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Pirro & Pirra

A destruição de capital político que a presidente Dilma vem colhendo para evitar o impeachment é a busca da vitória a qualquer custo; Se acontecer, deverá ter causado prejuízos irreparáveis para ela, para o PT e também para o Brasil

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2016 | 21h00

Pirro, o rei-general do Épiro (território hoje em boa parte ocupado pela Grécia e pela Albânia), venceu os romanos na batalha de Heracleia (280 a.C.) e de Ásculo (279 a.C). Mas seus exércitos saíram tão destroçados e o desastre foi tão completo que essa vitória ficou historicamente conhecida como derrota: é a vitória de Pirro.

A destruição de capital político que a presidente Dilma vem colhendo com sua obcecada empreitada de defender o direito de envergar a faixa presidencial é tão grande que é inevitável a comparação com a desastrada campanha de Pirro. É a busca da vitória a qualquer custo. Se acontecer, deverá ter causado prejuízos irreparáveis para ela própria, para o PT e, evidentemente, também para o Brasil.

O objetivo da hora da presidente Dilma é arrancar o voto de 171 entre 513 deputados. Para uma Câmara dos Deputados que conta com pelo menos 300 picaretas, conforme conhecida avaliação do ex-presidente Lula, este não parece objetivo tão difícil de atingir.

Para isso estão sendo feitas todas as concessões, enterradas as medidas impopulares que tinham por objetivo resgatar a economia e sacrificados quaisquer princípios que ainda estiverem em pé. O Palácio do Planalto foi transformado em palanque e balcão, não para defesa dos interesses do Estado, mas para leilão de benesses políticas destinadas à defesa do próprio governo Dilma.

É a venda da alma ao diabo. Como resultado provável: adeus resgate das contas públicas. A dívida, a recessão e o desemprego irão para onde tiverem de ir. E as tais políticas sociais ficarão em grande parte nas mãos de oportunistas do baixo clero e, como de hábito, acordos políticos deixam de ser cumpridos. O que seriam, enfim, os dois anos e meio de mandato da presidente Dilma que teriam de ser cumpridos caso o governo consiga aliciar o voto salvador dos tais 171 representantes do povo?

Há quem argumente que, afinal, o atual programa econômico da presidente Dilma, de cuja implantação se encarregaram os ministros Joaquim Levy e Nelson Barbosa, não é lá muito diferente do que já foi apresentado pelo vice-presidente Michel Temer no documento "Uma ponte para o futuro". Nessas condições, não haveria muito por que temer pela legitimidade da presidente Dilma, se ela conseguisse se livrar do impeachment.

No entanto, a Pirra do Palácio do Planalto, que hoje conta com 10% de aprovação popular, sairia dessa parada tão destroçada, que muito dificilmente seria capaz de reconquistar um mínimo de apoio nacional para recompor as condições de governar.

O outro lado argumenta que o vice-presidente Michel Temer, que não consegue unir em torno de si nem o enorme saco de gatos chamado PMDB, também teria dificuldades para unir o País, caso tivesse de assumir o comando. E há ainda o jacá de onde a Operação Lava Jato pode sacar incerta quantidade de cobras e lagartos. 

O que conta é se o governo que sair da atual esparrela conseguirá o mínimo de confiança para remodelar a economia. Sempre haverá mortos e feridos a contabilizar, desde que a vitória não seja transformada em derrota.

CONFIRA:

Gasolina 

Sabe-se lá até que ponto as pressões para redução dos preços dos combustíveis (gasolina e diesel) têm por objetivo desmontar a antipatia do consumidor pela causa da presidente Dilma. 

Populismo cambial

Outra ponta da economia que poderia aliviar as agruras do consumidor é a tendência à baixa do dólar no câmbio interno, que baratearia tanto os produtos importados como as viagens ao exterior. Mas essa baixa foi denunciada, no passado, como populismo cambial, fator que contribui para o enfraquecimento da indústria.

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