Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Coluna

Thiago de Aragão: China traça 6 estratégias para pós-covid que afetam EUA e Brasil

Pilares da reforma ainda sustentam time de Guedes, diz ex-integrante da equipe

Ex-diretor da Secretaria de Fazenda, Caio Megale afirma que não vê mudança na agenda do ministro da Economia, Paulo Guedes, que ainda conta com a confiança de Bolsonaro

Entrevista com

Caio Megale, economista-chefe da XP

Aline Bronzati e Thaís Barcellos, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2020 | 10h00
Atualizado 26 de setembro de 2020 | 19h00

Uma das baixas do desfalcado Ministério da Economia, Caio Megale, ex-diretor de programas da Secretaria Especial de Fazenda da pasta, acredita que os pilares das reformas ainda sustentam o time do ministro Paulo Guedes mesmo que o movimento de debandada não tenha cessado. Para ele, mudam as peças, em alguns casos com substitutos até mesmo melhores que os anteriores, mas não a direção. 

"O ministro Paulo Guedes continua com uma relação bastante próxima e de confiança com o presidente (Jair Bolsonaro), que continua acreditando e apostando na linha de reformas do ministro", afirma, em entrevista exclusiva ao Estadão/Broadcast, a primeira desde que assumiu o cargo de economista-chefe da XP Investimentos. "Eu não vejo mudança desse cenário, em que pesem algumas peças, que, por razões diferentes, tenham sido substituídas."

Depois de quase quatro anos entre a Prefeitura de São Paulo e o governo federal, Megale retornou na semana passada à iniciativa privada. Ele diz que a virada de chave deve-se a motivos pessoais e garante que não integra o grupo de descontentes, que têm abandonado a gestão Bolsonaro envoltos num misto de decepção e cansaço com Brasília devido ao ritmo lento da agenda liberal.

Megale teve algumas conversas e optou pela XP, preenchendo a cadeira vaga desde a saída de Zeina Latif, que decidiu tocar carreira solo. Sua chegada acontece em meio ao home office ainda mandatório por causa da pandemia, mas em plena trajetória de expansão da empresa.

Com cerca de R$ 130 bilhões em valor de mercado na Nasdaq, berço da tecnologia, a XP prepara uma nova sede, no interior de São Paulo, e está às vésperas de se tornar um banco completo, o que deve ocorrer até o início de 2021. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Por que o senhor deixou a equipe econômica do governo federal?

Minha saída foi uma questão muito pessoal. Somados os tempos de governo federal e prefeitura já eram quase quatro anos. Desde o começo do ano, eu vinha amadurecendo essa ideia, de que estava chegando o ponto em que eu dei minha contribuição. Parecia uma fase da minha vida, pelo meu momento profissional, uma boa hora para voltar e retomar a carreira no setor privado. Afinal, eu não sou um servidor de carreira.

O sr. não estava satisfeito com o andar da carruagem?

Alguns integrantes verbalizaram isso, como o Salim Mattar, que estavam descontentes com o avanço das políticas e as dificuldades que encontraram. Eu não faço parte desse grupo. De fato, senti que o ciclo estava completo. Na volta, comecei conversas no setor privado. A XP me pareceu o desafio mais interessante e que mais casa com meu perfil e as coisas com as quais eu acredito.

Como a experiência na área pública pode ajudá-lo no entendimento do que está acontecendo?

A experiência na vida pública é muito bacana. Primeiro, é você, de fato, estar próximo e conhecer a forma como o governo trabalha, o processo decisório, as dificuldades. Então, voltando para o lado privado, a análise é mais rica. O outro (aspecto) é passar a conhecer mais as pessoas. Não tem nada de informação privilegiada, mas é uma forma de enriquecer a capacidade de análise.

A equipe econômica está sofrendo consecutivas baixas. Hoje, quem mais pode ampliar a chamada debandada?

