PIB, estatísticas e biquínis

''''As estatísticas são como o biquíni: o que revelam é interessante, mas o que ocultam é essencial'''' (Roberto Campos) Uma questão que tem passado quase despercebida na análise do desempenho da economia brasileira, baseado nas contas nacionais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é que o setor externo, dado pelo resultado líquido das exportações e importações, tem dado uma contribuição negativa para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). Nos 12 meses acumulados até junho, o setor externo contribuiu negativamente em 1,7 ponto porcentual para o crescimento da economia. Os resultados das importações (-2,7) e exportações (1,0) denotam que o setor externo tem ''''roubado'''' uma parcela expressiva da atividade interna . Esse desempenho é um resultado decorrente das desvantagens competitivas da economia brasileira, relativamente à média internacional. Fatores como carga tributária elevada, infra-estrutura e logística caras e ineficientes, excesso de burocracia, crédito e financiamento onerosos afetam negativamente a competitividade sistêmica da economia, prejudicando o clima para investimentos e produção. Tudo isso tem sido agravado pela persistente valorização do real. O dólar barato dificulta nossas exportações, especialmente aquelas de maior valor agregado, como também estimula a substituição da produção local por importações. Isso vem ocorrendo em todos os subsetores da indústria. Nos primeiros 5 meses do ano, enquanto a indústria de transformação cresceu 4,4%, as importações nessa área cresceram 22%. Mesmo em setores dinâmicos, como no setor de máquinas e equipamentos, que, no mesmo período, cresceu 16,5%, as importações aumentaram 46%. Trata-se de uma questão relevante. O desafio brasileiro não é apenas crescer, mas crescer de forma sustentada e baseada em valor agregado de qualidade. Cada vez que se aumenta o conteúdo importado, perdem-se oportunidades de geração de emprego, renda e capacidade tecnológica para a produção local, o que contribui negativamente para o PIB. Há um aspecto perverso ainda no que se refere ao papel das importações. O consumo das famílias tem sido o item que mais tem contribuído para o crescimento. No acumulado de 12 meses até junho o consumo das famílias contribuiu com 3,1 pontos porcentuais para o total de 4,8% do crescimento da economia. O consumo tem sido estimulado não apenas pelo crescimento de 7,8% da massa salarial real nos últimos 12 meses, mas também pelo crédito que vem crescendo e já chega a 33% do PIB. Apesar do crescimento do crédito, ainda há muito espaço para avançar. Na medida em que haja queda das taxas de juros ao consumidor final, a tendência é o Brasil aproximar-se da média internacional, muito acima do patamar atual doméstico. No entanto, tendo em vista a situação descrita, uma boa parte desse consumo é suprido com importações ''''subsidiadas'''' pelo câmbio barato, desincentivando a geração de valor agregado local. Estimular as importações de uma forma competitiva seria uma das maneiras de estimular o crescimento da produtividade, fundamental para o crescimento da economia. No entanto, fazê-lo mediante uma distorção cambial, como ocorre no caso brasileiro, é uma anomalia. O câmbio é o instrumento inadequado para estimular as importações. Por se tratar de um dos principais preços da economia, o câmbio valorizado acaba desestimulando os investimentos e as decisões de exportações, fundamentais para a qualidade do crescimento econômico. O ideal é prover de condições sistêmicas de competitividade favoráveis e utilizar a calibragem das tarifas para estimular as importações. Evidentemente isso também pressupõe uma taxa de câmbio competitiva para criar isonomia entre os concorrentes, locais e importados. Como na frase em epígrafe, o fundamental não tem sido mostrado pelos dados agregados das estatísticas. Mas convém ficarmos atentos. A passividade na questão ainda vai nos custar muito caro no futuro, como ilustra nossa própria experiência recente, assim como a de outros países! *Antonio Corrêa de Lacerda é professor doutor da PUC-SP, doutor em economia pela Unicamp e autor, entre outros livros, de Globalização e Investimento Estrangeiro no Brasil (Saraiva). E-mail: aclacerda@pucsp.br

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