Pinheiro Neto traça novos rumos

Maior escritório de advocacia do País passa por choque de gestão baseado na descentralização do poder

Patrícia Cançado, O Estadao de S.Paulo

10 de dezembro de 2007 | 00h00

O ano de 1964 foi considerado um marco na história do escritório Pinheiro Neto Advogados. O número de associados passou de sete para 13, uma grande evolução para a época, e as equipes foram informadas que teriam direito a 13º salário, auxílio-maternidade, férias e FGTS e que ainda se mudariam para um prédio na Rua Boa Vista, centro de São Paulo. Mais de quarenta anos depois, em 2006, a mudança para um imponente prédio na Marginal do Rio Pinheiros (onde antes funcionou o Banco Santos), voltou a marcar a trajetória do escritório. Com o novo endereço, veio uma transformação silenciosa na maior e mais tradicional banca de advogados do País. "O escritório, internamente, estava um pouco estagnado. Resolvemos fazer um choque de gestão. A mudança de endereço faz parte dessa nova fase, cujos pilares são transparência total e descentralização de poder", diz Alexandre Bertoldi, advogado que, em janeiro de 2009, assumirá sozinho o cargo de presidente do Pinheiro Neto. Uma das principais mudanças foi a pulverização do capital do escritório. Nos anos 90, 80% das ações estavam nas mãos de apenas nove sócios. Os outros 20% eram detidos por 16 pessoas. Hoje, nenhum dos 68 atuais sócios pode ter acima de 2% do capital. Mais: para comprar cotas, é preciso atingir metas preestabelecidas. O escritório também colocou no papel que a venda de cotas e a promoção de novos sócios devem acontecer anualmente. Este ano, sete novos nomes foram escolhidos. Há algumas décadas, o escritório tem por tradição transformar estagiários em futuros sócios. A diferença, agora, é que certas ações passaram a ser institucionalizadas.O objetivo da nova gestão é democratizar mais e rejuvenescer o escritório, embora ainda faça questão de manter ou aprimorar várias das regras criadas pelo fundador, que construiu um verdadeiro mito em torno de seu nome. No escritório, o voto agora é por cabeça. "O peso dos votos dos sócios passou a ser igual, independentemente do número de cotas de cada um", diz Bertoldi. Eles criaram também regras mais claras de aposentadoria. Sócios e funcionários são obrigados a sair aos 65 anos. Aos 60, eles já têm de começar a "desinvestir", ou seja, abrir mão de suas ações para que o número chegue a zero cinco anos depois. PERSONALIDADEA necessidade de mudança começou a ser percebida muito antes de a nova gestão assumir. Há 15 anos, o próprio José Martins Pinheiro Neto - um homem considerado à frente de seu tempo - contratou uma consultoria estrangeira especializada em escritórios de advocacia para fazer um diagnóstico da banca. "Na época, os consultores propuseram, entre outras coisas, que o escritório deveria preparar sua sucessão, pois achava que ele era muito identificado com a figura do Pinheiro Neto", conta Bertoldi. Não era só o nome - tudo ali girava em torno dele. Para muitos, a personalidade forte e centralizadora, o carisma e até o próprio histórico tornavam o fundador alguém "único e insubstituível".A proposta foi aceita e um triunvirato passou a dirigir o negócio ao lado do fundador. Os advogados Antonio Mendes, Celso Mori e Clemencia Wolthers assumiram a dianteira, mas a última palavra era de PN, sigla usada pelo fundador - no escritório, todos são identificados por siglas.Em dezembro de 2001, com o afastamento gradual do fundador, Bertoldi, então com 39 anos, tornou-se o quarto membro da direção. No começo, ele entrou apenas como assessor. No fim de 2004, um ano antes da morte de PN, houve eleição e ele foi finalmente "efetivado". Bertoldi ficará sozinho a partir de 2009 porque os outros dois advogados que estavam ao lado dele no comando da casa vão seguir outros rumos. Mori deixou o trio no ano passado para se dedicar única e exclusivamente à advocacia. Mendes vai se aposentar em meados de 2008. Está acertado que Bertoldi ficará no cargo de 2009 a 2011, quando serão convocadas novas eleições. Será a primeira vez em anos que um único advogado comandará o Pinheiro Neto. "Como eu não pretendo abandonar a minha prática profissional (a proposta é dedicar 75% do tempo aos casos e 25% à gestão), haverá uma descentralização ainda maior das funções administrativas", diz.Bertoldi é hoje um dos advogados mais admirados do País. Recentemente, foi eleito pela prestigiada revista inglesa Latin Lawyer o melhor presidente de escritórios de advocacia da América Latina de 2007. Ele concorreu com líderes de 210 bancas de 14 países da região. Ao contrário de boa parte dos advogados, Bertoldi tem uma queda pela administração, o que o levou a fazer, ainda bem jovem, um MBA na Inglaterra. O advogado que quase virou engenheiro químico tornou-se sócio do Pinheiro Neto aos 32, com apenas dois anos de casa (ele havia tido uma passagem pelo escritório como estagiário) . Ele é o homem por trás dos grandes casos fusões e aquisições do escritório, uma das marcas mais fortes da banca. Neste ano, o Pinheiro Neto já fez cerca de 80 operações do gênero, o que o coloca na liderança do ranking brasileiro elaborado pela Thomson Financial. PERFIL Fundação: O escritório foi fundado em 1932 Sócios: Atualmente, são 68 sócios Idade: A média de idade dos advogados é 38 anos Atuação: É o escritório brasileiro líder em fusões e aquisições Abertura de capital: Está entre os três escritórios que mais fazem aberturas de capital Casos: Tem 10 mil casos em andamento e 1,4 mil clientes ativos

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