Pior da crise já passou, dizem economistas na 'TV Estadão'

Para eles, movimento de alta das bolsas mundiais, reagindo às ações de BCs, leva à melhora na avaliação

Anne Warth, da Agência Estado,

14 de outubro de 2008 | 15h56

O forte movimento de alta da maioria das bolsas de valores em todo o mundo, depois do anúncio de ações de diversos bancos centrais com o objetivo de dar apoio às instituições financeiras privadas, dá sinais de que o pior momento da crise mundial já teria passado. Essa é a avaliação de economistas que participaram do debate "O Brasil e a Crise", realizado nesta terça-feira, 14, pelo Grupo Estado, com transmissão ao vivo pela TV Estadão. Veja também:Assista ao debate Consultor responde a dúvidas sobre crise  Bush anuncia compra de ações de bancos pelo Tesouro dos EUAEm meio à crise, empresas têm que pagar US$ 15 bi ao exteriorComo o mundo reage à crise  Entenda a disparada do dólar e seus efeitosEspecialistas dão dicas de como agir no meio da crise A cronologia da crise financeira  Dicionário da crise  Participaram do debate o diretor setorial de economia da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) Tomás Málaga, o economista-chefe para América Latina do Santander, Alexandre Schwartsman, o ex-ministro Delfim Netto, o professor da Unicamp Luiz Gonzaga Belluzzo e o economista-chefe para a América Latina do UBS Pactual, Eduardo Loyo, além do empresário Josué Gomes da Silva, presidente da Coteminas e do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). Na avaliação de Schwartsman, as ações dos governos norte-americano e europeu atacaram a questão mais grave, que era a restrição do crédito em função dos ativos de má qualidade dos bancos, e minimizaram os problemas de solvência e liquidez dos mercados financeiros. "O risco de derretimento do sistema financeiro internacional foi evitado. Vamos conseguir estabilizar problema. Mas o que vem depois não é bonito", disse. O economista destacou lembrou que as previsões de crescimento econômico mundial do Fundo Monetário Internacional (FMI) para 2009, revisado de 3,9% em julho para 3% na semana passada, são muito otimistas. Para ele, as restrições de crédito devem continuar em 2009, e o mundo, embora não mergulhe num processo de depressão, passará por uma recessão. Málaga declarou que os pacotes anunciados pelos governos iniciaram um processo de restabelecimento da confiança dos mercados, mas, em um segundo momento, bem mais difícil, o desafio será fazer com que o capital dos bancos comece a gerar ativos. "Agora temos chances de a economia começar a se recuperar, mas a recuperação total deve levar um par de anos", ponderou. O empresário Josué Gomes da Silva, por sua vez, destacou que a crise, ao promover a desvalorização abrupta do real, conduziu o câmbio para níveis mais adequados. "Não que nós aplaudamos uma desvalorização tão abrupta, mas traz o câmbio para patamares mais adequados, e isso era necessário", sustentou. Segundo ele, o acúmulo de reservas de mais de US$ 200 bilhões e a geração de superávit em conta corrente nos últimos anos (tendência revertida em 2008) provaram, neste momento, que o governo adotou as ações necessárias para impedir que uma crise tivesse um forte impacto na economia do País. "Temos de aplaudir as autoridades econômicas. Estamos tranqüilos e o Brasil poderá superar crise sem dificuldades", afirmou. Maior regulação  Os debatedores concluíram que a crise deve resultar num processo de maior regulação dos mercados. Schwartsman cobrou o fim da arbitragem regulatória, que impõe regulação sobre bancos mas não sobre fundos e seguradoras, por exemplo, e que permitiu uma alavancagem "extraordinária" dos bancos. "Maior regulação é inescapável quando o problema chega à magnitude a que chegou", disse. Apesar disso, na avaliação dele, não há como haver uma regulação supranacional, até porque não há organismos que possam fazer esse tipo de controle. "Em uma certa medida, moeda única é ilusão e regulação única também é ilusão", opinou. Málaga disse que é preciso ter cuidado com essas medidas, pois a transparência do sistema é mais importante do que impor tetos ou proibições. "Eu sempre fico um pouco preocupado quando a regulação vai para (o caminho de) proibir operações ou colocar critérios que muitas vezes não são econômicos", alertou. "Sempre estaremos sujeitos a esses agentes que procuram oportunidades de negócios no capitalismo. Evitar essa procura constante de novos produtos e fontes de investimento pode ser um resultado perigoso dessa crise", acrescentou. Gomes da Silva defendeu as empresas multinacionais que anunciaram prejuízos com operações de derivativos nas últimas semanas. Segundo ele, essas companhias estavam sendo muito prejudicadas nas exportações e as operações de hedge eram sugestões dos próprios analistas para que elas pudessem se proteger da valorização cambial. "Eu não sei o caso particular de cada empresa, se houve excesso de alavancagem, mas as empresas que divulgaram essas perdas são sólidas e não devem ser criticadas. Talvez tenham assumido muito risco, mas ninguém poderia achar que isso aconteceria há dois meses", explicou. Na avaliação dele, o Brasil deve crescer 3,5% em 2009, o que não é ideal, mas é positivo em um momento de crise. Gomes da Silva destacou que alguns dos problemas da economia brasileira se tornaram virtudes neste momento. Ele disse que os altos níveis de compulsório permitem agora que o Banco Central tenha a possibilidade de baixar os juros e de liberar o dinheiro do compulsório para irrigar os bancos. "Algum arranhão vamos ter, alguma desaceleração, mas nada dramático como os mercados estavam refletindo na semana passada", afirmou. Málaga ressaltou que o real desvalorizado permitirá que a relação dívida/PIB do País chegue a 38% em 2009 e 35% em 2010. Apesar disso, com a queda do preço das commodities, será difícil financiar o déficit em conta corrente. Schwartsman disse que o Brasil hoje sofre menos com a crise do que seus pares e também menos do que já sofreu no passado. "Méritos para quem em última análise garantiu a manutenção dessa política econômica", afirmou.

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