Uma coisa que eu achei interessante foram as substituições que o ministro (da Economia, Paulo Guedes) fez. Os sucessores do (Salim) Mattar e do Paulo Uebel, Diogo Mac Cord e Caio (Andrade) tinham perfis muito parecidos, capacidade técnica, em alguns casos até melhor. É natural, especialmente em uma equipe grande, que alguns saiam e outros entrem por uma razão ou outra, mas novos integrantes têm sido sempre em um nível bastante forte e em linha com o direcionamento de política econômica que o ministro Paulo Guedes tem colocado. Ainda que aconteçam novas substituições, a tendência é que o ministério continue focado naquelas linhas mestras de reformas.

Então, na sua opinião, os novos integrantes têm a mesma ou até mais capacidade de tocar a agenda de reformas?

Sim. Não necessariamente todo mundo que entrou é melhor. Em média, a equipe continua muito parecida com a anterior e com a mesma capacidade de entrega.

Mas Mattar e Uebel saíram atirando na dificuldade que se tem de trabalhar no governo. Novas baixas podem ser um golpe próximo a um nocaute de Guedes?

Os pilares das reformas vão continuar a despeito das mudanças na equipe e das próprias discussões no Congresso e no governo. Isso me sugere que o ministro Paulo Guedes continua com uma relação bastante próxima e de confiança com o presidente (Jair Bolsonaro), que continua acreditando e apostando na linha de reformas do ministro. Eu não vejo uma mudança desse cenário em que pesem algumas peças, que, por razões diferentes, tenham sido substituídas.

O mercado teme que as reformas tenham ido para o espaço. Como o senhor vê o futuro dessa agenda?

A agenda está posta. A reformas estão no Congresso. A chave vai ser a capacidade do governo de mostrar ao Parlamento que essa agenda é importante da maneira como está posta e que seja aprovada.

Com o Renda Brasil na geladeira, o governo pretende fazer cortes bilionários nos ministérios para turbinar o Pró-Brasil, inclusive com risco de inviabilizar ações sociais. Só importa a popularidade para o presidente?

Um novo programa como o Renda Brasil ou um Bolsa família mais incrementado parece bastante necessário, dada a desigualdade de renda muito significativa no Brasil. O que não está maduro é como o programa será financiado. Tem de caber no teto de gastos. Nós já estamos no vermelho. Se incluirmos mais gastos, esse déficit tende a ser maior e deve haver desconfiança sobre a capacidade de pagar essa dívida. As taxas de câmbio, o risco país, e a expectativa de inflação tendem a subir. Inflação mais alta e economia desorganizada acabam corroendo esse ganho de renda dado pelo programa social. Fazer isso por um ou dois anos e depois provocar uma desarrumação na economia, ao fim e ao cabo, vai produzir mais desigualdade.

Qual o caminho?

O melhor caminho é rever outras despesas. Estamos falando de um programa que pode custar R$ 20 bilhões, R$ 30 bilhões a mais, dobrando o orçamento do Bolsa Família. As despesas obrigatórias somam R$ 1,4 trilhão. Não me parece que falta dinheiro. O que parece é que falta prioridade. E o teto de gastos convida a sociedade a discutir a qualidade dos gastos.

O teto de gastos deve ser furado?

Eu tenho convicção de que o teto não será furado. Quando ficar claro no debate político que as alternativas são mais imposto ou mais endividamento que provoque um desarranjo na economia e seja contraproducente com o objetivo de reduzir a desigualdade, vai ficar claro que a opção por repensar a estrutura de gastos vai ser a vencedora do debate.

Dá tempo de aprovar alguma revisão de gastos este ano para implementar o Renda Brasil em 2021?

A gente aprende ao longo do tempo e, estando no governo mais ainda, aquela frase tradicional: "o tempo da política é diferente do tempo da economia". Há prioridades e urgências do lado da economia, mas é preciso construir politicamente para que aquilo funcione. Isso às vezes angustia um pouco.

Por que reforma do estado é importante?

