Plano de política industrial ainda patina

Dois anos após anunciar o plano Brasil Maior, criado para estimular a indústria, governo vê cenário de queda na produção e no emprego

JOÃO VILLAVERDE / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

21 de julho de 2013 | 02h14

A política industrial do governo Dilma Rousseff completa dois anos em 2 de agosto, mas, dada a situação econômica vivida pelo País e pelas fábricas em especial, não há um clima de comemoração entre empresários.

Quando o plano Brasil Maior foi lançado, o governo federal disse que o programa iria nortear a estratégia para impulsionar a indústria de transformação, a inovação e o comércio exterior do País. Mas todos os indicadores desses três "eixos" estão com a luz amarela acesa.

Nos 12 meses acumulados em maio deste ano ante agosto de 2011, a produção da indústria de transformação foi 2,5% menor. Na mesma comparação, o pessoal ocupado nas fábricas encolheu 3,6%. Menos produção e menos emprego.

O mais preocupante é o cenário colocado para o comércio exterior brasileiro. No dia em que o Brasil Maior foi lançado, o governo tinha em mãos dados que apontavam um superávit de US$ 9,94 bilhões na balança comercial de 2011.

Agora, prestes a completar dois anos, a situação mudou completamente. Entre janeiro e julho de 2013, o saldo comercial é deficitário em US$ 3,5 bilhões. Para piorar, a participação dos manufaturados no total de produtos exportados pelo Brasil tem sido inferior à fatia dos bens primários desde 2010.

Ritmo. Segundo o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Andrade, o governo acertou nas medidas de estímulo à inovação no setor, com a criação de linhas especiais de crédito no BNDES e na Finep.

"Mas ficou faltando mais estímulos às exportações e ao investimento propriamente dito", afirmou Andrade ao Estado. Um dos principais interlocutores da presidente Dilma Rousseff no setor privado, o empresário avalia que a indústria "não está andando de lado, mas de fato está avançando muito devagar".

Para o economista Fernando Sarti, especialista em indústria da Unicamp, o governo acabou se concentrando em estímulos ao consumo das famílias, como a desoneração de bens de consumo, e não aos investimentos.

Segundo ele, "com a situação cambial facilitando o importado, o consumo vazou para bens adquiridos do exterior, e isso desestimulou a produção nacional". "O investimento caiu, e hoje o déficit comercial na indústria é quase generalizado."

Visão. Favorável aos estímulos dados à inovação, o especialista da Unicamp afirmou que tem faltado ao governo, no entanto, uma visão mais coordenada e menos reativa à crise, com o anúncio sucessivo de medidas. "O socorro de hoje precisa significar o investimento de amanhã. De outra forma, o governo fica apenas administrando o caos", disse Sarti.

Um dos principais formuladores do Brasil Maior, o economista Mauro Borges Lemos, presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), afirmou ao Estado que o sucesso da política industrial pode ser medido pela mudança na expectativa das empresas.

"Não podemos ficar olhando o retrovisor. Estou olhando para a frente, com o farol de milha aceso no meio da escuridão, e é inegável que o horizonte é muito mais favorável ao investimento do que aquele vivido em 2011 e 2012, que é o que vemos quando olhamos para trás."

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