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Plano atravessa revés e queda do PIB no trimestre

Desde 1º de abril, as estimativas de produção e de consumo no país despencaram

Denise Chrispim Marin, enviada especial de O Estado de S.Paulo,

19 de abril de 2014 | 18h35

TÓQUIO - O plano de Shinzo Abe para tirar o Japão da rota da recessão e deflação vive sua primeira prova de fogo. Desde 1º de abril, com o aumento do imposto sobre consumo de 5% para 8%, as estimativas de produção e de consumo no país despencaram. O Centro Japonês para a Pesquisa Econômica (JCER) projeta variação negativa de 4,04% do Produto Interno Bruto (PIB) neste segundo trimestre.

Da fase de otimismo, a política de crescimento econômico conhecida como Abenomics, passa agora para a da incerteza. A reação a esse choque já foi sinalizada pelo governo: uma segunda rodada de injeção de ienes no mercado está prevista para o início de maio ou de setembro.

Nas contas do governo de Abe, o PIB do ano fiscal de 2013, encerrado em 31 de março, expandiu 2,6% - o segundo maior porcentual desde 1996. A projeção levou em conta a antecipação de compras dos consumidores até o fim de março, bem como o impacto da maior quantidade de ienes em circulação na economia desde abril de 2013 e a desvalorização da moeda em relação ao dólar. Somente no primeiro trimestre deste ano, o PIB teria expandido 4,6%, segundo o JCER. Mas não há, mesmo entre os mais otimistas de seu gabinete, quem projete crescimento superior a 1,4% para este ano fiscal.

A arrecadação adicional esperada com o imposto sobre o consumo de 8% será aplicada na Previdência Social, área delicada para um país cuja população envelhece rapidamente. A decisão foi tomada pelo Congresso antes da posse de Abe, com o apoio de seu partido. As alternativas derrubariam a aprovação do governo, próxima a 70%.

Por enquanto, pequenos comerciantes e donas de casa ainda não veem os resultados do plano econômico adotado a partir de janeiro de 2013. Preferem poupar a comprar. O governo de Abe, porém, estima a expansão do mercado para o setor produtivo do país de US$10 bilhões, em 2010, para US$ 100 bilhões, em 2020. Kasumi Nakano, dona de casa de 50 anos casada com um executivo de companhia de seguros, tem seu Mercedes Benz novo e uma casa de quatro quartos em Musachino, na Grande Tóquio. Sua ambição é comprar uma cadeira de massagem nova.

"Não notei ainda aumento nos preços no supermercado, mas sabemos que tudo vai ficar mais caro agora. Por isso, vamos adiantar a compra da cadeira de massagem", afirmou, referindo-se a uma despesa de US$ 3.000. "A cadeira é muito importante para aliviar o estresse do meu marido."

Com sua pensão de viúva, Kuniko Otani, de 79 anos, comprou uma segunda casa para a filha. Kuniko trabalhou na oficina mecânica de seu marido e hoje recebe o equivalente a US$ 2.000 da Previdência a cada bimestre. Filha de agricultores, ela se lembra dos bombardeios americanos a Tóquio e dos anúncios sobre a iminente vitória japonesa na Segunda Guerra Mundial. Atualmente, sonha com um bom funeral. "Estou comprando meu túmulo."

Se o cinto ainda está apertado para a população, as grandes empresas já desfrutam de um ciclo de prosperidade. Segundo a SMBC Nikko Securities, 66% das empresas listadas na primeira sessão da Bolsa de Valores de Tóquio contabilizariam, juntas, lucro operacional de US$ 303 bilhões no período. A cifra é 36% maior do que a de 2012.

Em boa medida, esses resultados positivos se devem à desvalorização de cerca de 25% da moeda japonesa desde abril de 2013, em consequência do afrouxo monetário de US$ 520 bilhões. Essa medida está no coração da Abenomics. Se em novembro de 2012, antes da eleição de Shinzo Abe, o dólar era cotado em 80 ienes, em fevereiro fechou em 102,50 ienes. A perda de valor da moeda trouxe dois benefícios para as grandes companhias: as exportações de produtos fabricados no Japão aumentaram e a repatriação de dividendos das subsidiárias no exterior, em ienes, foi mais robusta.

"O PIB não reflete o poder econômico do Japão porque boa parte de sua indústria está fora", explicou Takahiro Sekido, economista-chefe do Bank Tokyo-Mitsubishi. Cerca de 6.000 empresas japonesas rumaram para a China no período de iene valorizado.

Abe acredita no retorno de parte dos investimentos dessas corporações ao Japão, sobretudo os de altíssima tecnologia. Os setores intensivos em mão de obra podem ficar e se expandir no exterior. Para estimular o retorno, a tributação sobre o lucro das empresas caiu de 38% para 35,6% desde 1º de abril.

Em setembro, Abe pode impedir o novo aumento na tributação dos consumidores que, em abril de 2015, deve saltar de 8% para 10%. Também decide mais uma queda no imposto das empresas. A Federação Empresarial do Japão (Keidanren) quer baixar para 28%.

Nos planos de Abe, os benefícios monetários e tributários para as empresas devem ter como contrapartida o aumento dos salários, que não crescem há dez anos. O aumento da renda das famílias será o combustível para a escalada do consumo e para a inflação alcançar 2% em abril de 2015. A outra peça, a ser anunciada em setembro, será o pacote de reformas estruturais.

S e a Abenomics tiver sucesso, a dívida pública do Japão, hoje de 240%, passará a 160% do PIB em 2030, estima o Keidanren. Não há riscos de suspensão de pagamentos pelo Japão porque o passivo tem longo prazo de resgate, o nível de reservas internacionais é alto e há grande volume de investimentos no exterior, Mas o país precisa reduzir sua dívida. "Nosso temor está no envelhecimento. Se a dívida pública não for diminuída, as futuras gerações enfrentarão severas dificuldades", afirmou Kiyoaki Fujiwara, diretor de Política Econômica do Keidanren.

Segundo Sekido, a Abenomics está no trilho certo e em velocidade adequada, apesar de os clientes do Tokyo-Mitsubishi queixarem-se da lentidão. Mas falta investimento doméstico, que pode ser contornada com o fim de restrições à aplicação do capital de fundos de pensão. Essa é uma medida esperada para setembro. "O governo não pode, sozinho, fazer todos os investimentos previstos no seu plano."

A revitalização da indústria japonesa, segundo a receita de Abe, passa pelo aumento de 10% no investimento produtivo até 2016, para cerca de US$ 700 bilhões, e a instalação de 10 mil novas empresas japonesas no exterior, sobretudo na Ásia. O investimento em infraestrutura voltada para a exportação saltará dos atuais US$ 100 bilhões ao ano para US$ 300 trilhões, em 2020.

A Abenomics não recebe apenas apoio e elogios, mas também críticas e ceticismo. A Mitsui, uma das maiores companhias dedicadas ao comércio exterior do país, pondera que talvez o país consiga manter o ritmo de crescimento econômico até 2020. Mas o envelhecimento rápido da população, sem uma política de atração de mão de obra estrangeira, pode azedar o plano. Abe, até o momento, não tocou no tema. "O envelhecimento é uma grande preocupação porque cria restrições ao crescimento econômico. A imigração é inevitável", afirmou Yusuke Suzuki, economista sênior do Mitsui Global Strategic Studies Institute.

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