Nilton Fukuda/Estadão - 28/11/2019
Consumo das famílias aumentou 0,8% no terceiro trimestre. Nilton Fukuda/Estadão - 28/11/2019

Consumo das famílias e investimentos puxam alta de 0,6% no PIB do terceiro trimestre

Setor externo e consumo do governo tiveram contribuição negativa para o resultado da atividade econômica, aponta o IBGE

Daniela Amorim, Mariana Durão e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2019 | 09h04
Atualizado 04 de dezembro de 2019 | 11h02

RIO - A economia brasileira seguiu seu caminho de recuperação, ainda que lenta, no terceiro trimestre do ano, quando o Produto Interno Bruto (PIB, valor de todos os bens e serviços produzidos em determinado período) avançou 0,6% em relação ao segundo trimestre do ano, informou nesta terça-feira, 3, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O resultado veio dentro do intervalo das estimativas dos analistas consultados pelo Projeções Broadcast (de 0,30% a 0,70%), mas acima da mediana, de 0,40%.

O avanço de 0,6% no terceiro trimestre ante o segundo trimestre do ano foi a maior variação nessa base de comparação desde o primeiro trimestre de 2018, quando a alta foi de 0,7% ante o quarto trimestre de 2017.

Na comparação com o mesmo período de 2018, a alta foi de 1,2%. O resultado ficou acima da expectativa inicial dos analistas, que elevaram suas previsões para o fechamento do ano. A estimativa passou de 1% para 1,2%.

Esse número corresponde à mediana de projeções de um universo de 24 instituições financeiras consultadas pelo Projeções Broadcast. As estimativas vão de um piso de 1% até a máxima de 1,3%. Não houve, porém, mudança para o cenário de 2020. O mercado manteve a aposta de uma variação de 2,3% (considerando a mediana) para o PIB no próximo ano.

Em janeiro, os analistas chegaram a estimar um avanço de até 2,6% para o PIB neste ano, embalados pela expectativa de que o governo pudesse, entre outras medidas, negociar no Congresso a aprovação de reformas consideradas necessárias – o que aconteceu apenas no caso da Previdência. Coordenadora de Contas Nacionais do IBGE, Rebeca Palis, classificou a recuperação da economia como “uma melhora mais ou menos contínua, mas não muito acelerada”. 

O crescimento foi puxado, sob a ótica da demanda, pelo consumo das famílias e pelos investimentos, enquanto o setor externo e o consumo do governo tiveram contribuição negativa para a atividade econômica, afirmou a coordenadora de Contas Nacionais do IBGE, Rebeca Palis.

A pesquisadora lembrou que o consumo das famílias responde por 65% do PIB e, por isso, as altas de 0,8% ante o segundo trimestre deste ano e de 1,9% sobre o terceiro trimestre de 2018 sustentam o crescimento do PIB. O consumo das famílias foi impulsionado pela recuperação gradual do mercado de trabalho - que, mesmo sustentada pela informalidade, permitiu o crescimento real da massa salarial real -, pela inflação comportada, pela expansão do crédito para as famílias e pelo nível mais baixo dos juros.

"Realmente, vimos um crescimento bastante grande do crédito voltado para as famílias", afirmou Rebeca, citando o crescimento nominal de 15,5% no saldo das operações de crédito com recursos livres para pessoas físicas, conforme os dados do Banco Central.

Além disso, o crescimento do consumo das famílias teve a contribuição da liberação de saques do FGTS, que começou em setembro. Para a pesquisadora do IBGE, como ocorreu apenas em um mês do trimestre, esse efeito pontual foi menor do que os demais fatores.

Segundo economistas, o consumo privado deverá seguir puxando a economia até o fim do ano, deixando para trás as estimativas mais pessimistas para o PIB de 2019. Desde julho, as projeções de mercado para o crescimento econômico deste ano vêm sendo revistas para cima – após passarem de 2,57%, em janeiro, para 0,81%, conforme o Boletim Focus, do Banco Central (BC) – e, hoje, estão em torno de 1,0%

Impulso para o consumo

A lenta recuperação do mercado de trabalho – que, mesmo com a geração de vagas puxada pelo setor informal e com o crescimento tímido da renda, garante alguma elevação no dinheiro total disponível para gastar –, a inflação comportada e os juros nas mínimas históricas dão suporte para o avanço no consumo, que recebeu ainda um anabolizante: a liberação de saques do FGTS.

