilhões e precisa gerar caixa para cumprir compromissos", diz Pedro Galdi, analista-chefe de investimento da SLW Corretora de Valores e Câmbio.

No caso do minério de ferro, a grande aposta é a Vale. Além de a empresa ter na mina de Carajás o melhor minério de ferro do mundo, o que reduz os custos de produção, conta com um sistema próprio de logística extremamente azeitado. "A Vale pode tirar o minério do meio da selva no Brasil e entregar na China ao custo de US$ 50 a tonelada", diz Galdi. Outras empresas ficam inviáveis quando o preço baixa de US$ 80.

O setor mineral responde por 18% da balança comercial brasileira e o minério de ferro, por cerca de 80% da pauta de bens minerais do País. O Brasil ocupa a 3.ª posição mundial como produtor, atrás apenas da China e dos Estados Unidos. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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