Pibinho e desemprego baixo: como é possível?

Análise: Fernando de Holanda Barbosa Filho

PROFESSOR DO INSTITUTO BRASILEIRO DE ECONOMIA (IBRE), DA FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2012 | 02h07

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou ontem a taxa de desemprego de novembro: sem ajuste sazonal, 4,9%, com ajuste, 5,3%, estável em relação a outubro. Foi a segunda menor taxa em toda a série do IBGE e a mais baixa para um mês de novembro. Em 12 meses, o rendimento real habitual aumentou 5,3%.

O bom desempenho do mercado de trabalho contrasta com os números do PIB (Produto Interno Bruto). Este vai crescer 1% em 2012, sendo chamado de "pibinho", ao mesmo tempo em que o mercado de trabalho apresenta taxas de desemprego com recorde de baixa.

Os economistas ainda não chegaram a um consenso sobre quais fatores explicam essa dissonância entre atividade econômica e mercado de trabalho. Dois fortes candidatos são a retenção dos empregados pelas empresas e o ganho de importância relativa do setor de serviços.

A retenção dos trabalhadores pelas empresas explica parte do bom desempenho do mercado de trabalho. Apesar do baixo crescimento da produção, a expectativa de um futuro melhor estimula as empresas a não demitirem seus funcionários (mesmo que subutilizados).

Isso ocorre porque o mercado de trabalho apertado faz com que os trabalhadores disponíveis no mercado sejam em geral de qualidade inferior à daqueles que estão empregados. Dessa forma, a empresa prefere manter o trabalhador já treinado e de melhor qualidade a pagar elevados custos de demissão e correr o risco de ter que contratar um trabalhador pior e não treinado no futuro.

Obviamente, esse processo só ocorre enquanto os empresários estão otimistas sobre o futuro. Isso parece ter ocorrido este ano.

Uma explicação complementar é o aumento do peso dos serviços na economia. O setor de serviços é mais intensivo em mão de obra do que a indústria, ou seja, utiliza mais trabalhadores por unidade de valor adicionado.

Como esse setor cresceu (pelo menos até o segundo trimestre de 2012) mais rapidamente que a indústria, parcela dos empregos perdidos na indústria foi absorvida pelo setor de serviços.

Por outro lado, a produtividade média do trabalho é menor nos serviços do que na indústria, o que ajuda a explicar por que o aumento do emprego não levou a produção a crescer mais. A dissonância entre emprego e produção pode acabar se o setor de serviços não recuperar o seu dinamismo, perdido no terceiro trimestre, ou se piorarem as expectativas de produção futura das empresas.

Se isso ocorrer, os serviços pararão de absorver os empregos perdidos em outros setores e cessará a retenção de trabalhadores pelas empresas que esperam dias melhores a curto prazo.

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