Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

PIB medíocre e juro baixo devem manter real desvalorizado, diz economista

Segundo José Júlio Senna, pela reação do BC em relação ao dólar, entidade está percebendo que 'desequilíbrio não é propriamente no mercado à vista'

Entrevista com

José Júlio Senna, chefe do Centro de Estudos Monetários do Ibre/FGV

Renata Pedini, O Estado de S.Paulo

14 de fevereiro de 2020 | 09h00

A principal vulnerabilidade do País é a mediocridade do crescimento econômico, diz José Júlio Senna, chefe do Centro de Estudos Monetários do Ibre/FGV e ex-diretor da Dívida Pública e Mercado Aberto do Banco Central (1985), ao justificar a pressão no câmbio. "Já teríamos um real mais depreciado por causa da política monetária", continua, pontuando que a tendência de depreciação do real "pode ficar conosco por um pouco mais de tempo". 

Ao comentar a escalada recente e injeção de liquidez pelo Banco Central, que fez a moeda descer de R$ 4,38 na máxima de quinta-feira, 13, até a mínima a R$ 4,30, ele cita o artigo "Juros, câmbio e a venda de reservas", que assinou com o economista Antonio Madeira, da MCM Consultores, no blog do Ibre no último dia 6. E afirma que, pela reação do BC, "suspeito que ele está percebendo que o desequilíbrio não é propriamente no mercado à vista". "É apenas um problema de nível de preço, que está ficando pior. A experiência nos mostra que a resposta é swap cambial. Ele acalma um pouco o mercado. Agora é relevante discutir por que a cotação sobe sem fluxo negativo." Abaixo, os principais trechos da entrevista:

As afirmações do ministro da Economia, Paulo Guedes, feitas ontem em relação ao câmbio, como a de que uma taxa mais alta é "boa para todo mundo", ajudaram a elevar a pressão no câmbio?

O ministro da Economia dá as diretrizes gerais da política econômica. Temos que tomar cuidado em separar o que ele diz numa apresentação mais ampla, de natureza absolutamente não específica, da política de câmbio propriamente dita. A política de câmbio é comandada pelo Banco Central. A fala do ministro com certeza pode ter lá sua influência porque as pessoas interpretam como ele dando a orientação. Orientação de ministro é de natureza genérica. Não deve ser entendida como definição de parâmetros para a política do dia a dia. A do dia a dia é determinada pelos diretores do BC, em particular o que opera esse mercado, são coisas independentes. Mas não posso descartar influência da fala do ministro, afinal de contas o ministro tem peso mesmo. Na minha cabeça, não é algo para ser levado tanto ao pé da letra como aparentemente muita gente leva.

Em meio à repercussão, e fatores externos, principalmente aversão a risco pelo salto dos casos de coronavírus, o dólar bateu R$ 4,38. O Banco Central injetou dinheiro novo via leilão de swap cambial e a moeda virou. Qual sua avaliação sobre a resposta do BC?

Temos um histórico de como o BC reage e o que sabemos, a partir de análise que Antonio Madeira, da MCM, e eu fizemos do passado (publicada em artigo no blog do Ibre no dia 6), é que quando a pressão no câmbio ocorre sem fluxo negativo você pode resolver com swap. Quando é pressão no câmbio à vista, que é "câmbio contratado negativo", ou seja fluxo cambial negativo, alguém tem que vender dólar. Enquanto os bancos puderem fazer isso, o Banco Central vai deixar fazer. Quando chegar no limite dos bancos, que aparentemente já chegou (posição vendida no câmbio à vista de US$ 34,261 bilhões, a maior desde setembro de 2016, conforme dado atualizado em 5/2), é o BC que tem que fazer. A reação dele não foi de vender dólar à vista. O que posso concluir é que o Banco Central não está vendo situação deficitária no mercado de câmbio contratado. As estatísticas são defasadas, sabemos que em janeiro o déficit foi pequeno e em fevereiro o fluxo está positivo [fluxo na primeira semana de fevereiro, divulgado ontem pelo BC]. Pela reação do BC, suspeito que ele está percebendo que o desequilíbrio não é propriamente no mercado à vista. É apenas um problema de nível de preço, que está ficando pior. A experiência nos mostra que a resposta é swap cambial. Ele acalma um pouco o mercado. Agora é relevante discutir por que a cotação sobe sem fluxo negativo.

