PIB maior do que o esperado provoca revisão de previsões

O Produto Interno Bruto de 2006, em 2,9% divulgado nesta quarta pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ficou acima do esperado pelos analistas e já começa a provocar revisões para o crescimento econômico neste ano. Esta iniciativa é reforçada ainda por outros números divulgados pelo IBGE, como o crescimento econômico do 4º trimestre - que anualizado aponta um PIB de 4,5% em 2007 - e o aumento dos investimentos. O economista do Espírito Santo Investment, Fábio Knijnik, que projetava um crescimento de 3,5% para 2007 já elevou sua projeção para 3,8%. Segundo ele, os dados positivos de Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) - indicativo de investimentos - e a retomada do consumo das famílias no último trimestre do ano justificam esta decisão, pois apontam para um dinâmica mais favorável em todas as pontas da atividade. O Banco Itaú BBA também revisou sua projeção de crescimento, de 3,5% para 3,7%. Segundo o economista-chefe do Banco Itaú BBA, Alexandre de Ázara, o crescimento de 2,9% do PIB no ano passado é uma notícia "muito positiva". A projeção do Itaú BBA para o indicador de 2006 divulgado hoje era de um crescimento de 2,7%. O economista destaca ainda que, ao desagregar o indicador, o dado mais importante foi o de investimento, que subiu 6,3% no ano passado. Ele ressaltou, no entanto, que esta previsão ainda poderá passar por ajustes em função da utilização da nova metodologia do IBGE para o PIB, que terá seus resultados conhecidos daqui a um mês.Ázara valia que, para a política monetária, o resultado do PIB hoje também foi positivo, já que revelou que a demanda está crescendo "bastante". Com isso, ele prevê a continuidade dos cortes da Selic em 0,25 ponto porcentual nas próximas sete reuniões do Copom deste ano. Se sua projeção estiver correta, a taxa básica de juros encerrará o ano em 11,25%.O economista-chefe do banco de investimentos Banif Investments, Marco Maciel, também revisou sua estimativa para o crescimento do PIB - 3,2% para 3,6%. Especificamente em relação ao desempenho da atividade no último trimestre do ano, Maciel avaliou que seu resultado foi "muito superior" ao da média dos três trimestres anteriores. "Isto significa um carregamento estatístico muito alto para este ano, o que nos levou à revisão", explicou.Destaque para investimentos Ele também apontou o crescimento dos investimentos. "Eles foram fortes tanto na média do ano quanto no quarto trimestre.". Isto, segundo ele, mostra que a oferta da economia (produto potencial) está rodando acima da demanda agregada e que isto deve reduzir o temor de alguns analistas que estavam preocupados com o crescimento de uma possível inflação gerada pela demanda. "Com um PIB deste tamanho, esta preocupação torna-se uma bobagem", considerou. Até porque, para ele, na pior das hipóteses, a oferta e a demanda andarão em linha.O crescimento dos investimentos, contudo, não demonstra que o País está numa rota de crescimento sustentável do investimento, observa o economista Sergio Vale, da MB Associados. De acordo com ele, o dado deve ser olhado com cautela, dado que grande parte dos investimentos foram concentrados na construção de residências - aplicação que não gera ganhos de produtividade. "Acreditamos que cerca de 4% do total de investimento foi da construção civil", analisa.Para Vale, essa situação demonstra que o crescimento da oferta ainda depende essencialmente de mudanças na estrutura de gastos do governo para que se permita uma redução da carga tributária do País. "O crescimento em 2007 vai ficar novamente na casa dos 3%. Não há como ter um alta mais forte do PIB enquanto não houver uma resolução para a questão fiscal do País", diz.CríticasMas nem todos os analistas vêm com otimismo os dados do PIB divulgados nesta quarta. Um dos setores cujo crescimento econômico foi baixo e, por isso, provocou reações negativas foi o de transportes. O desempenho em 2006 ficou em 2,2% e, no último trimestre, foi ainda mais baixo, em 1,5%. Para o professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Luiz Afonso dos Santos Senna, P.H.D. na área de transportes, estes resultados refletem a falta de investimentos no setor. "O crescimento pequeno do setor reflete a dimensão do problema, principalmente no que diz respeito à infra-estrutura rodoviária", afirma.O professor, que também é secretário de mobilidade urbana de Porto Alegre, destaca ainda que a melhoria do setor de transportes é essencial para o crescimento do PIB como um todo. "A falta de infra-estrutura do setor é um gargalo para o crescimento do indicador no Brasil", explica.Senna defende política claras por parte do governo para as Parcerias Público Privadas (PPP), que na sua opinião são essenciais para atrair investimentos para o setor, em complementação ao orçamento do governo. "Sem esse tipo de ferramenta, é impossível atrair investimentos para a infra-estrutura do setor no nível que o Brasil precisa", diz.Segundo o especialista, outros países como Índia, China e até pequenos da América Latina estão muito mais adiantados que o Brasil nesse quesito. Senna ressalta ainda que a política brasileira é muito tímida, o que reflete em um risco para o País, principalmente no que diz respeito a atração de investimentos, não só no setor de transportes.

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