Reprodução/Economist.com
Reprodução/Economist.com

Planeta celular: onipresente, smartphone é transformador e viciante

Ao lançar o iPhone em 2007, Steve Jobs afirmou que o aparelho iria 'mudar tudo'; o comentário, porém, não foi uma hipérbole: passados oito anos, o smartphone da Apple é o melhor exemplo da tecnologia que define o início do século 21

The Economist

27 Fevereiro 2015 | 21h10

A aurora do planeta dos smartphones ocorreu em janeiro de 2007, quando Steve Jobs, diretor-executivo da Apple, apresentou a um ansioso público de fãs da Apple um pedaço de plástico, metal e silício pouco maior do que uma barra de chocolate. “Isso vai mudar tudo”, prometeu ele. O comentário não foi uma hipérbole. Passados oito anos, o iPhone da Apple é o melhor exemplo da tecnologia que define o início do século 21.

Os smartphones são importantes em parte por causa de sua onipresença. Tornaram-se os dispositivos com vendagem mais rápida de todos os tempos, ultrapassando o crescimento dos simples telefones celulares que os precederam. Quatro smartphones são vendidos para cada computador pessoal. Atualmente, metade da população adulta tem um smartphone; até 2020, essa proporção será de 80%. Os smartphones também penetraram em cada aspecto da vida cotidiana. O cidadão americano médio passa mais de duas horas por dia enterrado num aparelho do tipo. Indagados a respeito do tipo de mídia do qual mais sentiriam falta, os adolescentes britânicos mencionaram os smartphones mais do que as TVs, PCs e videogames. Quase 80% dos donos de smartphones verificam mensagens, leem notícias ou usam outros serviços do aparelho menos de 15 minutos depois de acordarem. Cerca de 10% admitem ter usado o dispositivo durante o sexo.

O quarto é apenas o começo. Os smartphones são mais do que a rota mais conveniente de acesso online, assim como os carros são mais do que motores sobre rodas e os relógios não servem apenas para contar as horas. Assim como ocorreu com o carro e o relógio em suas épocas, atualmente o smartphone se encaminha para melhorar a vida do usuário, reformar indústrias inteiras e transformar sociedades - de maneiras que os adolescentes usuários do Snapchat nem podem imaginar.

Fono sapiens. O poder transformador dos smartphones vem do seu tamanho e capacidade de conexão. O tamanho faz deles os primeiros computadores verdadeiramente pessoais. O celular usa o poder de processamento dos computadores de ontem - até o modelo mais básico tem acesso a uma capacidade de processamento numérico superior à da NASA na época do pouso do homem na lua em 1969 - e o aplica às interações humanas básicas. Como a transmissão de dados é barata esse poder está à disposição em movimento. Desde2005 o custo de transmissão de um megabyte via sinal sem fio caiu de US$ 8 para poucos centavos de dólar. O preço segue caindo. O monótono e antigo PC que ocupa a escrivaninha não sabe muito a nosso respeito. Mas os celulares nos acompanham por toda parte - sabem onde estamos, quais sites visitamos, com quem falamos, e até como está nossa saúde.

A combinação de tamanho e conectividade significa que esse conhecimento pode ser compartilhado e agregado, unindo os universos material e informacional de maneiras que são ao mesmo tempo profissionais e pessoais. O Uber conecta motoristas disponíveis a corridas próximas a preços mais baixos; o Tinder coloca as pessoas em contato com possíveis interesses românticos. No futuro, o celular poderá recomendar uma mudança de carreira ou marcar uma consulta no médico para tratar de um distúrbio cardíaco antes mesmo que saibamos da existência do problema.

Como ocorre com todas as tecnologias, esse futuro evoca uma série de preocupações. Algumas delas, como o "torcicolo de mensagem” (inclinar a cabeça sobre a tela do celular aumenta o estresse na coluna), são sem dúvida passageiros. Outros, como a dependência - os usuários de smartphone demonstram “nomofobia" quando se percebem de mãos vazias - são uma medida de sua utilidade e do vício que induzem. Afinal, as pessoas também detestam ficar sem carro ou sair sem relógio.

O maior temor envolve a privacidade. O smartphone transforma a pessoa ao seu lado no potencial exibidor de nossos momentos mais íntimos ou constrangedores. Muitos desenvolvedores de aplicativos, que sabem muito a respeito dos usuários, vendem dados sem revelar os detalhes disso ao púbico; as políticas de privacidade nos celulares costumam ser documentos tão longos quanto Hamlet. E, se os documentos vazados estiverem corretos, a agência de espionagem britânica por sinais, GCHQ, conseguiu invadir o sistema de uma das principais fornecedoras de cartões SIM para bisbilhotar as chamadas telefônicas do público. Se os espiões de governos democráticos fazem isso, podemos ter certeza que os regimes autoritários farão o mesmo. Os smartphones darão aos ditadores um alcance sem precedentes para a espionagem e repressão de seus subjugados.

Os aplicativos imprevisíveis. Mas há três benefícios contra essas ameaças à privacidade. Para começar, os autocratas não farão como quiserem. Os smartphones são o veículo para trazer outros bilhões de pessoas à rede. O modelo mais barato pode ser encontrado por US$ 40, e os preço devem cair ainda mais. Os mesmos celulares que permitem aos governos espionar seus cidadãos também registram a brutalidade dos serviços de segurança e disseminam informações e opiniões dissidentes. Eles alimentam a demanda por autonomia e ajudam os movimentos de protesto a ganhar corpo. Um dispositivo que confere tanto poder ao indivíduo tem o potencial de desafiar o autoritarismo.

O segundo benefício está em todos esses dados que as empresas parecem tão interessadas em obter. A ciência social convencional foi prejudicada pelos conjuntos limitados de dados que podiam ser reunidos. Os smartphones são dispositivos censitários portáteis, criando um retrato mais detalhado da sociedade e fazendo-o em tempo real. Governados por regras adequadas, os dados pessoais anônimos podem ser usados, entre muitas outras cosas, para otimizar o fluxo do trânsito, evitar o crime e combater epidemias.

O terceiro benefício é econômico. Alguns estudos revelam que, nos países em desenvolvimento, cada dez celulares por grupo de 100 pessoas aumenta o ritmo de crescimento do PIB per capita em mais de 1% - ao atrair as pessoas para o sistema bancário, por exemplo. Os smartphones vão reformar indústrias inteiras, a uma velocidade jamais vista. O Uber já se tornou um nome conhecido, operando em 55 países, mas ainda não chegou ao quinto aniversário. O WhatsApp foi fundado em 2009, e já lida com 10 bilhões de mensagens a mais do que o sistema global de mensagens SMS. O celular é uma plataforma, e as startups podem criar a um custo baixo aplicativos para testar uma ideia - e então passar para um lançamento global rapidamente caso o público goste dela. É por isso que o aparelho vai desencadear a criatividade numa escala planetária.

Por sua natureza, as tecnologias influentes fazem perguntas difíceis à sociedade, especialmente conforme as pessoas se adaptam a elas. O caso dos smartphones não é diferente. Se os cidadãos não forem protegidos de olhares curiosos, alguns vão sofrer e outros darão as costas à tecnologia. As sociedades terão de desenvolver novas normas e as empresas terão de aprender a equilibrar privacidade e lucro. Os governos terão que definir o que é aceitável. Mas, em breves oito anos, os smartphones transformaram o mundo - e eles mal começaram a fazê-lo.

© 2015 The Economist Newspaper Limited. Todos os direitos reservados.

Da Economist.com, traduzido por Augusto Calil, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado no site www.economist.com

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.