Piora a situação mundial

A situação econômica mundial vem piorando a cada semana e pode se encaminhar para um impasse muito grave, que poderia colocar em risco a recuperação mundial hoje existente, mesmo que muito desigual entre regiões, como se sabe.

JOSÉ ROBERTO MENDONÇA DE BARROS, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2010 | 00h00

O centro do problema é o impasse entre a China e os Estados Unidos, que pode ser assim resumido: a economia americana vem perdendo força desde o segundo trimestre do ano em curso. A situação de desemprego não melhora de forma perceptível, bem como o mercado imobiliário ainda anda muito devagar. Na realidade, um inesperado problema apareceu nas últimas semanas sob a forma de uma grande confusão nos processos de recuperação de residências, cujas hipotecas não foram honradas. Como muitos dos contratos originais foram feitos com documentação equivocada ou incompleta, a retomada de milhares de casas começou a enfrentar dificuldades operacionais imensas, o que levou vários bancos a suspender essas operações.

É possível que novos prejuízos apareçam nos balanços de várias instituições financeiras complicando ainda mais a situação. O resultado é que o consumo não melhora e a atividade não cresce. Entretanto, as empresas americanas, que realizaram grande ajuste em seus negócios no período recente, nunca estiveram tão bem, gerando resultados e caixa muitas vezes recordes; como o mercado está fraco, os bons resultados não se traduzem em novos investimentos, fechando o círculo. O pior de tudo é que a saída desse impasse está muito difícil: de um lado, o executivo já gastou um volume enorme de recursos fiscais nos programas de ajuda que já venceram ou que estão terminando agora.

Mais ainda, a fragilidade política do presidente Obama e a grande dívida pública acumulada impedem uma nova rodada de estímulos por parte do Tesouro. Por outro lado, o Banco Central americano, após emitir sinais de dúvidas acerca do que fazer, sinalizou que poderá realizar uma nova rodada de expansão monetária via compra de ativos financeiros. A inundação de liquidez já ocorrida e a ocorrer vêm provocando uma forte desvalorização da maior parte das moedas frente ao dólar, com a notável exceção do yuan chinês. Finalmente, as autoridades americanas, ansiosas com a situação, estão pressionando fortemente a China para reduzir seu saldo em conta corrente por meio, especialmente, da valorização do yuan. O Congresso americano completa a pressão sobre a China ameaçando votar após novembro medidas fortemente protecionistas.

A China, por sua vez, não contribui para o reequilíbrio do mundo, ao manter sua moeda superdesvalorizada em relação ao dólar e grandes superávits em conta corrente, empurrando o custo do ajuste para os outros países, como o Brasil. Apenas muito recentemente os chineses passaram a permitir uma leve valorização de sua moeda (algo como 2,6%) e promoveram um reajuste dos juros que, entretanto, ainda são mantidos negativos em termos reais. Na verdade, os chineses admitem caminhar para uma situação mais equilibrada (isto é, um yuan mais valorizado e um superávit em conta corrente menor) em quatro anos ou mais. Esse longo período reflete não apenas o modo chinês de avançar, mas o argumento de que o país não pretende de forma alguma repetir a experiência japonesa do acordo do Plaza, de 1985. Apenas para recordar: após uma grande pressão dos países ricos, o Japão concordou em valorizar sua moeda, que passou rapidamente de algo como 240 ienes por dólar para aproximadamente 120 em pouco tempo; como resultado, criou-se uma famosa bolha de ativos que explodiu em poucos anos e que acabou por resultar numa estagnação econômica e numa persistente deflação que se mantém até hoje. No fundo, a China argumenta que não será o Japão do século 21.

Estabeleceu-se, portanto, um impasse, como se viu na recente reunião do FMI. Uma nova tentativa de acordo global foi marcada para a reunião do G-20. Embora seja evidente que a única solução adequada seria um acordo entre os principais países, o mesmo é particularmente difícil porque ninguém está disposto a assumir a sua parte no custo do ajuste. A fragilidade da atual liderança internacional, já mencionada neste espaço em mais de uma ocasião, certamente não ajuda. Também não ajuda a reiterada visão de centro acadêmico do governo atual, que defende que apenas os Estados Unidos são os responsáveis pela crise, quando a China também contribui para o desequilíbrio, uma vez que mantém sua moeda superdesvalorizada, o que resulta em crescentes exportações para o Brasil, as quais estão estrangulando a indústria local.

O impasse é também reforçado pela posição da Alemanha, país com superávit em conta corrente quase tão grande quanto o chinês e que também não se apresenta para contribuir a uma solução construtiva, já que retomou o crescimento.

Nessa situação colocam-se dois problemas sérios, um já atual e o outro potencial. O problema atual é a gigantesca valorização, frente ao dólar, de um grande número de moedas desenvolvidas e emergentes. No caso desses últimos, países como Turquia e África do Sul, que não são grandes exportadores de commodities, sofrem muito; países como o Brasil, competentes na produção e venda de produtos das cadeias de recursos naturais, são parcialmente beneficiados pelas altas cotações, mas têm sua indústria remanescente muito machucada, pois, como já colocamos aqui, a perda de competitividade resultante do dólar barato, do Custo Brasil elevado e de um mercado de trabalho muito apertado é enorme.

O custo potencial acima mencionado é o inicio de uma guerra comercial mais generalizada. Já se observam vários ensaios: a Austrália vai colocar uma tarifa de 40% nas importações de biodiesel americano, a China está reduzindo a quota de exportação de terras-raras (metais indispensáveis para a fabricação de um sem número de produtos de alta tecnologia, setor onde os chineses dominam a oferta global). Esse caso é muito ilustrativo e, embora existam também razões econômicas envolvidas, como a maior tecnificação da indústria chinesa, é evidente que as restrições têm um componente político, lembrando que o país tem poder de retaliação. Finalmente, o Congresso americano ameaça votar amplas medidas protecionistas a partir de novembro, lembrando a tristemente famosa lei Smoot-Hawley dos anos 30, que foi decisiva para jogar o mundo na grande recessão.

Se as dificuldades de um acordo no G-20 prevalecerem, como me parece mais provável, o grande desequilíbrio entre as moedas continuará e, neste caso, a recuperação mundial seguirá lenta e o real muito apreciado, apesar do IOF. O vazamento da demanda para o exterior seguirá crescendo, tanto quanto nosso déficit em conta corrente. Assim, o cenário de 2010 em diante será muito marcado pelo crescimento dos desequilíbrios macroeconômicos, especialmente fiscais, pela perda crescente de competitividade do País e pelo peso do crescimento excessivo do Estado. O preço do excesso de aquecimento atual do País será enorme.

PS. Não posso encerrar este artigo sem mencionar os últimos resultados dos índices de inflação. O IPCA-15 ficou acima de 0,6%, o quadrissemanal da Fipe subiu quase 1%, a prévia do IGP-M foi de 0,89%. Os núcleos subiram e, embora alimentação tenha sido o item mais importante, tudo o que depende de mão de obra subiu firme. Assim, elevamos nossas previsões de inflação em 2010 para 5,4% no IPCA e 10,6% no IGP-M. Está difícil ver a desinflação do Banco Central, mesmo com binóculo.

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