Felipe Rau/Estadão - 23/10/2015
Felipe Rau/Estadão - 23/10/2015

Planeta está no 'cheque especial' do meio ambiente, mostra livro

'Nem negacionismo nem apocalipse', de Gesner Oliveira e Artur Ferreira, aponta problemas e caminhos, nas perspectivas globais e brasileira, sobre a questão ambiental

Felipe Siqueira , O Estado de S.Paulo

07 de maio de 2021 | 13h39

O planeta está no “cheque especial” ambiental e a natureza parece ansiosa para cobrar essa dívida, dizem o economista Gesner Oliveira e o administrador Artur Ferreira, os autores do livro Nem negacionismo nem apocalipse - Economia do meio ambiente: uma perspectiva brasileira.

Para eles, a analogia com o cheque especial faz sentido porque os problemas ambientais são cumulativos, assim como os juros. “Se um país emite 1 tonelada a mais de carbono no ano, os danos ambientais vão aumentando ao longo dos anos. Se você jogar papel no chão, tem um dano, se passar 20 anos usando lixão de forma inadequada, o problema cresce exponencialmente. E a conta vai chegar”, diz Ferreira. “É análogo à questão fiscal. Por que a Previdência ganhou espaço no Brasil? Porque o problema foi se compondo ao longo do tempo.”

Um dos dados mais impactantes no livro é sobre a origem de emissão de gás carbônico na atmosfera. Enquanto no mundo cerca da metade da emissão do gás poluente é decorrente de geração de energia elétrica e transportes (35% e 18%, respectivamente), no Brasil, 60% do gás carbônico vêm da agricultura e do uso inadequado da terra, o desmatamento. Energia, por aqui, gera apenas 8% de emissão. 

“O presidente Jair Bolsonaro diz que vai eliminar as emissões em 2030. Mas esse é o compromisso no acordo de Paris. Nós achamos que podemos eliminar antes de 2030. É do interesse do agronegócio. É um roubo de terra pública, em que criminosos pegam madeira, vendem de forma ilegal e promovem queimadas”, diz Gesner Oliveira. 

O autor complementa ainda que existe um desbalanceamento gigantesco nesse tópico. É uma ação que não gera renda, não afeta positivamente o ambiente, mas que tem um custo muito alto. Segundo ele, isso nada tem a ver com o dinamismo do agronegócio, mas acaba comprometendo a reputação do setor, porque são atividades comumente confundidas. 

O impacto positivo, inclusive, é cada vez mais importante, de acordo com os escritores do livro. Eles explicam que, há cerca de 50 anos, o foco no resultado era a única coisa que importava. Era a “primazia do acionista”. Hoje, segundo eles, é preciso mais do que resultado, é necessário que a atividade faça sentido à sociedade. E isso inclui ser sustentável. “Agora, tem uma força avassaladora de sustentabilidade no centro do capitalismo”, dizem. 

Melhor bonde da história 

O interesse por práticas ambientais tem aumentado em todo o mundo. E a onda a favor do ESG (sigla em inglês para ambiental, social e governança) é favorecida pela posição do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, que tem foco no meio ambiente, a exemplo da cúpula do clima, convocada pelos EUA e realizada recentemente. Os autores do livro ressaltam: “O Brasil precisa ter um projeto associado à retomada verde”. 

Gesner Oliveira fala que, de todos os “bondes da história” que o Brasil não conseguiu “pegar”, este é o mais difícil de se perder. “É o ‘bonde’ com maior potencial de ser pego. Pelo capital natural e pela história brasileira. Temos histórico com o programa do etanol, a Embrapa desenvolve medidas sustentáveis. Todas as características nos dão condições boas. O Brasil tendo um projeto de retomada verde estará alinhado com o mundo”, fala Gesner. 

O livro não acaba no conteúdo por si só. Há QR Codes em toda a extensão da obra com links complementares ao que está sendo explicado no respectivo capítulo. Além disso, no YouTube, há vídeos em que os autores debatem os temas abordados no livro. Artur Ferreira explica que os debates, inclusive, fizeram parte da origem do conteúdo. Antes da publicação, vários encontros com especialistas de diferentes áreas foram realizados para discutir os temas de maneira aprofundada.

Gesner Oliveira é Ph.D. em economia pela Universidade da Califórnia, professor da Fundação Getúlio Vargas, onde  coordena o Centro de Estudos de Infraestrutura e Soluções Ambientais e é sócio da GO Associados. Presidiu a Sabesp (2007-2011) e o Cade (1996-2000). Artur Ferreira é administrador de empresas, com ênfase em sustentabilidade e meio ambiente, pela Fundação Getúlio Vargas (EAESP/FGV), e é sócio fundador da empresa Global Forest Bond. 

Nem Negacionismo Nem Apocalipse - Economia Ambiental: Uma Perspectiva Brasileira

Autores: Gesner Oliveira e Artur Ferreira

Editora: Bei (304 pág., R$ 75, R$ 38 e-book)

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