Autorizados a partir de setembro, ou seja, ainda no terceiro trimestre, os saques de R$ 500 por conta do FGTS foram permitidos para todos os trabalhadores. Inicialmente, o cronograma proposto pelo governo federal distribuiria os saques entre o fim de 2019 e o início de 2020, mas a Caixa antecipou as datas, ampliando o valor total a ser liberado ainda este ano.

Em outubro, o Ministério da Economia estimava que a antecipação liberaria R$ 12 bilhões para impulsionar as vendas de Natal, valor que sobe para R$ 14,5 bilhões quando somado com o pagamento de R$ 2,5 bilhões do 13.º para os beneficiários do Bolsa Família. 

Segundo a economista Silvia Matos, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), a lenta melhoria do mercado de trabalho e a expansão do crédito já permitiriam um aumento do consumo das famílias, mas a liberação do FGTS levará o crescimento do principal componente do PIB pelo lado da demanda ao ritmo médio de 1,0% por trimestre na segunda metade do ano.

“R$ 500 pode parecer pouco, mas, dado que a renda real vem crescendo pouco e que não houve reajuste real para o salário mínimo, os saques do FGTS são um ganho real”, afirma Silvia.

O Ibre/FGV projetava um crescimento de 1,3% no consumo das famílias no quarto trimestre, em relação ao trimestre imediatamente anterior, antes de conhecer os dados divulgados nesta terça, pelo IBGE.

O problema, segundo a pesquisadora do Ibre/FGV, é que esse ritmo de crescimento do consumo das famílias de 1,0% por trimestre, esperado para a média da segunda metade deste ano, tende a não se sustentar. A recuperação lenta do mercado de trabalho e a expansão do crédito, com juros baixos, deverão seguir impulsionando o consumo em 2020, mas a um ritmo próximo de 0,5% por trimestre.“Com o crescimento só pautado em consumo e serviços, fica difícil ter mais tração”, afirma a economista Andressa Durão, da gestora Icatu Vanguarda. Para ela, passados os efeitos pontuais da liberação do FGTS, fatores estruturais, como a queda do juro, devem começar a impulsionar a economia, mas o desemprego elevado e a renda contida devam seguir limitando um crescimento mais robusto.

Pelo lado da oferta, o consumo das famílias impulsionou o PIB de serviços, que avançou 0,4% na comparação com o segundo trimestre deste ano e 1% em relação ao terceiro trimestre de 2018. O comércio registrou alta de 1,1% ante o trimestre imediatamente anterior.

O PIB da indústria avançou 0,8% no terceiro trimestre em relação ao período imediatamente anterior, com variações divergentes entre os segmentos. A indústria da transformação encolheu 1%, enquanto a indústria extrativa avançou 12%. Foi a maior alta nessa base de comparação desde o quarto trimestre de 2003, quando o avanço em relação ao terceiro trimestre daquele ano foi de 12,2%.

Segundo a coordenadora de Contas Nacionais do IBGE, Rebeca Palis, o desempenho da indústria extrativa foi puxado pela alta da produção de petróleo e gás, com destaque para o pré-sal. Ainda afetada pelo rompimento da barragem da Vale em Brumadinho (MG), ocorrida em janeiro, a produção de minério de ferro segue caindo, embora em menor escala, o que também contribuiu para o avanço da indústria extrativa. 

“É um efeito conjunto: o minério caiu menos e o petróleo e gás cresceu bastante”, afirmou Palis, ressaltando que o efeito do petróleo foi maior porque essa atividade representa 65% da indústria extrativas.

O crescimento da construção civil, puxado pelo setor imobiliário, se refletiu, pelo lado da demanda, no avanço de 2% da formação bruta de capital fixo (FBCF, conta dos investimentos no PIB) na passagem do segundo para o terceiro trimestre. Na comparação com o terceiro trimestre de 2018, os investimentos cresceram em 2,9%.

“É o setor (a construção civil) que está realmente fazendo uma diferença. Temos bons números de lançamentos de novos imóveis, de início de novas construções, além das concessões que devem significar um impulso na infraestrutura”, diz o economista-chefe do Banco BRP, Nelson Rocha Augusto.