Com uma carga tributária que se aproxima de 40% do PIB e uma estrutura de servidores, escritórios, e sistemas ampla, que nos ocupa quase 80% de toda arrecadação, é preciso prover serviços públicos com mais eficiência. A reforma administrativa não é tão urgente quanto a decisão, por exemplo, do teto de gastos, do novo programa social, que temos que definir para o ano que vem. É menos urgente, mas absolutamente crucial.

Por que os atuais servidores foram poupados, se pesam no risco fiscal? E os juízes e membros do Judiciário, o governo não quis comprar essa briga?

Tem uma pequena parte da reforma administrativa que é a preocupação fiscal. E, se for só para novos servidores, o impacto para flexibilizar a estrutura de gastos obrigatórios fica mais para frente. Tem que ser completada com a PEC do pacto federativo. A ideia de flexibilizar a jornada com redução de salário (do servidor) é dar ao gestor público uma opção a mais para remanejar os seus gastos. Hoje, as únicas opções que se tem quando há algum problema na receita, como, por exemplo, na crise de 2014, é cortar investimentos e programas sociais, porque todo o resto está engessado.

O ministro Paulo Guedes tem repetido que o Brasil é um das primeiras economias do mundo a se recuperar do choque da pandemia. Como o senhor avalia, agora que está do outro lado?

O mundo ainda está disfuncional. O que está acontecendo no Brasil também se repete em outros lugares. Tem setores da economia que estão superaquecendo. O último exemplo foi a construção civil. Por outro lado, os restaurantes estão muito vazios pela questão pandêmica. Eu posso dar um monte de dinheiro para uma pessoa, mas se ela está com medo de ir ao restaurante porque pode pegar covid-19, não vai. Ela usa aquele dinheiro não de uma forma normal, como seria o seu "mapa de preferências". Então, a leitura de atividade e inflação agora está muito bagunçada.

Mas está chegando o momento de a atividade econômica andar com suas próprias pernas...

Cada setor tem sua particularidade. O varejo voltou mais do que em "V". Estamos acima do nível anterior, porque é mais fácil. Serviços vêm devagar e a indústria ligada aos setores mais aquecidos volta mais rápido, mas não muito mais rápido. Mas o conjunto da obra tende a ser uma retomada que vem crescendo, vem ganhando sustentabilidade. Quando as coisas se normalizarem, oxalá no ano que vem, com vacina, quando as pessoas puderem voltar às suas vidas normais, a gente pode retornar à trajetória antes da crise.

O arroz acendeu a lanterna da inflação. Há riscos de descontrole?

Não vejo risco de descontrole da inflação. Tem ociosidade no setor de serviços e a retomada da economia que tende a ser gradual não deve pressionar a inflação. Mesmo nos setores mais aquecidos. O arroz subiu, mas a batata caiu, então não é um processo sistemático. Me parece que é um choque que tem que ser monitorado, mas são sintomas de um momento da economia muito desarrumada por causa da pandemia, não um processo inflacionário que preocupe.

O Copom fechou a porta de vez para novos cortes da Selic?

Não é por isso que o Banco Central está fechando a porta para novos cortes de juros. O que o BC tem dito é que os juros já estão muito baixos e ele está preocupado com questões prudenciais. Há questões na poupança, fundos de crédito, fundos de pensão que podem se desarrumar com o juro muito baixo. É mais por conta disso do que achar que estamos em um ambiente inflacionário.

Mas pode haver um efeito do risco fiscal na inflação, já que o câmbio é apontado como um dos vetores da alta de alimentos e se mantém fraco por causa do risco fiscal?

Por ora, não. A maior parte desse movimento tem sido por retomada do crescimento forte lá fora. A depreciação cambial aconteceria de qualquer forma. O câmbio não volta para R$ 3,80, volta para entre R$ 4,50 e R$ 5,00. E essa diferença do câmbio para os R$ 5,30 de hoje ainda é pequena para produzir esse efeito. Dito isso, esse é o principal canal de preocupação caso o fiscal não se organize. Esse não é o cenário base, mas o risco caminha nessa direção. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.