Taba Benedicto/Estadão
Transferência sem taxa, fácil e com repasse imediato atraiu a comerciante Fernanda Baraldi ao Pix Taba Benedicto/Estadão

Pix já supera boleto, TED e DOC juntos e conquista pequenos comerciantes

Transações entre pessoas físicas e empresas tendem a avançar nos próximos meses com adesão de redes de varejo à nova modalidade

Renée Pereira e Érika Motoda, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2021 | 14h00

Com uma cesta de doces pendurada no pescoço e um QR Code do Pix colado na frente, Gustavo Colucci Borges percorre 20 quilômetros por dia para realizar o sonho de se tornar um empresário de sucesso. Desde junho, ele vende chocolates na Avenida Paulista para arrecadar dinheiro e patrocinar posts na internet. Aos 18 anos, ele vende produtos digitais, como cursos online, no chamado boca a boca.

Para atingir mais clientes, usa o dinheiro conseguido com a venda dos chocolates para fazer posts na internet. O jovem morador de Itaquera pretende continuar vendendo doces até agosto para impulsionar os negócios nas redes. Como se trata de um trabalho temporário, ele não tem maquininha de cartão. Aceita só dinheiro e Pix, que é a transferência instantânea. Borges diz que 40% das suas vendas são feitas no Pix, com o tíquete médio de R$ 7,50. Já quando as vendas são feitas em dinheiro, a média cai para R$ 5.

O jovem segue uma tendência que caiu na graça do brasileiro desde o fim de 2020. Lançado em novembro, o Pix já superou o boleto bancário, o cheque e as transferências por meio de DOC, TED e TEC, em número de transações. Pelos dados do Banco Central (BC), em maio, foram feitas 649,1 milhões de transações ante 342 milhões de boleto bancário, 126 milhões de transferências tradicionais e 18 milhões, de cheques.

Quem mais sofreu com essa expansão do Pix foram as transferências feitas por meio de DOC, TED e TEC. De novembro do ano passado até maio o número de transações mensais nessas modalidades caiu 41% enquanto o Pix avançou 1.733%, segundo o BC. “A grande sacada do Pix é que tira a hegemonia do banco para processar o pagamento, aumenta o nível de concorrência e representa uma grande vantagem para o consumidor”, afirma o presidente da Trevisan Escola de Negócios, VanDick Silveira.

Para alguns especialistas, o crescimento acelerado do Pix pode ser uma ameaça tanto para bancos quanto para empresas de cartão e de maquininhas. Em tempos de juros baixos, as instituições financeiras ganham muito com as receitas de serviços, composta por tarifas pagas pelos clientes, entre elas as de DOC e TED, cuja operações estão em queda. 

Hoje as operações de Pix feitas por pessoa física são isentas, mas pessoa jurídica paga uma taxa – menor do que a das transferências tradicionais. Mas isso também pode mudar dependendo do mercado. “Se alguma fintech fizer ação para isentar essas taxas como forma de atrair clientes, outros bancos podem ter de seguir o movimento, ou pelo menos reduzir as taxas”, diz Rone Charles, presidente da Landlojas – uma startup de soluções para e-commerce da Woli Ventures.

O diretor de inovação, produtos e serviços bancários da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Leandro Vilain, diz que inicialmente houve uma preocupação de que ocorresse uma migração muito forte de outros meios de pagamento para o Pix. Mas, apesar dos números do BC, ele vê como marginal a queda do volume de transações de TED (as de DOC já vinham caindo).

Segundo ele, um estudo de 2014 mostrava que 38% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro era de transações em dinheiro. Esse trabalho foi reforçado por outro que mostra que 40% dos gastos das famílias brasileiras são em espécie. “Isso me faz concluir que o Pix ocupou o espaço das transações em espécie, o que é uma boa notícia, pois melhora a arrecadação de impostos e reduz custos para o consumidor.”

Segundo os dados do BC, 79% das transações de Pix são feitas entre pessoas físicas. E a maior parte tem idade entre 20 e 29 anos, como ocorre na banca da Ana Lucia Pereira da Silva, de 52 anos, que vende vários tipos de gorros. Ela adotou o Pix exatamente para atender a “garotada” que está sempre com o celular na mão e correndo. Assim, não perde a venda.

As transações entre pessoas físicas e empresas ainda são baixas, mas tendem a avançar bastante nos próximos meses com a adesão de redes de varejo. A comerciante Fernanda Baraldi, que tem um show room de flores artificiais na Lapa e um box no Ceagesp, conta que adotou o Pix no começo do ano, mas só agora está divulgando mais e incentivando os clientes a pagarem de forma instantânea. 

“Temos priorizado essas transferência pelo fato de não ter taxa (das máquinas de cartão) e o dinheiro cair na hora. Damos descontos que variam de 5% a 10% para pagamento nessa modalidade”, diz ela, destacando que o Pix representa cerca de 15% dos pagamentos da loja. Ela conta que, no passado, tinha conta em vários bancos para que os clientes pudessem fazer transferência, sem taxa. “Mas fomos diminuindo as contas nos bancos e sentimos uma certa resistência dos clientes em fazer transferência. Com isso, a maioria foi preferindo pagar com cartão.”