Ainda assim, Matos, pesquisadora do Ibre/FGV, acha que um cenário de atividade econômica crescendo puxada pelos investimentos ficará para 2021. Mesmo na construção, os investimentos estão mais localizados no segmento imobiliário de alto padrão e a alta recente do dólar pode inibir aportes em máquinas e equipamentos importados. / COLABORARAM THAÍS BARCELLOS E CÍCERO COTRIM

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Com revisão na agropecuária e nos serviços, IBGE faz ajuste no PIB de 2018

Alta no ano passou de 1,1% para 1,3%; dados do censo agropecuário mudaram pesos e influenciaram resultados anual e trimestrais do setor

Daniela Amorim, Mariana Durão e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2019 | 10h56

RIO - A expressiva revisão da alta do Produto Interno Bruto (PIB) agropecuário de 2018 de 0,1% para 1,4%, divulgada nesta terça-feira, 3, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), foi reflexo da incorporação dos resultados de pesquisas estruturais anuais como a Produção Agrícola Municipal (PAM) e a Pesquisa Pecuária Municipal (PPM), alterando a mudança das fontes primárias utilizadas para o cálculo. 

Também houve influência do Censo Agropecuário, que provocou ajustes nas pesquisas estruturais anuais da agropecuária e mudou pesos, o que acabou influenciando ainda as revisões trimestrais do PIB agropecuário de 2019 e o resultado anual de 2018.

De acordo com a coordenadora de Contas Nacionais do IBGE, Rebeca Palis, culturas como feijão, milho, café, laranja, soja e cana cresceram mais nas pesquisas estruturais de 2018 do que no Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA).

"Todas essas culturas pela pesquisa anual tiveram crescimento mais alto do que tinha sido estimado antes pela LSPA", explicou. "Essa revisão (da agropecuária) realmente foi mais significativa do que ocorre normalmente."

A revisão na agropecuária e nos serviços foi responsável pelo ajuste para cima do resultado do PIB brasileiro de 2018, em 0,2 ponto porcentual. Com isso, a atividade econômica passou de uma expansão de 1,1% para 1,3% naquele ano.

Na comparação com o mesmo trimestre do ano anterior, o PIB da agropecuária foi revisto de uma queda de 0,1% no primeiro trimestre de 2019 para avanço de 0,9%. No segundo trimestre de 2019, a alta passou de 0,4% para 1,4%.

"A diferença tem a ver com o censo, porque você captou melhor o que está acontecendo, aí os pesos mudam", explicou Rebeca, lembrando que também houve revisões nas estimativas mais recentes do Levantamento Sistemático da Produção Agrícola, com divulgação mensal.

Ainda na comparação com o mesmo trimestre do ano anterior, houve revisão significativa no primeiro trimestre de 2019 na exportação de bens e serviços, que passou de alta de 1,0% para queda de 1,6%. No segundo trimestre de 2019, as exportações saíram de aumento de 1,8% para 1,3%.

"Foi revisão nos dados primários da exportação, nos dados da Secex (Secretaria de Comércio Exterior do Ministério da Economia). A gente leu que teve um problema no Serpro (Serviço Federal de Processamento de Dados) e vai ter revisão maior também. Geralmente também não acontece", disse a coordenadora do IBGE. 

 

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PIB de 0,6% veio em boa hora, previsão para o 4º trimestre é de nova alta, diz Bolsonaro

Presidente disse que 'boa notícia' é 'algo inesperado para os analistas econômicos'

Mateus Vargas, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2019 | 10h51

BRASÍLIA - O presidente Jair Bolsonaro disse nesta terça-feira, 3, que sua equipe econômica já esperava uma "boa notícia" sobre o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e que a previsão é de nova alta para o quarto trimestre.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou que o PIB avançou 0,6% no terceiro trimestre em relação ao anterior. O resultado veio dentro do intervalo das estimativas dos analistas consultados pelo Projeções Broadcast (de 0,30% a 0,70%), mas acima da mediana, de 0,40%. 

"É algo inesperado para os analistas econômicos, mas da nossa parte sabíamos que viria uma boa notícia. Ela veio em boa hora. E a nossa equipe diz que previsão para o quarto trimestre é crescer. O Brasil está crescendo", afirmou o presidente.

Bolsonaro disse que assumiu o governo em crise "ética, moral e econômica bastante grave". "Com o trabalho de conselheiros estamos obtendo sucesso", afirmou.

As declarações de Bolsonaro forma feitas em evento sobre combate à corrupção promovido pela Controladoria-Geral da União (CGU).

Mais cedo, em frente ao Palácio da Alvorada, o presidente disse que traria nesta terça uma boa notícia. Durante o evento, ele anunciou que se tratava do resultado do PIB e errou ao afirmar que a imprensa ainda não havia divulgado o crescimento.

