Inforgráficos/Estadão
Inforgráficos/Estadão
Imagem Celso Ming
Colunista
Celso Ming
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Pior do mesmo

Não há confiança e o rombo das contas públicas bloqueia qualquer iniciativa de avanço da indústria

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2015 | 21h27

É morro abaixo. A produção industrial de agosto caiu 1,2% em relação a julho e 9,0% em relação a agosto do ano passado. Em 12 meses, o recuo é de 5,7%. E as estatísticas já disponíveis de setembro indicam que seguirá deslizando.

Não dá para dizer que a recuperação está logo adiante, porque não há confiança e o rombo das contas públicas bloqueia qualquer iniciativa de avanço. A reforma ministerial que deveria dar força à presidente Dilma, para garantir as bases para uma virada, foi a decepção que se anunciava.

Está tudo tão intrincado que já não se sabe se é a crise política que impede a saída da crise econômica ou se é a crise econômica que impede a saída da crise política. O que se pode dizer é que a desordem fiscal deixa o governo engessado, dependente das concessões humilhantes a que está sendo submetido para obter sabe-se lá o quê.

Se as contas públicas estivessem equilibradas, o governo poderia muito. Poderia até construir as pirâmides físicas ou sociais de seus sonhos; poderia investir na pátria educadora; e poderia definir uma estratégia de longo prazo para o Brasil.

Isso vale sempre. Se for de esquerda, o governo poderia perfeitamente colocar em prática uma plataforma de desenvolvimento social; se for de direita, poderia dar prioridade ao desenvolvimento dos negócios ou do que fosse. O voto popular diria depois qual seria a resposta mais adequada aos objetivos nacionais. Mas sem equilíbrio nas contas públicas, não há programa que resista e as alianças políticas se desfazem, como agora.

A dívida pública caminha rapidamente para uma situação insustentável. Por isso, tudo agora depende da recuperação das finanças públicas. Essa situação não começou agora. A política do primeiro período Dilma partia do princípio de que bastava querer para que as coisas acontecessem. No seu diagnóstico, o Brasil desfrutava de uma situação econômica sólida que nem a maior crise depois dos anos 30 o atingia; chegava aqui, quando muito, uma marolinha, como dizia Lula. Depois se viu que não foi bem assim.

Por todas as agruras posteriores, a presidente Dilma culpou a crise global. A marolinha virou tsunami, expressão que ela própria adotou. Mas a política econômica do seu governo não estava desenhada para o fim do ciclo das commodities, mas para o cenário anterior, o da abundância. E chegou rapidamente o dia em que a farta distribuição de benefícios não coube mais no orçamento.

A presidente Dilma não tem a opção irresponsável sugerida pelo PT no documento elaborado pela Fundação Perseu Abramo, cujo conteúdo está sendo rechaçado até mesmo por economistas antes identificados com posições desenvolvimentistas.

A saída é a retomada do crescimento que garanta a arrecadação necessária para a cobertura das despesas públicas. Por isso, a recuperação da indústria é tão importante. Mas, para isso, é necessário o ajuste, o retorno da confiança, os investimentos e o resto.

Esta não é proposta de uma equipe ortodoxa, mas da própria presidente Dilma, embora colocada em prática a contragosto e com o nariz tapado.

CONFIRA: 

CPMF em dobro

Se as propostas dos novos ministros do governo Dilma forem da mesma qualidade da que acaba de ser apresentada pelo novo ministro da Saúde, Marcelo Castro (PMDB-PI), então estamos mal parados.

Na entrada e na saída

Mal foi nomeado, o ministro produziu um projeto estapafúrdio: o de que a nova CPMF viesse com dupla mão de direção: cobrança tanto na entrada como na saída da conta bancária. Ele falou em cobrança tanto no crédito como no débito, “para ter receita em dobro e, assim, gerar recursos não só para a Previdência Social, mas também para a Saúde, para os Estados e para os municípios”.

 

Prêmio IgNobel

O novo ministro também não se prende pela modéstia. Acha que a ideia dele é “simples e engenhosa”, porque arrecadaria em dobro sem aumentar a alíquota de 0,20%. Em vez de R$ 32 bilhões por ano, proveria R$ 64 bilhões. Com essa, candidata-se ao Prêmio IgNobel de Economia e Administração Pública.

Tudo o que sabemos sobre:
Celso Mingindústriaajuste fiscal

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.