Alan Santos/PR - 24/9/2019
Trump cumprimenta Bolsonaro em Assembléia-Geral da da ONU, em Nova York. Alan Santos/PR - 24/9/2019

Planalto descarta novas ações de Trump, após ameaça de taxar Brasil

Governo Bolsonaro monitora sinais dos EUA depois do anúncio feito pelo Twitter pelo presidente americano

Fabrício de Castro e Lorenna Rodrigues, O Estado de S. Paulo

09 de dezembro de 2019 | 04h00

BRASÍLIA -- A eleição presidencial nos EUA em 2020 colocou o Brasil como um dos possíveis alvos da guerra comercial travada pelo presidente Donald Trump com outros países. Mais do que influenciar a balança comercial entre os dois países – hoje favorável aos EUA, e não ao Brasil –, o movimento de Trump busca atrair o eleitor de Estados-chave.

Trump anunciou o restabelecimento de tarifas ao aço e alumínio produzidos pelo Brasil. Atualmente, a categoria mais importante na pauta de exportação entre os dois países é a de óleos brutos de petróleo, com 10% de participação. Na sequência, aparecem os produtos semimanufaturados de ferro e aços, com 9,6%. Entre os principais produtos exportados para os EUA estão ainda aviões, celulose, gasolina e máquinas de terraplenagem.

O Estadão/Broadcast apurou que o governo brasileiro monitora a possibilidade de que os “arroubos” protecionistas de Trump se estendam para outros produtos da pauta de exportação para os EUA, mas acredita que isso neste momento é pouco provável.

O economista Nathan Blanche, sócio da Tendências Consultoria Integrada, afirma que hoje os principais compradores de commodities agrícolas no mundo são a China e a Índia, e não os EUA. “Estes dois países compram 48% das commodities e dificilmente deixarão de comprar”, disse Blanche. “Ao contrário. Basta ver o que ocorreu com a carne na China.”

Recentemente, a China elevou as compras de carne do Brasil e também de outros países, como Argentina, Paraguai e Uruguai. O movimento tem como objetivo suprir a demanda no país asiático, após um surto de peste suína na região.

Para o professor de Relações Internacionais Eduardo Mello, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), as declarações de Trump têm como alvo o eleitor americano, e não especificamente o Brasil. “A situação tem sido muito difícil para os apoiadores de Trump nos ‘swing states’”, explica Mello, em referência aos Estados americanos que, tradicionalmente, oscilam entre candidatos republicanos e democratas nas eleições.

São estes os locais que, no limite, acabam por decidir as votações presidenciais. Entre eles, estão quatro Estados que tendem a estar no centro da luta pela Casa Branca no próximo ano: Michigan, Pennsylvania, Wisconsin e Flórida. 

“Trump precisa agitar a base, precisa achar novas maneiras de conseguir apoio”, disse Mello. “Ele está tentando emplacar um inimigo. E a moeda brasileira e a moeda argentina desvalorizaram bastante”, acrescentou. Com o real mais barato em relação ao dólar, o aço brasileiro torna-se ainda mais competitivo no exterior. Para Mello, o governo dos EUA pode de fato adotar a taxação dos produtos brasileiros, de olho na reeleição de Trump.

Os indicadores mostram que a aprovação de Trump está atualmente em patamar abaixo do registrado por outros presidentes dos EUA em igual momento do governo. Conforme o site político FiveThirtyEight, que mantém um indicador diário, o índice de aprovação de Trump no dia 1.050 de seu governo estava em 41,8%. O porcentual é menor que o registrado por Barack Obama (44,3%), George W. Bush (52,4%), Bill Clinton (52,0%) e George H. W. Bush (50,9%), para citar apenas os mandatários mais recentes.

“Há um componente político bem grande”, disse a economista Vitoria Saddi, professora do Insper em São Paulo, ao comentar a ameaça de Trump ao aço brasileiro. “Trump vem citando retaliações comerciais contra a China, por exemplo, desde o início do ano. Então, não duvido que faça isso com o Brasil.”

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