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Análise: Dados do PIB mostram retomada insustentável no médio prazo

Setor que gera maiores encadeamentos na cadeia produtiva, indústria de transformação continua em crise

José Luis Oreiro*, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2019 | 09h54

Os dados do PIB do terceiro trimestre de 2019 divulgados nesta terça-feira, 3, pelo IBGE mostram uma economia que parece estar ganhando algum ímpeto de crescimento, mas ainda apresenta ritmo muito baixo de expansão. Na comparação com o segundo trimestre de 2019, o PIB cresceu 0,6%, ao passo que na comparação com o mesmo trimestre de 2018 o crescimento foi de 1,2%, número inferior ao valor revisado do crescimento do PIB de 2018, que foi de 1,3%.

Além disso, uma análise mais cuidadosa dos dados levanta algumas dúvidas pertinentes sobre a qualidade e, mais importante, sobre a sustentabilidade dessa aceleração do ritmo de crescimento. 

No lado da oferta os dados do IBGE mostram que o crescimento foi puxado pela agropecuária, com expansão de 1,3% no trimestre e pela indústria com expansão de 0,8%. Quando desagregamos os dados da expansão da indústria verificamos, contudo, que a expansão foi liderada pela indústria extrativa, com expansão de 12% e pela construção civil, com alta de 1,3%.

A indústria de transformação apresentou uma queda de 1,0% na comparação com o segundo trimestre de 2019, resultado da fraqueza da demanda doméstica combinada com a queda das exportações de manufaturados devido a crise da Argentina e a redução do ritmo do crescimento do comércio mundial. O setor que gera maiores encadeamentos para frente e para trás na cadeia produtiva, a indústria de transformação, continua em crise. 

Do lado da demanda o que chama mais atenção é a queda de 2,8% nas exportações de bens e serviços e o aumento de 2,9% das importações. Esses dados indicam uma deterioração expressiva do saldo da balança comercial, acendendo o sinal de alerta para 2020, em função do elevado déficit em conta corrente como proporção do PIB, que atingiu 3% no acumulado dos últimos 12 meses até outubro de 2019. Nessa toada o crescimento da economia brasileira em 2020 pode ser abortado pela chegada do General Restrição Externa. 

*Professor do departamento de Economia da Universidade de Brasília, Pesquisador Nível IB do CNPq e líder do grupo de pesquisa Macroeconomia Estruturalista do Desenvolvimento, cadastrado no CNPq

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    Análise: PIB de 0,6% traz esperança de que crescimento, enfim, tenha engrenado

    Números do IBGE mostram um crescimento disseminado por quase todos os setores

    Alexandre Calais*, O Estado de S.Paulo

    03 de dezembro de 2019 | 09h55

    A alta de 0,6% do PIB no terceiro trimestre, número acima do esperado pelo mercado (0,4%), reacende as esperanças de que o Brasil tenha, enfim, engrenado um ritmo de crescimento mais sólido que possa desembocar, mais à frente, na melhora da nossa maior mazela atual: o alto desemprego, que ainda afeta mais de 12 milhões de pessoas.

    Os números divulgados nesta terça-feira, 3, pelo IBGE trazem dados alentadores. O crescimento da atividade econômica foi disseminado por praticamente todas as áreas. A indústria registrou um aumento de 0,8%, o melhor resultado desde o segundo trimestre de 2014, puxado pela indústria extrativa, embora a indústria de transformação tenha recuado mais uma vez (-1%). Os serviços cresceram 0,4%, o comércio subiu 1,1%, a agropecuária cresceu 1,3%. O consumo das famílias, turbinado pela liberação do FGTS e pela queda dos juros, teve uma alta de 0,8%. O que caiu foi  o consumo do governo: -1,4%. Mas, até aí, nenhuma surpresa. O governo simplesmente não tem dinheiro pra gastar.

    Outros indicadores trazem a perspectiva de que a economia se prepara para um ritmo de expansão maior. A taxa de investimentos (no jargão do IBGE, a formação bruta de capital fixo, ou FBCF) cresceu 2%, atingindo o patamar de 16,3% do PIB no terceiro trimestre. Ainda um nível muito baixo, claro. É só lembrar que a taxa de investimento médio no mundo, em 2018, foi de 26,2% do PIB, e, nos países emergentes, de 32,8%. Mesmo assim, é um dado importante, ainda mais se levarmos em conta que essa foi a oitava alta consecutiva nesse indicador.

