PIB inercial

"Inércia", termo difundido entre físicos e economistas, é a resistência de qualquer objeto a alterar seu movimento. Quando aplicada à inflação, significa a tendência de os preços permanecerem elevados, ainda que o governo esteja engajado em trazê-los para baixo. O Brasil já teve mais inércia inflacionária. Contudo, a inflação nossa de cada dia continua obstinada, inerte. Parte do motivo são os mecanismos informais de indexação que ainda prevalecem como defesa contra nossa eterna algoz. Além disso, nos últimos anos o governo brasileiro reintroduziu mecanismos de indexação que enrijecem os preços - é o caso da regra de reajuste do salário mínimo.

MONICA , BAUMGARTEN , DE BOLLE, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2015 | 02h03

Mas este não é um artigo sobre inflação inercial. Trata-se de uma breve reflexão sobre outro objeto inercial que se entranhou na economia brasileira: o PIB. O PIB que não se mexe, não muda de velocidade ou direção. Não quero tratar dos resultados de 2014, exaustivamente discutidos desde a divulgação do IBGE na última sexta-feira. Resultados como esse refletem os desequilíbrios que passei os últimos quatro anos destrinchando neste espaço, junto de outros colunistas. A expectativa de que a economia do País encolha em 2015, de que passemos por uma recessão, é, também, reflexo da desconstrução macroeconômica dos anos Dilma 1.0. O PIB que interessa não é esse PIB de ocasião. O PIB que interessa é aquele que indica o quanto a economia brasileira poderia crescer estivéssemos nós em situação diferente. Isto é, nos diz do que somos capazes quando não temos tantos problemas para consertar. É mais ou menos isso o que os economistas chamam de PIB potencial.

Qual o PIB potencial do Brasil? Como sabem os economistas, o PIB potencial é construção teórica, difícil de quantificar. Ainda assim, o exercício é fundamental para poder formular e calibrar as políticas econômicas. Durante os anos de bonança que marcaram o período pré-Dilma, muitos acreditavam que o Brasil tinha o potencial de crescer 4% ou 4,5% por ano sem gerar nenhuma pressão inflacionária adicional. Bastava que continuássemos a investir que a economia se manteria suficientemente produtiva para gerar tais taxas de expansão. Tudo mudou nos últimos quatro anos. Alguns dos mesmos analistas que acreditavam no potencial de 4% do País hoje não creem ser possível que o Brasil cresça mais que metade disso, ou 2% ao ano.

Por quê? Há diversas maneiras de medir o PIB potencial de um país - das mais sofisticadas metodologias empíricas aos mais complexos modelos econômicos. Contudo, o que todas as teorias de crescimento têm em comum é a ideia de que economias precisam de ganhos de produtividade, da expansão da força de trabalho e de aumentos eficazes do estoque de capital - humano e produtivo. Separando cada um desses componentes para avaliar a tendência do Brasil, chegamos a uma constatação decepcionante: o PIB potencial brasileiro é inercial. A produtividade, segundo diversos estudos, não cresce há tempos. A força de trabalho, depois de atravessar extraordinário período de expansão, não terá o mesmo ímpeto, inclusive por causa do fim do bônus demográfico, aquele que tão bem desperdiçamos. Desperdiçamos a ponto de não promover as mudanças qualitativas na educação que nos teriam gerado ganhos substanciais no estoque de capital humano. O capital produtivo? Esse depende de investimento. Como enxergar a volta do investimento num país travado pelos escândalos de corrupção, por um governo inoperante e por uma economia fechada? Diante das dificuldades de levar a cabo os planos mirabolantes de reerguer a infraestrutura e transformar a "Pátria Educadora" em algo mais do que um slogan, a abertura econômica poderia ser a nossa salvação. Afinal, há vasta literatura demonstrando as relações positivas entre abertura e produtividade, abertura e crescimento.

Infelizmente, ainda não estamos lá. Ainda estamos a avaliar se o ajuste fiscal é bom ou não, se resgatará o crescimento ou não. Hoje me despeço deste jornal que me acolheu durante os anos Dilma 1.0 sem qualquer resposta para nosso PIB inercial.

ECONOMISTA, É PESQUISADORA DO

PETERSON INSTITUTE FOR

INTERNATIONAL ECONOMICS

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