AMANDA PEROBELLI/ESTADAO
Gizele e Thiago processam PDG por atraso em obra AMANDA PEROBELLI/ESTADAO

Plano de recuperação da construtora PDG prevê novo aporte de bancos

Para evitar falência, companhia vai tentar negociar captação de novos recursos com bancos credores para finalizar obras em andamento; cerca de 20 mil consumidores foram afetados pela crise empresa, cuja dívida total é de R$ 7,8 bi

Mônica Scaramuzzo e Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2017 | 05h00

SÃO PAULO - De maior incorporadora do País, a PDG virou um poço de problemas para os credores – majoritariamente bancos – e, principalmente, para seus clientes. Em recuperação judicial desde 22 de fevereiro, no maior processo do gênero no setor imobiliário, a empresa deve apresentar à Justiça até maio seu plano de reestruturação para tentar se reerguer. O desafio maior será concluir os 30 empreendimentos em andamento, 17 dos quais estão paralisados.

Segundo fontes ouvidas pelo Estado, a tarefa não será nada fácil. Com uma dívida total de cerca de R$ 7,8 bilhões – dos quais R$ 6,2 bilhões no processo de recuperação judicial, aprovado pela Justiça em 2 de março, além de cerca de R$ 1,6 bilhão não incluído no processo –, a PDG não tem hoje dinheiro para comprar um tijolo sequer. 

Da dívida total, R$ 1 bilhão refere-se a ações de clientes, que somam cerca de 20 mil pessoas – caso do casal Gizele Vieira e Thiago de Oliveira, que desistiu da compra do apartamento após a construtora informar que a obra atrasaria um ano e meio. Eles tiveram de refazer seus planos e hoje engrossam a lista de credores da PDG.

Em um mercado marcado por baixa demanda por imóveis, altos níveis de rescisão de contratos (distratos) e crédito restrito para as próprias incorporadoras, a PDG, que contratou a consultoria RK Partners e o escritório de advocacia E. Munhoz, vai tentar levantar dinheiro novo com os bancos credores, como Bradesco, Itaú, Caixa e Banco do Brasil, para conseguir terminar as obras. A propostatambém prevê a venda de apartamentos em estoque e terrenos para fazer caixa. Procurados, RK e E. Munhoz não comentam.

Recursos. Fontes a par do assunto afirmaram ao Estado que a companhia precisa de pelo menos R$ 500 milhões para terminar as obras. “Há mais possibilidade de os bancos colocarem dinheiro em construções em estágio avançado porque, dessa forma, podem vender os apartamentos ou pegá-los como garantia”, afirmou uma pessoa ligada a um dos credores. “Mas, para as obras que ainda estão no início, a alternativa seria repassar os empreendimentos a outras incorporadoras ou convencer os clientes a bancar o término das obras.” Procurados, os bancos não comentaram.

No mercado, há ceticismo em relação à recuperação plena da empresa, que chegou a ser avaliada em Bolsa em R$ 14 bilhões, em 2010, e hoje vale R$ 103 milhões. Em 2016, a PDG encerrou com prejuízo líquido de R$ 5,43 bilhões. O patrimônio líquido ficou negativo em R$ 3,4 bilhões. Ou seja, o valor das obrigações é superior ao dos ativos.

“A dívida é insustentável. A PDG adotou estratégias erradas: cresceu desordenadamente em regiões que não tinham como ter escala e buscou atender públicos muito diferentes”, disse uma fonte de mercado. Ainda assim, segundo pessoas familiarizadas com o assunto, a recuperação judicial foi o melhor caminho. “Não acredito em risco sistêmico, mas uma falência poderia prejudicar o setor”, disse outra fonte.

Futuro. Vladimir Ranesvsky, presidente da empresa, faz um “mea culpa” e reconhece que a PDG tinha um projeto de atuação nacional com imóveis de vários padrões, para diversos públicos, que não funcionou. Isso vai mudar. “O foco será tornar a PDG uma companhia bem menor, mas rentável e capaz de honrar seus compromissos.”

