PIB: Itaú, Santander e HSBC preveem alta de até 5,5% em 2010

Bancos dizem que economia crescerá ao menos 5%, inflação se manterá sob controle e câmbio ficará onde está

Ricardo Leopoldo, da Agência Estado,

09 de dezembro de 2009 | 16h07

Os economistas-chefes dos Bancos Itaú, Santander e HSBC fortaleceram hoje, ainda mais, uma avaliação consensual de analistas segundo a qual o País terá um ano bom em 2010, com crescimento de pelo menos 5%, talvez beirando 6%, inflação sob controle e câmbio permanecendo ao redor do atual patamar de R$ 1,70 ao longo do ano.

 

Em evento promovido pelo Ibef (Instituto Brasileiro dos Executivos de Finanças), os economistas Alexandre Schwartzman (Santander), André Lóes (HSBC) e Ilan Goldfajn (Itaú) ponderaram que o País deve registrar uma expansão de 5%, 5,3% e 5,5%, respectivamente, no próximo ano.

 

"O PIB deve registrar um incremento perto de 1,9% no terceiro trimestre, patamar que deve ser repetido no quarto trimestre. Sendo assim, se isso for confirmado, no fim de 2009, o Brasil estará crescendo 8% em termos anualizados. Portanto, é possível que o PIB avance mais em 2010, podendo registrar uma alta entre 6% e 6,5%", comentou Goldfajn.

 

Num debate assistido por uma centena executivos financeiros ávidos por projeções macroeconômicas, os três economistas de peso, de certa forma, frustraram a audiência, pois não divulgaram em detalhes suas previsões, talvez por temerem passar informações demais para seus concorrentes. Em geral, eles ficaram mais preocupados em falar a tendência de indicadores relevantes, como o PIB, câmbio e inflação.

 

Mesmo no caso dos juros, não arriscaram indicar o mês que o Banco Central (BC) deve iniciar um movimento de aperto monetário, no próximo ano. No máximo, eles apenas revelaram que o BC elevará os juros no primeiro semestre, como é o caso de Goldfajn, ou na segunda metade de 2010, que é o caso de Schwartzman e Lóes.

 

Goldfajn, ex-diretor do BC na gestão do ex-presidente Armínio Fraga, apontou que a Selic pode começar a ser elevada pelo Comitê de Política Monetária (Copom) mais cedo em função, basicamente, do avanço dos gastos públicos, que estão estimulando de forma expressiva a demanda agregada e não tendem a diminuir sua velocidade no ano eleitoral.

 

"Acredito que os juros podem subir dois pontos porcentuais no próximo ano, mas, eventualmente, pode ser até que talvez seja necessário um pouco mais", afirmou. Schwartzman, que também foi ocupou um cargo de diretor do BC na gestão do presidente Henrique Meirelles, estima, de forma semelhante, que os juros vão subir até 10,75% no fim do próximo ano e continuar avançando em 2011, quando a taxa chegará num nível entre 11,5% e 12%.

 

Inflação - Embora os três economistas tenham manifestado que a inflação não é uma preocupação grave para 2010, eles concordam que o estímulo fiscal administrado pelo governo, que deveria ser diminuído, dado que o nível da atividade está decolando, precisará, necessariamente, do contraponto do aperto monetário.

 

"Hoje, não temos condições de crescer 8% de forma sustentável, pois temos gargalos no País", comentou Goldfajn, fazendo uma menção a limitações da infraestrutura em diversas áreas. Poucos minutos depois, a luz apagou-se no auditório. "Esse é um dos gargalos a que eu me referi", disse, com bom humor.

 

Schwartzman acrescentou com números o que muitos especialistas sabem em relação à carência de investimentos públicos em obras de longo prazo em energia elétrica, transportes e saneamento básico. Com base em dados de 2007, ele afirmou que o setor público consolidado arrecadou 35% do PIB.

 

Deste total, 31 pontos porcentuais foram direcionados, basicamente, para gastos correntes, enquanto que os 4 pontos restantes foram destinados a investimentos oficiais, da seguinte forma: 1 ponto pelo governo federal, outro ponto porcentual pelos Estados e 2 pontos pelos municípios. "Dessa forma, é possível notar que investimentos em infraestrutura não foram uma prioridade", destacou.

 

Lóes, por outro lado, fez uma avaliação um tanto quanto surpreendente, vinda de economistas de mercado, pois avalia que é positiva a atuação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) como elemento multiplicador de investimentos de longa maturação no País. Ele avaliou, contudo, que é importante ver a atuação da instituição em termos relativos, de acordo com a conjuntura econômica que o Brasil passa nos diversos períodos da história.

 

Neste ano de 2009, o BNDES tornou-se o principal cedente de crédito ao setor privado, pois boa parte dos financiamentos externos e internos cessou em função da forte crise internacional. Para atender o aumento vigoroso da demanda de empréstimo por empresas privadas, o Tesouro agregou R$ 100 bilhões ao orçamento do banco.

 

"Como a economia já está se normalizando, a participação do BNDES na liberação de crédito deve diminuir e dar mais espaço para o setor privado. No futuro, o banco pode deixar de ter o papel atual para atuar em outras frentes, como o seguro de crédito de financiamento de longo prazo", disse.

 

Câmbio

 

Os economistas também concordaram que a tendência do câmbio é permanecer ao redor do atual patamar até o fim de 2010. Na avaliação deles, o ingresso de recursos no País deve continuar ocorrendo em função, basicamente, do interesse que a economia nacional desperta para investidores. Segundo Goldfajn, o câmbio deve fechar o fim do próximo ano ao redor de R$ 1,70. Para Lóes, a cotação deve chegar entre R$ 1,70 e R$ 1,80 no fim do próximo ano.

 

Schwartzman não detalhou nenhuma cotação específica. Segundo Goldfajn, simulações indicam que, se o câmbio permanecer em R$ 1,70 nos próximos dez anos, com o crescimento do PIB médio no período entre 5% e 5,5% ao ano, o déficit de contas correntes deve variar de 4% a 5% do PIB. Segundo ele, esta magnitude de saldo negativo de tais internacionais não é excessiva, desde que haja fontes de financiamento.

 

"A questão é que a poupança doméstica no Brasil precisa aumentar bem para viabilizar o crescimento do País, sem elevados déficits de transações correntes. E hoje a nossa poupança interna é baixa." Em 2008, tal indicador atingiu o equivalente a 19% do PIB, uma taxa bem inferior aos 25% do PIB necessários para permitir que o Brasil avance 5% ao ano com baixos saldos negativos das contas internacionais. A poupança dos países emergentes asiáticos está em pelo menos 35% do PIB e chega a 40% na China.

 

Economia - Os economistas também fizeram algumas avaliações inéditas sobre a economia nos próximos anos. Segundo Goldfajn, a realização da Olimpíada no Brasil em 2016 deve estimular investimentos em vários segmentos produtivos, especialmente transportes e logística, que deve elevar o PIB potencial em 0,5 ponto porcentual, em média, a partir de 2010.

 

Apesar de que os gastos públicos devem continuar vigorosos no próximo ano e apenas reduzir o ritmo possivelmente com o próximo presidente da República, em 2011, Schwartzman acredita que não há risco de insolvência das contas oficiais nos próximos anos. Segundo ele, um superávit primário entre 2% e 2,5% do PIB em 2010 é mais do que suficiente para manter a proporção da dívida líquida pública em gradual queda. O Santander estima que a dívida líquida pública deve atingir 45% do PIB neste ano e cair para 44% do PIB em 2010. (Ricardo Leopoldo)

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