Por quê?

A principal vulnerabilidade do País é a mediocridade do crescimento econômico. Muitos gostam de focar a recessão iniciada em 2014. Eu tenho visão de longo prazo porque a recessão de 2014 e a lenta recuperação que estamos experimentando são efeitos exacerbados de um problema maior iniciado em 1980. O PIB per capita cresceu nesse período 0,9% e a renda per capita, 0,4%. Nosso problema é de crescimento e problema é produtividade que não anda. Essa é a nossa vulnerabilidade porque ninguém gosta de investir em País que não cresce, seja investidor doméstico seja internacional. O País tem esse crescimento medíocre há quatro décadas. Os sinais recentes não são ruins, são bons, com uma série de coisas que vão destravar a economia, como o teto de gastos, TLP, reforma trabalhista, lei da liberdade econômica, Previdência, encolhimento das operações do BNDES, entre outras propostas... tem muita coisa boa que dá certa esperança. Mas o fato concreto é que na prática o crescimento ainda está muito modesto, muito pífio. Com notícia ruim como o resultado do varejo, indústria, o preço do dólar sobe, e é isso que está acontecendo. Essa reação agora é em larga medida relacionada com expectativas de crescimento. Quando a gente virar o jogo em matéria de crescimento, vamos ver alívio grande, a menos que o fluxo fique negativo de novo.

Há outros fatores que depreciam o câmbio?

De modo geral, a depreciação vem de fatores exógenos e endógenos. O estrangeiro tirando dinheiro da bolsa, por exemplo, pode ser um fator exógeno, no sentido de que está fora do nosso controle, porque não tem a ver de maneira direta com a nossa política. Endógeno vem da própria política monetária de juros baixos, e a gente não pode reclamar, porque a inflação é baixa. Só chegamos ao mundo do juro baixo porque conseguimos controlar a inflação, controlar as expectativas, e trazê-la para baixo. É uma espécie de efeito colateral da política monetária iniciada em 2016. A atual é continuidade daquela. Já teríamos um real mais depreciado por causa da política monetária.

Quando vamos virar o jogo do crescimento? E qual sua expectativa para o PIB?

A estimativa oficial do Ibre é de 2,2% em 2020. Mas no momento não é possível ter segurança de que esse número será cumprido. Não temos sinal de que vá acontecer. O grande drama é que você sempre pode estimular a economia por meio de instrumentos de demanda fiscal ou monetário. No Brasil de hoje, o fiscal está esgotado, há um processo de consolidação fiscal, e esse estímulo não pode ser usado agora. Se fosse usado, daria resultado contrário, aumentando a percepção de risco-país barbaramente. Do lado monetário, já houve em termos nominais 1.000 pontos de queda de juros do final de 2016 para cá. O juro real é bem menos que 1%. Então, o estímulo monetário já foi dado. Não há mais o que o BC possa fazer. Eu acho que o que tinha que impulsionar já houve. Para voltar a crescer, nós estamos dependentes de medidas tomadas para resolver o problema do crescimento no longo prazo, que mexem com oferta da economia, e não com a demanda. Precisamos tornar a economia mais produtiva. De 2016 para cá, o sinal é bom, mostra tendência de Congresso que topa fazer reformas, não com a intensidade suficiente, em privatizações estamos devendo, pois interesse imediato dos políticos de tirar proveito das empresas estatais ainda predomina. Mas a percepção de que precisamos tornar a economia mais produtiva e o fiscal mais equilibrado está lá, não tem dúvida. É impossível prever duas coisas: qual é a reforma fundamental ou qual o verdadeiro entrave, e quanto que tem que andar bem dar resultado. Não há resposta para isso.

O BC pode voltar a cortar a Selic? E o dólar fica em quanto?

O mais provável é o Banco Central manter a Selic estável. Para o dólar, prefiro evitar uma cotação. A tendência é clara. Não podemos desprezar a influência do dólar lá fora, não para de se fortalecer. A tendência de depreciação do câmbio pode ficar conosco por um pouco mais de tempo.  

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.