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Não deu outra: risco de recessão

Erro de diagnóstico e atraso dos bancos centrais deixaram a economia mundial exposta à sorte

Paulo Leme, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2022 | 04h00

Há um ano, alertei que nos Estados Unidos “o excesso de gastos aumentará a dívida pública e a inflação, forçando o Fed a pisar fundo no freio monetário, o que levaria a economia a uma recessão e o mercado financeiro a um bear market”.

Infelizmente, a previsão se materializou: a inflação continua subindo e o PIB global já está se desacelerando.

Há um ano, já era claro que os bancos centrais das economias desenvolvidas tinham de ter iniciado o ciclo de aperto da política monetária, porque o risco inflacionário era alto e o custo de reduzir a inflação era baixo (a economia mundial e demanda agregada cresciam vigorosamente e o desemprego caía). Na outra ponta, o BC brasileiro acertou ao iniciar o ciclo de alta dos juros há um ano.

O erro de diagnóstico e o atraso dos bancos centrais deixaram a economia mundial exposta à sorte, o que é péssimo. No início de 2022, as perspectivas para a economia mundial eram boas, apesar de que o viés de risco era de inflação mais alta e crescimento do PIB mais baixo. 

Desde fevereiro, a economia mundial sofreu dois choques que dificultaram a tarefa dos bancos centrais: a guerra na Ucrânia e o lockdown da China para controlar o surto de covid. O que parecia ser passageiro infelizmente se tornou duradouro, expondo a economia mundial a um poderoso choque contracionista da oferta agregada, oferta esta que se tornou mais inelástica devido à escassez de commodities, insumos e disrupções logísticas. 

A resultante destas forças é um aumento expressivo e persistente da inflação e uma desaceleração brusca do crescimento econômico mundial. 

Agora, os bancos centrais terão de correr atrás do prejuízo e acelerar o aperto da política monetária para reduzir a inflação, contrair a demanda agregada e aumentar o desemprego, quebrando a espiral da inflação aos salários. 

O outro erro feito pelo Fed foi a falta de regras e de uma comunicação clara com o mercado. Parece um reality show: a cada dia que passa, os membros do Fed enviam mensagens contraditórias, aumentando a volatilidade dos mercados financeiros.

O resultado é que, hoje, a economia global corre o risco de sofrer estagflação (estagnação econômica com um aumento da inflação). Consequentemente, os mercados entraram em um bear market.

Mas nem tudo está perdido: um acordo de paz na Ucrânia e o fim da onda de covid na China, combinados com bancos centrais mais assertivos, poderiam reduzir a inflação e evitar uma recessão global. 

PROFESSOR DE FINANÇAS NA UNIVERSIDADE DE MIAMI E PRESIDENTE DO EXECUTIVO COMITÊ GLOBAL DE ALOCAÇÃO, XP PRIVATE

 

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