Hoje presente em nove Estados, o grupo deve focar em poucas capitais, mas não definiu qual será o seu nicho de mercado. Colocar esse plano em prática, porém, ainda depende do aval dos credores.

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Atraso em obras muda planos de consumidor

Cerca de 5 mil pessoas são donas de imóveis em empreendimentos paralisados da PDG

Luciana Dyniewicz e Mônica Scaramuzzo, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2017 | 05h00

SÃO PAULO - A chave de uma sala comercial de 18 metros quadrados em Cachambi, na zona norte do Rio de Janeiro, deveria ter sido entregue a Marcello Lutterman, de 52 anos, em fevereiro. Por enquanto, porém, não há previsão apra a conclusão das obras do empreendimento. Segundo Lutterman, a construção está parada há cerca de oito meses e a própria construtora suspendeu a cobrança das parcelas. O problema é que ele já quitou o valor total do imóvel.

Lutterman havia comprado um apartamento de cerca de R$ 500 mil no Recreio dos Bandeirante, também no Rio, em 2012. Ele chegou a pagar R$ 160 mil. Sem conseguir arcar com os juros e as parcelas, fez, em 2015, um acordo com a PDG: trocou o apartamento pela sala comercial, cujo valor correspondia ao que já havia sido pago à empresa. À época, Lutterman não quis rescindir o contrato e receber o valor pago (operação conhecida como distrato). “Eles já não estavam honrando (com o compromisso).” 

Agora, só resta ao comprador que a PDG reestruture sua dívida e retome a obra. De acordo com o site da companhia, 26% da estrutura do condomínio em que Lutterman tem a sala comercial ainda não foi concluída. Dos revestimentos internos, faltam 84%. Lutterman acredita que poderia estar cobrando R$ 1 mil por mês pelo aluguel do espaço. 

O carioca é um dos cerca de 5 mil donos de imóveis cujas obras ainda não foram entregues pela PDG. Esse número só não é maior porque os bancos que financiavam as construções da empresa trabalharam para que não se repetisse uma tragédia no setor imobiliário, como a da Encol, que quebrou em 1999 deixando 700 empreendimentos inacabados – a PDG tem 30 condomínios nessa situação.

O Estado apurou que os bancos não cortaram o financiamento de obras cujo índice de distratos era alto, conforme permitido pelos contratos. A intenção das instituições financeiras foi garantir o valor já concedido à empresa e ficar com os imóveis cuja construção for finalizada. “A ideia é mitigar o prejuízo. Os bancos amadureceram e viram que acionar a cláusula (que permite interromper a obra) pode levar a construtora à falência, o que prejudica os próprios bancos”, afirmou uma fonte.

Consumidor. Além dos 5 mil clientes da PDG que aguardam a finalização de suas obras, há aproximadamente outros 15 mil com problemas, como distratos não pagos.

casal Gizele Vieira e Thiago de Oliveira está entre os que esperam receber um pagamento da empresa após acionar a Justiça. Eles compraram um imóvel no fim de 2012 com a promessa de que seria entregue em março de 2015 – cinco meses antes da data marcada para o casamento. Quando o prazo venceu, foram informados de que haveria um atraso de mais seis meses. Terminado esse prazo, a PDG comunicou que a construção levaria mais um ano e meio. 

Eles acabaram desistindo do negócio e entraram com um processo contra a companhia. Hoje, vivem em uma casa alugada na zona norte de São Paulo – pagando R$ 1,7 mil por mês – e aguardam a devolução de R$ 60 mil determinada pela Justiça. “A ideia é investir o dinheiro para comprar um imóvel à vista. Não queremos mais passar por esse problema”, diz Gizele.

O advogado Marcelo Tapai, especialista em direito imobiliário, afirma que consumidores como Gizele e Thiago precisarão contratar um advogado para receberem seus créditos. No caso daqueles que têm imóveis em empreendimentos não finalizados, há a opção rescindir o contato, sob o risco de até não receber o valor, caso a construtora vá à falência, ou de aguardar a retomada das obras, voltando a pagar as parcelas quando isso ocorrer.

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