Planalto fala em ''''efeito marginal''''

Instabilidade global faz governo rever projeções, mas sem perder otimismo quanto ao crescimento da economia

Expedito Filho, O Estadao de S.Paulo

26 de janeiro de 2008 | 00h00

A crise financeira mundial, marcada pela desaceleração da economia americana, é o primeiro teste do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, após um período de cinco anos com dinheiro fácil e bons ventos de Wall Street. Ela ainda não chegou ao Brasil, mas já comprou passagem e promete fazer de 2008 um ano muito diferente daquele que passou. No Planalto, a instabilidade global virou assunto do dia, provocou uma reavaliação dos prognósticos para este ano, mas não derrubou o otimismo em relação ao crescimento econômico. "O que pode acontecer é que deixaremos de ter um ano espetacular para ter um ano muito bom", avaliou para o Estado um ministro da casa.No coração do poder, a idéia é não superestimar a crise. O otimismo só não é maior porque o governo brasileiro ainda não tem uma noção clara da dimensão do que está acontecendo nos EUA, mas a orientação política é não temer pelo futuro próximo. "A ordem do presidente para o ministro da Fazenda, Guido Mantega, é manter os olhos abertos e focados na crise, mas sem ficar nervoso", resumiu um assessor direto do presidente.Entre os principais assessores de Lula, diferente do que aconteceu nos anos Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), existe a crença absoluta de que o País fez o dever de casa e se encontra preparado para enfrentar a ameaça externa. Até no caso de uma recessão, a previsão chapa branca é que o País seria afetado "apenas de forma marginal." Com US$ 185 bilhões de reservas, o Ministério da Fazenda não precisará recorrer a empréstimo-ponte junto ao Fundo Monetário Internacional (FMI) para responder a um ataque especulativo. Além disso, o País reduziu suas exportações para os EUA para 17% e impulsionou a economia, distribuindo renda por meio de programas sociais. "Tudo isso era contestado antes, mas agora a crise está demonstrando o quanto as medidas foram acertadas. O volume das reservas foi criticado, a redução das exportações para os EUA e até o Bolsa-Família", ironizou o ministro palaciano.CORTAR GASTOS Apesar de concordar com a avaliação positiva da equipe do presidente Lula, o senador Aloizio Mercadante (PT-SP) recomenda atenção. Ele acredita que é hora de pôr em pauta a discussão em torno da reforma tributária, para recuperar a perda com a CPMF, mas considera necessário o ajuste fiscal. "Devemos cortar gastos e reduzir despesas correntes e preservar políticas sociais nas áreas de saúde e educação. Esse é o momento para uma saída criativa."A primeira crise global no horizonte do governo Lula tem sido encarada de forma cautelosa pela oposição. A indefinição da real dimensão e profundidade do problema reduziu o debate a uma discussão retórica. Como não está claro se trata de desaceleração ou recessão da economia americana, as críticas continuam dentro do jogo de um ano eleitoral.O senador Arthur Virgílio (AM), líder do PSDB no Senado, por exemplo, enxerga no fim da farra de gastos o sinal para que o Planalto se credencie a uma negociação séria com a oposição, caso a crise se agrave e atinja o Brasil. "O governo vai ter de acabar com esses gastos com diárias, cartões de crédito, passagens e ampliação dos cargos de confiança. Vai ter de enfrentar a tragédia fiscal porque está gastando mais do que arrecada."Baseado em avaliações de banqueiros brasileiros, como o economista Octavio de Barros, diretor de Pesquisa Macroeconômica do Bradesco - que trabalha com uma taxa de crescimento da economia de 4,5% para este ano, com viés de alta -, o governo continua apostando no descolamento da neurose econômica e acredita que nunca em sua história o Brasil esteve tão sólido diante de uma ameaça externa de crise financeira global.

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