Ucam/ Reprodução
Ucam/ Reprodução

Plano de recuperação da Cândido Mendes prevê venda de imóveis e desconto em dívida trabalhista

A universidade, que está em recuperação judicial há dez meses, tem dívidas de R$ 170 milhões com trabalhadores; imóveis que podem ser vendidos, a maioria no centro do Rio, estão avaliados em R$ 500 milhões

Denise Luna, O Estado de S.Paulo

11 de março de 2021 | 15h24

RIO - Dez meses depois de entrar em recuperação judicial, a centenária Universidade Cândido Mendes (Ucam) se prepara para apresentar em abril seu plano de recuperação aos credores. O plano propõe vender parte dos imóveis da instituição no Rio de Janeiro, avaliados em cerca de R$ 500 milhões. Aos credores trabalhistas, que respondem por 71% da dívida, será oferecido deságio de 35%, desconto considerado inédito por Luiz Roberto Ayoub, ex-juiz da recuperação judicial da Varig, nos anos 2000, e hoje consultor do processo pelo escritório Galdino & Coelho Advogados.

A classe trabalhista (classe 1), cuja dívida confessada é estimada em R$ 170 milhões, será paga em até dois anos e meio, podendo ser quitada antes, dependendo da venda dos imóveis. Para Ayoub, a revitalização do centro do Rio, projeto que propõe transformar a região em um bairro misto (residencial e comercial) deve melhorar e ajudar a monetizar os ativos. 

 

Para a classe 2, para devedores com garantia real, a proposta é de pagamento em até oito anos. É o caso do Banco do Brasil, que tem de cerca de R$ 2 milhões a receber da Cândido Mendes. Para a classe 3, formada principalmente por condomínios atrasados e outros fornecedores, a proposta é de deságio de 50%, enquanto os micro e pequenos credores (até R$ 30 mil), devem receber na totalidade ainda este ano, se a proposta for aprovada pela assembleia em abril.

"Cada uma dessas classes está fazendo um desconto muito conservador por minha orientação, como consultor. Nunca fui favorável a hipóteses que chegam à raia do absurdo de 80% a 90% de desconto. O credor, com o coração sofrido, aceita qualquer coisa, mas isso é uma confissão de inviabilidade", disse Ayoub ao Estadão/Broadcast.

Muito pelo contrário, disse o ex-juiz e desembargador: o fluxo de caixa da Ucam cresceu, mesmo em plena pandemia e dentro de um processo complexo como uma recuperação judicial, o que possibilitou um menor deságio para a classe trabalhista.

Segundo Ayoub, existe ainda a previsão da "Nova Ucam" abrir capital, mas quando houver fluxo de caixa suficiente para não comprometer o funcionamento da instituição.

"Está prevista a possibilidade de se transformar em sociedade empresarial no momento em que for possível. Enquanto o fluxo de caixa for necessário para garantir o funcionamento não é possível, mas ela vai fazer isso, está crescendo em um 'V' bem íngreme", afirmou o consultor. Ele diz confiar na aprovação do plano pelos credores, porque "a falência não é boa para ninguém."

De acordo com Cristiano Tebaldi, pró-reitor comunitário da Cândido Mendes, a instituição economizou R$ 27 milhões, nos 10 meses de recuperação judicial, apenas com reestruturações internas. Entre elas, a criação de uma central de serviços compartilhados - antes cada um dos 13 campus universitários tinha uma administração própria -, renegociações de contratos e mudanças de unidades antigas para mais novas, com redução de aluguel.

"Internamente, observamos que o processo de recuperação tem caminhado com êxito, porque muito da reestruturação já vem sendo feita. Fizemos um grande ajuste acadêmico e está em processo um ajuste administrativo, que tem otimizado recursos", diz Tebaldi. A Ucam não deixou de funcionar durante a pandemia.

A recuperação judicial teve como uma das motivações a queda do quadro de alunos, que já chegaram a somar 24 mil na instituição e em março do ano passado beiravam os 10 mil, sendo 8 mil presencial e 2 mil pelo sistema de ensino a distância (EAD). Com a pandemia, todas as aulas migraram para EAD. Tebaldi diz que a instituição está pronta para voltar ao ensino presencial, assim que as autoridades sanitárias liberarem.

"Em nosso plano de reestruturação, temos para a meta 2020-2021 manter a base de alunos de 2020 e 2021 no presencial e ampliar o EAD. Assim foi feito: mantivemos a base de 7,8 mil alunos no presencial, o que é uma perda ínfima no meio de uma pandemia e comparada a outras instituições, e o nosso EAD passou para 4.150 alunos, ou seja, mais que dobrou", disse o reitor.

Até o fim do ano, a previsão é que os alunos inscritos nos cursos EAD dobrem novamente. No presencial, a expectativa é de retorno no segundo semestre com o avanço da vacinação, com 11,5 mil alunos.

De acordo com Tebaldi, a ideia inicial é colocar à venda imóveis desocupados: um edifício inteiro de 11 andares na Praça Pio X, em frente à Igreja da Candelária, e quatro andares na Rua da Assembleia, ambos no centro do Rio, além de um grande imóvel no qual funcionava o Centro de Estudos da Ucam, na Estrada das Canoas, no bairro de São Conrado, zona sul do Rio.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.