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Cultura de compra a prazo ajuda o cartão de crédito a resistir ao avanço do Pix

Maquininhas continuam importantes na relação com o consumidor, mas o cartão de débito está ameaçado

Renée Pereira e Érika Motoda, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2021 | 14h00

Desde o lançamento em novembro do ano passado até março, a participação do Pix subiu de 7% para 30%, segundo dados da Federações Brasileira de Bancos (Febraban). Isso considerando apenas as transferências por DOC/TED e maquininhas de cartões. A fatia desses dois meios de pagamento caiu, respectivamente, de 25% para 19% e de 68% para 51%.

Apesar dos números, o diretor da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviço (Abecs), João Pedro Paro Neto, diz que a indústria de cartões cresce a uma média de 18% ao ano e faz 45 mil transações por minuto. Para ele, o Pix é uma forma de transferência bancária, não um meio de pagamento. “Além disso, nossas soluções são completas, com segurança e vários formatos, com compras à vista, parcelado e, em breve, em forma de crediário.”

Para ele, cabe ao cliente escolher a melhor forma de fazer seus pagamentos. “No Brasil, os consumidores têm a tradição de fazer compras a prazo”, destaca Eduardo Dotta, professor do Insper. Nesse ponto, o Pix não deve provocar muitas alterações, como mostram os microempreendedores Rosangela Aparecida Teixeira de Oliveira, de 54 anos, e Aparecido “Shidon” Soares Filho, de 66 anos

Eles oferecem praticamente todas as modalidades de pagamento: crédito, débito, dinheiro e, agora, Pix. Para eles, seria mais vantajoso o Pix, já que não há taxas. Mas, segundo Rosangela, que faz artesanato em crochê, 90% das vendas ainda são feitas na maquininha – ela tem três, de diferentes marcas. As taxas cobradas pelas empresas de meios de pagamento são diferentes, mas, no geral, são cobrados valores maiores quando a opção escolhida é o crédito.

Se para o cartão de crédito o Pix não representa uma ameaça, o mesmo não ocorre com os cartões de débito, diz o presidente da fintech Jazz, José Roberto Kracoskanky. Na avaliação dele, o avanço da nova modalidade vai exigir um reposicionamento das empresas de maquininhas, uma vez que o Pix deve ser incrementado daqui para frente com novas funcionalidades, como o Pix agendado, Pix Saque e Pix Troco.

Uma pesquisa da consultoria GMattos com lojas online mostra que a aceitação do Pix nas operações pela internet triplicou de janeiro para cá. Além disso, a conversão do Pix é de 90% enquanto que numa compra com débito é de apenas 30%. Ou seja, 70% de quem tenta pagar uma compra online com débito não conclui a operação, diz o presidente da GMattos, Gastão Mattos. De acordo com a pesquisa, para a loja, “se o consumidor tiver Pix e Débito (qualquer tipo), a opção pelo Pix  é mais favorável, implicando receitas três vezes superiores dado o ganho na conversão do pagamento.”

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Saques e troco com Pix são as próximas novidades

Sistema de pagamentos deve ganhar novas funcionalidades neste semestre e no ano que vem

Renée Pereira, O Estado de S. Paulo

18 de julho de 2021 | 14h00

O chefe do departamento de Competição e de Estrutura do Mercado Financeiro do Banco Central (BC), Angelo José Mont’Alverne Duarte, diz que ao logo do segundo semestre o Pix deve ganhar uma série de novas funções. “Lançamos o Pix 1.0 no ano passado apenas com o básico e agora estamos agregando várias funcionalidades.”

A primeira fase do Pix cobrança, que permite o pagamento de contas, já está em operação e, a partir de setembro, a expectativa é que todas as instituições ofereçam a opção do Pix agendado. Para o último trimestre, está previsto Pix saque e Pix troco. Nessa função, o cliente poderá fazer saques em estabelecimentos comerciais ou fazer compra com retirada de dinheiro. 

Duarte destaca que, em 2022, outras novidades serão lançadas. Um produto que está sendo elaborado é o Pix garantido, em que o consumidor poderá parcelar uma compra e o vendedor terá garantia de pagamento de uma instituição. Há ainda o QR code do pagador, ferramenta em que o consumidor poderá estar offline para fazer a operação.

O chefe do BC diz que já era esperada a forte expansão das transações de pessoa física para pessoa física. As operações de pessoa física com empresas ainda têm uma participação pequena, mas devem crescer bastante daqui para frente. Isso porque as empresas precisavam de um tempo para se adaptar e criar seus próprios sistemas. “Num estabelecimento pequeno, o cliente pode fazer um Pix e mostrar para o dono. Mas isso não é viável numa grande rede de varejo, por exemplo.”

Para ele, a substituição do TED pelo Pix é clara. Mas o executivo não vê uma ameaça aos bancos. “As instituições são livres para oferecer vários serviços atrelados ao Pix. Há uma grande oportunidade para desenvolverem novos produtos.”

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