    O IBGE ainda revisou alguns dados anteriores. O PIB do primeiro trimestre foi de -0,1% para 0%. O do segundo trimestre, de 0,4% para 0,5%. E o de 2018, de 1,1% para 1,3%. Somados, todos esses números devem provocar uma revisão nas perspectivas para o crescimento da economia este ano, hoje na casa do 1%, e provavelmente também nas projeções para 2020.

    Não dá para dizer que o Brasil resolveu seus problemas econômicos, longe disso. Ainda há um longo caminho pela frente. Aprovamos uma importantíssima reforma da Previdência este ano, mas é preciso mais. As reformas tributária e administrativa precisam sair do papel, são fundamentais para se destravar a economia. O pacote de privatizações precisa deslanchar - é o meio mais eficiente e rápido de atrair investimentos e criar empregos. Mas ver o PIB voltar a crescer num ritmo mais forte é, sem dúvida, uma injeção de ânimo.

    *Editor de Economia

     

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    Saque do FGTS contribuiu para avanço do PIB, diz Ministério da Economia

    Ministério da Economia afirma que dados do quarto trimestre sinalizam 'recuperação consistente' e destaca impacto da liberação de saques do FGTS

    Eduardo Rodrigues e Mateus Vargas, O Estado de S.Paulo

    03 de dezembro de 2019 | 11h21

    BRASÍLIA -  O Ministério da Economia apontou nesta terça-feira, 3, que, com a alta de 0,6% do Produto Interno Bruto (PIB) no terceiro trimestre, o carregamento estatístico – o chamado "carryover", no jargão econômico – ficou em 0,98% para este ano. Isso significa que, se a economia mantiver o atual ritmo de expansão no quarto trimestre, esse será o crescimento do PIB em 2019.

    O presidente Jair Bolsonaro foi na mesma linha e disse que o crescimento registrado pela economia brasileira no terceiro trimestre "veio em boa hora" e que a previsão do governo é de que o País vai manter o ritmo de crescimento no quarto trimestre.

    "Pode ser inesperado para os analistas econômicos, mas da nossa parte sabíamos que viria uma boa notícia. Ela veio em uma boa hora, e a minha equipe econômica, a nossa equipe econômica, diz que a previsão para o quarto trimestre é crescer. O Brasil está crescendo", disse Bolsonaro durante abertura de evento promovido pela Controladoria Geral da União (CGU) para discutir o combate à corrupção.

    O Ministério da Economia informou que indicadores disponíveis do 4º. trimestre de 2019 sinalizam continuidade do movimento de "recuperação consistente" da economia brasileira. "A confiança continua em alta, com as melhores condições de emprego, de crédito e inflação sob controle. Espera-se boas vendas de Natal, superando os resultados dos últimos anos”, avaliou a Secretaria de Política Econômica (SPE) da pasta.

    A secretaria destacou a liberação dos saques do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), anunciada pelo governo no fim de julho. “A economia brasileira manteve a trajetória de recuperação da atividade, com aceleração da retomada do crescimento, ratificando o aumento da confiança dos setores de serviços e varejo e dos consumidores que se iniciou após julho, momento de anúncio do Novo FGTS. Destaca-se o crescimento robusto do investimento e a retomada do consumo das famílias, enquanto o gasto do governo retraiu novamente”, avaliou a SPE.

    Segundo o documento, agosto foi o “fundo do poço” para o PIB, com a retomada do crescimento a partir de setembro, justamente com o início dos saques das contas do FGTS.

    O documento cita ainda os resultados das vendas da Black Friday na última sexta-feira, 29, com alta de 6,4% em relação à data em 2018.  Para a SPE, as medidas estruturais de correção de má alocação de recursos e a posição firme do governo em cumprir as metas fiscais se refletem na melhoria da confiança de consumidores e empresários.

    “Os efeitos dessas medidas se propagarão para 2020 e o PIB do setor privado continuará acelerando, confirmando um crescimento substancialmente superior ao observado nos últimos anos. O resultado divulgado hoje mostra o aquecimento da economia, que deverá ser reforçado no final deste ano. Desse modo, o Natal de 2019 deverá ser o melhor dos últimos anos”, completa a SPE.

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    Com alta de 0,6% do PIB, economistas revisam para cima projeções para 2019 e 2020

    Citi eleva previsão para crescimento da economia este ano de 0,7% para 1,1% e Goldman Sach estima avanço de 1,2%

    Altamiro Silva Junior e Cícero Cotrim, O Estado de S.Paulo

    03 de dezembro de 2019 | 11h39

    O crescimento de 0,6% do Produto Interno Bruto (PIB) no terceiro trimestre, número acima do esperado pelo mercado (0,4%), provoca uma nova onda de revisões das previsões para o crescimento da economia, tanto este ano quanto em 2020. O Citi, por exemplo, elevou sua previsão para o desempenho da economia este ano de uma alta de 0,7% para 1,1%. Para o ano que vem, a previsão subiu de 1,8% para 2,2%.

