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Plano estimula armazenagem na fazenda

Lançado para a temporada 2013/2014 pelo governo federal, linha de crédito quer estimular produtor a investir em silos próprios

O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2014 | 02h15

O engenheiro agrônomo Ademir Pivatto, produtor de grãos em Nova Ubiratã, no médio norte de Mato Grosso, próximo a Sorriso, está debruçado, de alguns dias para cá, na elaboração de um projeto de armazenagem para sua propriedade, onde cultiva cerca de 1.000 hectares de grãos, entre soja, milho e feijão.

Se nesta safra já tivesse à disposição um silo próprio, principalmente com secador de grãos, não teria a perda que teve, de 12% da produção de soja, por causa do excesso de chuvas em fevereiro, auge da colheita. Juntando-se a isso a logística caótica na região, com pontes e estradas interrompidas e o déficit na capacidade de armazenagem, a consequência foi que não só ele, mas outros produtores da região, tivessem perdas. "Não houve tempo de colher essa soja e ela simplesmente apodreceu na lavoura", lamenta. O que Pivatto conseguiu colher foi com teor de umidade de 25% a 30%, bem acima do nível ideal, de 18%.

Para piorar, com grandes volumes de soja chegando simultaneamente aos armazéns com alto teor de umidade, o tempo de secagem se estendeu. "A fila de espera dos caminhões nessas unidades chegava a 36 horas", diz. Ou seja, a equação chuva, falta de armazém próprio e armazéns de terceiros sobrecarregados resultaram naquela perda.

Por isso o sojicultor decidiu investir no projeto de armazenagem, com a intenção de obter financiamento de cerca de R$ 3,5 milhões, para instalar na propriedade um silo com capacidade para 4.800 toneladas.

Moderinfra. A linha de financiamento pretendida por Pivatto é a que foi anunciada pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento em julho do ano passado, dentro do Plano Agrícola e Pecuário 2013/2014, advinda do Programa de Incentivo à Irrigação e à Armazenagem (Moderinfra). O programa prevê a liberação de R$ 25 bilhões, ao longo de cinco anos, na razão de R$ 5 bilhões por ano, para financiamento de sistemas de armazenagem - incluindo a obra civil, com juros de 3,5% ao ano, carência de 3 anos para começar a pagar e prazo de 15 anos. "É uma linha com prazos e juros bastante atraentes", diz Pivatto, que acredita que até o fim de maio dará entrada no projeto para obter o financiamento. O produtor só faz uma ressalva quanto ao licenciamento ambiental para as obras de armazenagem, "que deveria ser mais facilitado para que os produtores consigam investir em silos na propriedade".

Deficiência crônica. O plano de armazenagem foi lançado para começar a sanar uma deficiência crônica do agronegócio brasileiro e cada vez mais urgente de ser solucionada, dado o caos logístico de escoamento da safra do lado de fora da porteira - a falta de armazéns para estocar a safra nas propriedades rurais.

Conforme preconiza a FAO, órgão da ONU para a agricultura e alimentação, a capacidade estática ideal de armazenagem de um país deve ser pelo menos 20% maior do que a colheita total. O Brasil está bem aquém dessa recomendação. Para uma safra 2013/2014 de 190 milhões de toneladas, a capacidade estática do País está em 145,7 milhões de toneladas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), um déficit de 23,5%. Se considerarmos o excedente ideal preconizado pela FAO, o déficit salta para 43,5%. Além disso, o nível de capacidade de estocagem nas unidades produtoras brasileiras é de apenas 13%, quando nos Estados Unidos, por exemplo, chega a 40%, conforme o diretor da Esalq/USP, José Vicente Caixeta Filho.

Um retrato fiel dessa deficiência pôde ser constatado na safra passada, quando milhões de toneladas de milho de uma supersafra do cereal "dormiram" por dias para fora dos silos no Centro-Oeste, principalmente em Mato Grosso.

Otimismo. "O plano de armazenagem certamente deve melhorar a situação", diz o consultor especializado em logística da Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso (Aprosoja-MT), Edeon Vaz Ferreira. "Temos, em Mato Grosso, capacidade de armazenar apenas 65% da safra; os 35% restantes têm de ser escoados logo após a colheita", diz ele, acrescentando que a linha de financiamento tem atraído o produtor. Os números do Banco do Brasil confirmam isso. Conforme a instituição bancária - o principal operador do País em linhas de crédito rural, com 66,1% dos recursos, ou R$ 145 bilhões até dezembro de 2013 -, a Região Centro-Oeste tem sido o segundo maior captador dos recursos deste plano, com 23,3% das liberações, ante 60,3% da Região Sul - mais tradicional em armazenagem no nível da propriedade rural.

Ainda segundo o BB, desde que o Plano de Armazenagem foi lançado, já foram acolhidos R$ 2,3 bilhões em propostas. "Destes, R$ 791,7 milhões foram liberados até 4 de abril", informa o vice-presidente de Agronegócios e Micro e Pequenas Empresas do banco, Osmar Fernandes Dias. "Somente no BB existem em curso em todas as fases (análise, em liberação e liberadas) das diversas fontes (poupança rural, BNDES, FCO e Agricultura Familiar) mais de R$ 2,3 bilhões, o que representa 46% do volume total programado por ano dentro do Programa de Armazenagem."

A indústria da armazenagem também comemora o Plano do governo, que financia não só a estrutura metálica dos silos, mas o sistema como um todo, inclusive a obra civil, uma das partes mais caras de todo o sistema. Segundo o diretor vice-presidente da Kepler Weber - a maior fabricante de sistemas de armazenagem do País -, Olivier Colas, "esta linha é extremamente interessante para o setor", diz. "O Programa para Construção e Ampliação de Armazéns (PCA) deve representar novos negócios da ordem de 70% este ano", acredita. "Só em janeiro já tivemos um incremento de 40% nas vendas em relação ao mesmo mês do ano passado", comemora o executivo que, satisfeito com as condições propostas no PCA, dispensa modificações nas condições do programa no próximo Plano de Safra, a ser anunciado no começo de julho. "Sinceramente, não precisa de mais nada, pois as condições são bastante atrativas", diz. "O que poderíamos propor seria um aumento na verba anual de R$ 5 bilhões, mas ela tem contemplado as necessidades atuais do setor." / T.R., ESPECIAL PARA O ESTADO

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