Jamil Chade/Estadão
Jamil Chade/Estadão

General Heleno atribui a cansaço o cancelamento de pronunciamento de Bolsonaro em Davos

Segundo Heleno, o presidente não ficou incomodado com as críticas da imprensa; Bolsonaro participaria de coletiva com os ministros Sérgio Moro (Justiça), Paulo Guedes (Economia) e Ernesto Araújo (Relações Exteriores)

Célia Froufe e Adriana Fernandes, enviadas especiais

23 Janeiro 2019 | 13h19
Atualizado 24 Janeiro 2019 | 12h16

DAVOS - O ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Augusto Heleno, atribuiu à agenda pesada e ao cansaço a decisão do presidente Jair Bolsonaro (PSL) de cancelar pronunciamento conjunto no Fórum Econômico Mundial, em Davos. O presidente participaria de coletiva de imprensa com os ministros Sérgio Moro (Justiça), Paulo Guedes (Economia) e Ernesto Araújo (Relações Exteriores), que estava marcada para as 16 horas (13h de Brasília) desta quarta-feira, 23.

"A agenda é pesada. Ele já não dorme muito bem, de muito tempo, não é de hoje. Se der uma chancezinha, às vezes ele dorme no carro porque a programação é cansativa”, explicou o general, depois de o presidente ter retornado ao hotel. Segundo Augusto Heleno, "não há nada além disso" que tenha pesado na decisão do presidente. O ministro disse que os encontros em Davos têm sido ótimos e que o almoço desta quarta foi bastante produtivo.

Apesar da justificativa de Heleno, havia rumores extraoficiais de que a coletiva foi cancelada porque o governo estaria insatisfeito com a cobertura da imprensa durante o Fórum e com as perguntas sobre Flávio Bolsonaro

O ministro negou que Bolsonaro tenha ficado incomodado com as críticas ao seu discurso na abertura do Fórum Econômico Mundial. Segundo ele, o governo já tinha ideia de que haveria críticas em relação à curta duração do pronunciamento. “É sempre assim. Se o discurso for longo, se estendeu demais, tinha gente dormindo na plateia. Se é curto, deixou de dar detalhes."

Ele reafirmou o que disse ao Estadão/Broadcast na terça-feira, 22, sobre a proposta de que cada parágrafo do discurso de Bolsonaro tivesse uma “ideia de força”, "coerente com tudo que ele tem falado”, explicou.

Para o ministro, o público da abertura do Fórum, pelo fato de ser heterogêneo em termos de conhecimento do perfil do povo brasileiro, não era o ideal para apresentar detalhes da proposta de reforma da Previdência.

“Como vai apresentar detalhes da reforma da Previdência num auditório que desconhece esse perfil da população brasileira? Como vai explicar idade e não sei o quê? É uma coisa inexplicável. É jogar conversa fora”, disse o  ministro, que foi “escalado” para explicar os motivos de o presidente ter cancelado o pronunciamento que faria nesta quarta. Heleno acabou dando uma entrevista no hotel onde o presidente está hospedado. 

O ministro negou também que o presidente tenha se sentido mal. “Sentiu nada. Você não viu a velocidade que ele saiu de lá? Essa velocidade não é de alguém que está sentindo alguma coisa. É de alguém que está se sentindo bem”, disse o general.

Ao ser questionado sobre outros discursos de abertura do Fórum terem durado mais tempo, Heleno respondeu que o presidente tem dito que iria fazer um “Brasil diferente”. “Para fazer tudo igual, a gente vai embora para casa”, disse. Ele insistiu que a ideia do discurso curto era deixar uma mensagem muito clara.“Se todos pensassem igual, estaríamos numa grande Cuba. As pessoas pensam diferente”, disse Heleno ao rebater avaliação de que Bolsonaro perdeu um grande oportunidade de falar sobre os projetos para o País.

Ele destacou que o governo aceita todos os pensamentos, contrários e a favor. “É assim que funciona uma democracia”, reforçou. Questionado por um repórter, que apontou que antes da entrevista o próprio general havia dito que o comportamento da imprensa incomodava, o ministro admitiu que sim. “De vez em quando incomoda. É óbvio que incomoda. Vocês não sabem por que o comportamento da imprensa às vezes incomoda? Incomoda todo mundo. Vocês são profissionais”.

No final da entrevista, o ministro respondeu uma pergunta sobre a fala do presidente de que “esperava que a esquerda ficasse fora da América Latina". Ele disse que a presença da esquerda como oposição é válida e natural. “É fundamental que exista oposição. A famosa dialética. O que ele (Bolsonaro) está colocando agora é uma sensação de que aqueles que passaram alguns anos combatendo o que a esquerda fez na América Latina, que não resolveu nada, agora têm que dar uma chance”, explicou. Na sua avaliação, a esquerda muitas vezes não admite alternância de poder.

Cancelamento

Até o cancelamento oficial do pronunciamento de Jair Bolsonaro e da coletiva de imprensa dos ministros, os próprios organizadores do Fórum não sabiam explicar o que aconteceria no local marcado para o evento.

Em um primeiro momento, antes do horário previsto para o início da coletiva, surgiu a informação de que o presidente não participaria mais e que os ministros seriam encarregados de falar com os jornalistas. Mais tarde, os organizadores confirmaram que o evento havia sido cancelado por completo. 

Os organizadores do Fórum disseram que não sabiam informar os motivos que levaram à não realização da conferência e pediram aos jornalistas que obtivessem informação diretamente com o governo brasileiro. Muitos estrangeiros procuraram os jornalistas brasileiros para tentar entender o que estava acontecendo.

100 dias

Quize minutos após o cancelamento da coletiva com ministros brasileiros em Davos, o ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, anunciou que fará na tarde desta quarta-feira, 23, uma apresentação das metas para os primeiros 100 dias do governo Jair Bolsonaro.

De acordo com a assessoria da Pasta, o ministro responderá a seis perguntas por meio de um sorteio prévio entre jornalistas. A apresentação está marcada para as 15h30. / Colaboraram Daniel Weterman e Tânia Monteiro

 

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