    O Goldman Sachs também elevou suas projeções. A alta prevista para este ano foi de 1% para 1,2%, enquanto a estimativa para 2020 passou de 2,2% para 2,3%.  O economista-chefe do Goldman para a América Latina, Alberto Ramos, destaca que a demanda doméstica, puxada pela aceleração do consumo privado e um "robusto" crescimento do investimento ajudaram a fazer o PIB do terceiro trimestre avançar no topo das previsões, com alta de 0,6%.

    O economista Rafael Ihara, da Mauá Capital, não anunciou novas projeções para o PIB, mas disse que  o resultado do terceiro trimestre e as revisões nos números anteriores feitas pelo IBGE (o crescimento da economia em 2018 passou de 1,1% para 1,3%, o do segundo trimestre deste ano passou de 0,4% para 0,5%, enquanto o primeiro trimestre foi de -0,1% para 0%) indicam que a economia pode crescer mais do que as suas projeções atuais, de 1% em 2019 e de 2,4% em 2020.

    Segundo o economista, a expansão mais forte da economia de julho a setembro não é só efeito de fatores pontuais, como a liberação do FGTS. "Estamos vendo melhora em vários fundamentos." Ihara acrescenta que os recursos do FGTS devem impulsionar a atividade também do quarto trimestre, que deve ter bom desempenho, conforme mostram os primeiros indicadores antecedentes.

    Para o economista chefe para mercados emergentes da consultoria inglesa Capital Economics, William Jackson  o crescimento do PIB no terceiro trimestre sinaliza que a recuperação da economia brasileira está ganhando fôlego, puxada pela demanda doméstica. "No geral, os dados sugerem que a retomada está ganhando algum fôlego", diz. E ressalta que o quarto trimestre deve ter economia ainda mais forte, conforme já vem sendo sinalizado por alguns dados que vêm sendo divulgados.

     

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    Análise: Crescimento acelera no segundo semestre e deve se manter em 2020

    Liberação de recursos do FGTS e melhora no setor de construção devem contribuir para a atividade econômica no último trimestre do ano

    José Ronaldo de C. Souza Jr.*, O Estado de S.Paulo

    03 de dezembro de 2019 | 13h05

    Como esperado, está havendo uma aceleração da atividade econômica neste segundo semestre. Porém o resultado do terceiro trimestre veio acima do que se esperava anteriormente, em parte, devido à revisão do PIB anual de 2018 - que altera toda a série à frente.

    O último trimestre do ano pode ter um crescimento ainda mais alto, a liberação de recursos do FGTS contribui nesse sentido. O setor de construção também tende a continuar a se recuperar. Ainda assim, o PIB de 2019 deve fechar com alta de pouco mais de 1%, crescimento ainda baixo.

    Para o ano que vem, alguns fatores devem influenciar positivamente o PIB. O primeiro e mais óbvio é a taxa de juros, que está em patamar historicamente baixo. Com a redução da rentabilidade dos ativos financeiros, há um estímulo maior à exposição ao risco e, por conseguinte, deve-se aumentar o direcionamento de recursos privados para investimentos produtivos.

    Apesar da ociosidade do capital em diversos setores da economia, temos oportunidades de investimentos em infraestrutura e em segmentos que estão com capital depreciado ou desatualizado.

    O segundo fator positivo para o PIB é o crescimento esperado para dois setores importantes para o país: agropecuária e indústrias extrativas. Os prognósticos da safra 2019/2020 do IBGE e da Conab e as perspectivas do Ipea em relação à produção de carnes são muito positivos. As indústrias extrativas, por sua vez, devem crescer devido à alta da produção de minério de ferro em Carajás e à entrada em operação de novas plataformas de petróleo.

    Os riscos para esse cenário positivo estão relacionados à continuidade da agenda de reformas econômicas, essenciais para o equilíbrio fiscal de longo prazo e para aumentar a nossa competitividade, e ao ambiente econômico internacional. Os países vizinhos da América Latina estão passando por graves turbulências políticas e econômicas e a guerra comercial entre os EUA e a China ainda não foi resolvida e pode ter impactos negativos para a economia mundial.

    *Diretor de Estudos e Políticas Macroeconômicas do Ipea  

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